TODO PROSA

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Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

VIADUTOS LITERÁRIOS

      Não sei o que o terno, poético e doce cronista e escritor Paulo Mendes Campos acharia ao ver que "post mortem" a prefeitura de Belo Horizonte o homenageou batizando um dos muitos novos viadutos da feia e árida avenida Cristiano Machado com o seu nome. Fato é que ao menos daria uma boa crônica.
      Agora toda a chamada ".linha verde" da Cristiano, para minha surpresa, tem viadutos com os nomes de notáveis escritores mineiros como o já citado Paulo Mendes e mais Fernando Sabino, Murilo Rubião, Oswaldo França Junior, etc, etc... minha dúvida é se devemos comemorar ou deplorar o fato.  Comemorar porque ao menos batizaram esses monstrengos de engenharia com nomes de gente de bem e de muito talento ao contrário do que costuma suceder. No passado Belo Horizonte chegou a batizar uma de suas ruas com o nome de um torturador americano que dava aulas de repressão aos nossos boçais locais. OU seja , bela evolução. Por outro lado a aridez e feiúra desses monumentos áridos não combina com a vida e obra dos homenageados e seria excelente que apenas alguns dos milhares de motoristas e transeuntes que passam sob e sobre esses viadutos soubessem ou tivessem lido um pouco da obra desses escritores. Mas ao fim parece que é melhor ter um viaduto na cidade com o nome de em ótimo escritor morto como Fernando Sabino do que um estádio ( como em Sobral, Ceará) com o nome de Ciro Gomes que além de péssimo e oportunista  político está vivo e bem disposto. Ou seja, Sobral tem muito o que aprender com Belo Horizonte.  

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Discursos imaginários que eu adoraria ouvir


(No Senado.De um senador cinquentão para José Sarney)


Prezado senhor presidente, senhores senadores, senhoras senadoras :

      Venho hoje a essa tribuna como tantos outros antes de mim assim o fizeram no passado dessa casa para tentar aqui um discurso que seja minimamente diferente, um pouco diverso do que aqui ouvimos após tantos anos de história republicana. Não me tomem por pretensioso, por falsamente perspicaz ou sequer por loquaz visto que tentarei ser breve muito embora tenha muito a dizer.
      Tenho 50 anos e pertenço a uma geração que viveu espremida entre o fim dos sonhos dos anos dourados da década de 50 e os ideais hippies e flower power dos 60. Crescemos à sombra da ditadura e logo pegamos o começo do yupismo , a crise novo rico de todo o planeta Terra , a queda dos muros, o começo da Aids e o fim da utopia do amor livre e do sexo sem culpa .Uma geração feita de estilhaços que tentou buscar identidade própria em meio a tantos espelhos partidos. Uma geração jovem que nasceu velha quando se colocou a globalização na ordem do dia. Por isso senhores e senhoras fico feliz em poder me dirigir hoje a vocês do alto dessa tribuna e ter de vocês um minuto de vossas desatenções , sempre ocupadas em atender aos celulares a interesses escusos, para que eu deixe claro que um cinquentão na política é sempre taxado, ainda, de jovem. Jovens cinquentões representantes talvez de uma geração sem cara.Mas se jovem sou no ofício quero deixar claro que quero representar aqui minha própria voz e a dos meus pares e não ser “representado” por aqueles que pretensamente jovens já nasceram provectos em idéias e ideais como o jovem senhor senador Aécio Neves.
      Por favor senhoras e senhores não me tomem em mau juízo. Nada tenho contra o neto do senhor Tancredo Neves. Apenas quero deixar claro que milhares como eu não se sentem ou jamais se sentirão representados por “jovens “ senadores como Aécio Neves cujo frescor de novidade política equivale a uma espécie de Matusalém da Pampulha. Seu ideário lamentavelmente não está sintonizado com os novos tempos e aquilo que pronuncia num constante ramerrão de mesmices é o mesmo que estamos ouvindo desde os tempos idos e vividos da política do café com leite.
     Mas senhoras e senhores senadores, ilustres excelências que tanto prezam os pronomes de tratamento, as mordomias e as mesuras. Não estou aqui para empanar o brilho de sorriso de dentifrício do senador Aécio mas, repito, tentar dar um mínimo tom de novidade aos discursos dessa casa, tentativa talvez vã de desafinar o coro dos contentes. Tentar aqui reproduzir o que milhões de cidadãos brasileiros gostariam de dizer aos senhores mas não podem porque mesmo quando somos eleitos em nome deles não praticamos aqui a sinceridade. Viramos argutos, hipócritas, trocamos a sinceridade pela hipocrisia, pelas conveniências, pelos falsos abraços . Tristes figuras nos tornamos.
      A democracia tão arduamente defendida aqui por gregos e troianos, a democracia sempre evocada até por aqueles que a ela deram as costas deve ser praticada com efeito sim senhores. E se democracia é o que aqui defendemos porque não começamos por evocar através dela o livre –pensar ? Por que, por exemplo, devemos nos calar diante do abismo em que nos colocamos diante dos brasileiros quando elegemos mais uma vez para presidir essa casa o senador José Sarney num claro divórcio entre o que quer e pretende o senado federal e o que quer e pretende a opinião pública ? Será que não ouvimos o clamor das ruas, o "Vox Populi Vox Dei" que tem o presidente dessa casa em tão baixa conta ? Será mesmo que o presidente dessa egrégia casa acredita que o povo brasileiro o ama e venera, o respeita e glorifica ? Ora, o presidente dessa casa se diz intelectual, escritor, é um acadêmico que lê jornais, emprega assessores com altos salários para lhe prestarem ajuda na área de comunicação e de pesquisas e portanto deve saber que sua popularidade é abaixo de zero em todos os estados da federação excetuando-se o Maranhão onde controla a mídia e o Amapá por onde se elege .
     O presidente José Sarney antes de mais nada é uma figura que se tem em alta conta. Tanto que construiu em patrimônio público , o convento das Mercês em São Luis,um memorial em sua própria homenagem para tentar garantir em vida a imortalidade que fatalmente não virá não apenas pelos inúmeros desserviços que prestou à nação mas pelo seu próprio raquitismo político e intelectual que o coloca quando muito como uma figura risível na nossa crônica política e literária. O senador Sarney é o maior exemplo daquele que acha que foi sem nunca ter sido. Fica há anos-luz de poucos senadores notáveis que passaram por essa casa como o falecido e vulcânico Darcy Ribeiro para citar apenas um exemplo de homem público que foi tendo sido.
      Muitas das vivandeiras do senador José Sarney vão se sentir ultrajadas com essas minhas palavras aqui da tribuna. Mas saibam senhoras e senhores que represento muitos. “Meu nome é legião” para usar aqui um clichê de filmes de terror quando uma entidade incorpora a voz de muitas outras. Eu sou o cavalo de muitos aqui, sou uma entidade que clama por vergonha para essa casa.
    E por que justamente agora me presto a esse serviço ? porque não podemos simplesmente fechar os olhos ao que acontece no mundo. O Oriente Médio tenta à custa de muitas vidas expurgar seus ditadores nefastos, a vanguarda do atraso nos países que desgovernam. E não é que justamente por conta desses ditadores que já vão tarde surgiram comparações inevitáveis entre esses senhores e o presidente dessa casa resguardando todas as devidas proporções ?
      Sim, não façamos aqui nenhuma ligação do senador Sarney com torturas, assassinatos e outras barbaridades. Mas não esqueçamos da conivência do presidente dessa casa com toda sorte de episódios e escândalos desde que ele se tornou um homem público. Sem contar o seu protagonismo diante da condescendência com a ditadura militar de 64 a 85 e sem falar das peças que mexeu para submeter o jornal O Estado de S. Paulo a censura incabível nos dias de hoje.
     Nada tenho de pessoal contra o senador Sarney. Também nada tenho a favor pois sou sincero em lhes dizer que seu estilo imperial e feudal é tão descabido que me provoca sinceros engulhos. Apenas insisto em apontar os inúmeros defeitos de fabricação do presidente dessa Casa pois , infelizmente, a figura que preside o senado acaba por ser o out- door dessa casa. E eu sinceramente me envergonho do senhor e pelo senhor senador Sarney. Triste saber que o senado do meu país é representado por um político com esse currículo. Tenho tristeza por mim,pelos meus filhos e pelos meus netos que virão. O senhor sempre preferiu , com vosso poder feito de barganhas, ser temido do que amado. Eu nunca o temi senador . E jamais poderia amá-lo pois no fim das contas, depois da poeira da história, a gente acaba mesmo é só amando os justos, os sábios, os eternos. O senhor , felizmente, não será infinito nem enquanto durar e apesar de no fundo do meu coração eu lhe desejar muita saúde eu gostaria que hoje o senhor estivesse presidindo apenas uma mesa de ceias na ilha do Curupu. No fundo mesmo eu queria que o senhor tivesse uma vida muito longa distante dessa casa para que a distância o senhor percebesse o quanto sua ausência preencheria muitas lacunas. Muito obrigado pelas vaias dos senhores e senhoras senadoras que o elegeram ao fim desse discurso pois sei que lá fora os aplausos daqueles que apearam os Mubaraks do poder haverão de me alcançar para que eu também, mortal comum, viva a ilusão de ser um Sarney. O que imagina ter sido algo além do que um cavaleiro de triste e melancólica figura.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

SOB A MANCHA DE ÓLEO...


Eu broto do meio da marginal congestionada
a fina flor da maçada paulistana
a criar galhos entre os edifícios
e os trens cariados
que partem para Francisco Morato

Eu broto da minha própria
dor de dente
a não me importar mais
com direitos autorais
ou sambas de breque do Bixiga
porque de noite não rondo a cidade
a lhe procurar

Eu broto do meio do asfalto quente
a me alimentar do sangue
dos motoboys encardidos
que perecem todos os dias
nas fronteiras da sarjeta

Eu broto 
eu frutifico
não sou estéril 
me multiplico
em meio às borracharias
e a tantos calendários obscenos
que não marcam os ânus plenos

Eu sou uma praga rasteira
uma erva daninha
uma porção da louça portuguesa
quebrada pelos nossos avós

Sou a poesia dos Pinheiros
a meditação do Tietê
a onda do Tamanduateí
sou a serra do Japi

Eu erro, eu errei
não era para estar aqui
mas compareço a toda chamada
afinal é a São Paulo desalmada

A terra que descarna o meu coração
o meu avesso do protesto
meu insensato manifesto modernista
que solapou o homem, a mulher
mas não destrói o coração do artista
assim é pois se lhe parece

o gesto fica
a ação prossegue
e eu broto assim
insensata sensação que permanece...

                                                             ***

Ricardo Soares
21/06/2010

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TEDIOSO CISNE NEGRO

      Resolvi que não ia tocar no assunto até porque já falaram demais a respeito. Mas dois dias após assistir a "Cisne Negro" reconsiderei e resolvi escrever  a respeito por um único motivo : não poderia deixar passar batido, sem comentários, um dos poucos filmes que em muitos anos de vida de cinéfilo me fizeram sair de uma sala de cinema. "Cisne Negro" está sem dúvida na minha galeria dos filmes mais tediosos que já assisti ( ou quase)  na vida . Um equívoco do começo ao fim. É a versão cinematográfica da obra completa do "Engenheiros do Havai". Chata, pretensiosa, rala e cheia de clichês. 
  Não esperava que fosse tão ruim até porque tinha gostado muito dos filmes anteriores de Darren Aronofsky como "Réquiem Para um Sonho" e "O Lutador". Também gosto dos atores Vicent Cassel e Natalie Portman que protagonizam esse filme. Assim não poderia supor tamanha catástrofe e nem posso  amenizar o meu tom já que sequer suportei os vinte minutos finais da chatice que dizem ser apoteótica embora repleta dos clichês que costuraram toda a trama, aliás um roteiro de novelinha das seis com pretensões de David Lynch.
   Como cinema é uma catástrofe narrativa tediosa.Como locações uma chatura sem fim rodada dentro de salões de ensaios de bailarinos em busca da perfeição, a competição para ser o melhor,aquela eterna obtusidade que permeia o sonho americano e transforma a vida deles num vestibular constante. 
   Agora o que é divertido mesmo é passear os olhos pela internet e ler comentários de leitores e espectadores em relação ao filme. Gente que quer parecer inteligente buscando significantes e significados numa chatura sem fim.Especialistas (ólogos e atras)que buscam as nuances da loucura dos personagens, etc, etc,etc...que preguiça."Cisne Negro" é apenas péssimo cinema e por isso mesmo é capaz que arrebate algumas estatuetas do Oscar.  

REYNALDÃO E A MORTE NÃO ANUNCIADA

         Há pouco mais de um ano escrevi aqui nesse blog sobre o melancólico desaparecimento do ex- prefeito de São Paulo Celso Pitta que muito tempo antes de morrer já era considerado um cadáver político.(Leia aqui) Coincidência ou não outro politico que como Pitta se envolveu com o nefasto Paulo Maluf morreu semana passada e seu desaparecimento sequer foi notado. Estou falando do ex-prefeito de São Paulo Reynaldo de Barros que muitos chamavam de Reynaldão ou até de Zé Colméia.
     Se ele foi ou não inexpressivo como político, se teve ou não relevância pouco importa agora. Sua morte prova mais uma vez o quanto é efêmera a vida pólítica ainda mais para sujeitos que não tem idéias ou ideais próprios e se contentam em ser satélites de outros politicos de maior relevância para o bem e para o mal. Se já não ouvimos falar hoje em dia de homens como Pitta e Reynaldão  que dirá daqui há alguns anos ?  A galeria de tipos como esse é extensa e inclue nomes como os de Francelino Pereira, Aureliano Chaves de Mendonça, Djalma Marinho, Alberto Goldman e muitos muitos outros. Será que ao se debaterem tantos por cargos, honrarias e salários essa enorme malta de políticos sem expressão não pára pra pensar que a vida deles é curta demais e que é melhor ser lembrado por aquilo que fizemos do que pelo que deixamos de fazer ?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ROBINSON CRUSOÉ, O VERDADEIRO,finalmente...

     
     "Dádivas são os clássicos". Frase feita que alguns intelectuais pedantões adorariam mas que cabe como luva para definir alguns clássicos da literatura universal  como o  fascinante livro "Robinson Crusoé"do lendário Daniel Defoe que muito antes de beatniks e de mochileiros,intergaláticos ou não, narrava as venturas e desventuras de um personagem que colocou o pé na estrada( no caso aqui, no mar) e caiu no mundo tendo passado, entre outras sagas,quase 30 anos numa ilha deserta.
       Enorme é o arrependimento tardio de só ter tido  acesso à versão integral e verdadeira do livro agora quando coloco o ponto final na leitura dessa tradução (de Domingos Demasi) que foi realizada para a competente coleção "Clássicos de Aventura" organizada para a editora Record pela escritora Heloísa Seixas onde constam ,entre outros títulos , " As Viagens de Gulliver"de Swift  e "A Ilha do Tesouro " de Robert Louis Stevenson.
       Conhecer alguns clássicos ao qual tivemos acesso de maneira diluída tem lá suas vantagens. No caso de "Robinson Crusoe" é descobrir que Defoe foi muito mais talentoso do que se imaginava e antecipou de melhor maneira recursos de estilo e narrativa ao final do século XVII que foram muito melhores que alguns usados posteriormente por criadores que fizeram inclusive a televisiva série LOST que se utilizou fartamente do material ficcional concebido por Defoe séculos antes.
       Se você não leu recomendo muito especialmente a edição a qual me referi ( cuja capa está acima) porque entre várias incontáveis surpresas você vai descobrir que o protagonista não teve suas incontáveis aventuras apenas no mar ou na ilha deserta onde se refugiou com seu criado Sexta- Feira.Sua saga passa por um Brasil Imperial disputado por portugueses e espanhóis e por nevadas planícies cobertas de neve numa França longinqua assombrada por alcatéias de lobos famintos e ferozes.Grande Defoe! dando aula de estilo até hoje.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Você quer mercearia e eles querem shopping center

   Você quer uma mercearia, um pão quentinho da padoca,uma quitanda e eles vêm com shopping center,fast food,delivery. Você quer um cantinho natural cheio de árvores, vasos e até anturios e samambaias e eles vem com lounge, happy hour, palmeirinhas de Beverly Hills. Você vem com sua estética "casa de campo para compor rocks rurais"  e eles chegam com carrões importados,babás fantasiadas de babás , a eterna noção de que nos dividimos em Casa Grande & Senzala. Enfim você quer ser um refugiado ambiental,um exilado da cidade grande e eles trazem a cidade grande para perto de você. Você quer Mauá (RJ),Monte Verde (MG) e Tiradentes (MG)  e eles querem Miami, Barra da Tijuca. Você quer Granja Viana e eles querem Alphaville.

(foto Miguel Tnent)
    Esse é um dilema triste , resumo de tantos dilemas que os seres urbanos e ainda humanos se defrontam diante dos seres urbanos, predadores ambientais e consumidores compulsivos idiotizados pela mídia e pelas grifes. Os compulsivos, cuja caricatura máxima se traduz nas figuras das peruas, das Patricinhas e dos Mauricinhos,estão vencendo.E espremendo a maioria que luta (em vão ?) por consumo sustentável,consciência ambiental, valores humanistas.Me recuso a achar que o mundo é deles mas como é triste,todos os dias, ver que eles ganham terreno e jogam nossas esperanças pra escanteio apesar de tanta tragédia provocada por essa ética e estética individualista.Eles não são seres recicláveis e resta perguntar.Acordarão e um dia serão ou estamos vencidos. A Granja Viana,último dos bolsões verdes ao redor de São Paulo que agoniza diante da sanha destrutiva, é apenas uma metáfora que ilustra os danos que essa gente causa. Eu adoraria não pensar assim. Mas como eu adoraria que a espécie deles entrasse em extinção.  

domingo, 6 de fevereiro de 2011

o país dos Severinos...

    Na triste história de nosso triste Congresso Nacional poucas figuras foram tão risíveis, patéticas e caricatas quanto o elemento da foto, o ex-deputado e atual prefeito de João Alfredo (PE) , o tal Severino Cavalcanti. E por que perco meu tempo lembrando dessa cavalgadura de triste figura num lindo domingo de sol como esses ?Simples.Porque me deu a saudável constatação (ao revirar jornais e recortes antigos que vão para o lixo)de perceber que nem todas as nefastas profecias se cumprem.
   No suplemento  "ALIÁS"  do jornal "O Estado de S.Paulo" do domingo 25 de setembro  de 2005 o meliante Severino, que havia acabado de ser apeado do cargo de presidente da Câmara após escândalo de corrupção, vaticinava a sua volta: "Voltarei . O povo me absolverá", disse em seu discurso de renúncia após 217 dias de nossa vergonhosa era. Por sorte não voltou. Foi parar como prefeito no seu municipio de origem  eleito para prefeito em 2008 com 8.632 votos. Melhor seria se não tivesse parado em lugar algum mas assim não quis o povo de sua terra ,manipulado pelos eternos votos de cabresto que ainda campeiam pelo país afora.
     Severino é passado. Mas é bom que lembremos dele.É uma maneira de sermos minimamente otimistas em relação ao futuro, ainda mais agora com a "renovação"(????) do Congresso Nacional. Seria bom que os candidatos a Severino ,no país dos Severinos, pensem que as vezes as mamatas dão errado. No país da impunidade alguns já são punidos. Isso, sem dúvida,é um bom sinal. E pensar que antigamente quando falávamos de Severinos o que nos vinha a mente era apenas o sofrido protagonista do poema de João Cabral. Mas , como vimos, há pernambucanos ( como João) e pernambucanos como Severino Cavalcanti. E muitos tipos de vida severina...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

4 de fevereiro

Sem drama. Mas há épocas na nossa vida que os achados parecem perdidos. Por motivos vários, motivos muitos, tenho dado de cara com originais de contos, crônicas e poesias que durante muitos e muitos anos cometi e jamais publiquei. Não cabe aqui dizer se foi por excesso de zelo,medo de julgamento ou por considerar que, sinceramente,eram ruins mesmo e só me serviram como válvula de escape para suportar as gangorras da vida...no meio disso tudo,  dessas montanhas de originais dei de cara com um textinho curto que se embutia num projeto maior que simplesmente tinha o título de 4 de fevereiro.Não foi escrito num 4 de fevereiro e sequer consta que ano foi. Mas cá está abaixo para deleite ou desgosto de quem me lê. Se foram até  o fim entenderão porque a foto que ilustra o post é um bolo cuca.

4 de fevereiro

Engraçado que ela não tenha achado o caderno de receitas da mãe depois de ter revirado toda a casa. Queria fazer o bolo cuca, especialidade da família , com muito açúcar queimado por cima. Serviria o bolo com chá mate bem forte quando o marido voltasse de noite para casa. Uma maneira doce de se desculpar pelo escândalo de ontem à noite quando quebrou um vaso amarelo na cabeça dele em uma boba discussão por ciúmes.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

AULA DE ZOOLOGIA



Toda leoa precisa de um leão
Como precisa a manteiga do pão
E a planta fértil precisa do chão


Destino de bicho
Saga selvagem
Todo amor que vira concreto
Precisa ter seus dias de miragem...

***

Ricardo Soares
30 de junho de 2010- 23 e 30

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SABEDORIA DO CORAÇÃO

    Sabe o que o coração diante da razão ? Sabe o coração que não reflete, que se joga, se impulsiona por si próprio diante do vácuo,  do arrepio, da tenebrosa sensação de estar diante de um precipício ? Sabe o coração que chega na borda do abismo, perigoso, mas mesmo assim dá um salto no escuro e mergulha no vazio ? Sabe o coração que ele é o pai de todos os riscos ? e que em nome dele tantos desatinos e desapreços são praticados ?
   Sabe o coração que ele é a tecla de um piano antigo, a corda do enforcado, a lâmina da guilhotina, o olho do furacão, o núcleo da barricada , o marinheiro que perdeu as graças do mar, o céu da boca, o céu de estrelas do deserto infindo , o cheiro de um bolo de laranja no sertão da Mantiqueira, a água gelada da cachoeira bem vinda, a noite infinda num breu de medo , o choro do filho diante da febre e do escuro, o rito do acasalamento maduro , o desapego em relação ao futuro ?
    Sabe ser ele o coração uma porta entreaberta, uma vidraça escancarada diante do mundo, um poema inglês de Fernando Pessoa, um verso caolho de Camões, os pés de vulcões de Saramago em Lanzarote, as bananeiras de Garcia Marquez , os espelhos de Jorge Luis Borges, as paixões acumuladas de Vinicius de Moraes ? E se todos fossem iguais aos corações combalidos, os gritos ouvidos, aos sextos sentidos, ao cheiro de lavanda que cai sobre essa cama ?
   Sabe ser o coração um fim de semana de praia, uma falésia colorida, um peixe que sobrevive fora da água, um sargaço que prende o navio, um galeão assombrado de passado, uma possibilidade de cura, uma enorme frente que batalha pela paz, uma geleira que não derrete, um brilho fosco, uma água que escorre pela torneira da pia rumo a lavagem dos pecados  ?
   Sabe sim ser sábio o coração. Coração na boca, coração na mão, coração que pulsa no samba canção , coração que não atravessa o ritmo,que demarca a batucada, coração escondido no vão da escada, coração de papel flambado, coração de mãe , coração untado na manteiga divina, coração enigma maior de toda sina.

***
Ricardo Soares
3 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

IMERSÃO EM SI MESMO ou A arte de revolver sacos de lixo

  
     Aí num dia como o de hoje,sem maiores ou menores motivos aparentes, você resolve revolver enormes sacos escuros de lixo repletos de papeladas, recortes, jornais,revistas, escritos do passado. Sacos trazidos de sua ex-casa onde você já não mora há mais de oito anos. Sacos que estiveram lacrados e que trazem mais boas do que más surpresas como velhos cartões de natal,bilhetes do pai falecido,originais de crônicas, poesias e contos que remontam até a  1980,uma série de reportagens especiais escritas para o "Diario do Grande ABC"em 1983 sobre lei de proteção aos mananciais,folder de lançamento do "Caderno 2" do Estadão em 1986,reportagens muitas escritas nos anos 80 para o Caderno B do "Jornal do Brasil", cartas de remotos telespectadores do "Metrópolis" de priscas eras,cartas de admiradores de crônicas escritas para o caderno "Cidades" do Estadão nos anos 90 e assim por diante. 
    Tudo datado,tudo de uma era pré- Internet e pré-Google, uma época onde ainda havia papel carbono (achei uma caixa dentro de um dos sacos!)e onde os repórteres pesquisavam em bibliotecas e departamentos de pesquisas mesmo que dos seus próprios jornais. Aliás uma época onde os repórteres liam ao menos os jornais onde trabalhavam.
     Sujando as mãos desse pó do passado hoje confesso que não me entristeci.Não fiquei nem com a sensação do dever cumprido e nem com a sensação do ter o que fazer ao folhear exemplares de revistas que ajudei a fazer como TRIP, BOOM e Rolling Stone. Apenas me deu mais uma vez a certeza de que pouco vale o já feito visto que o feito não  é lembrado ainda mais se você (como eu) não tem a menor preocupação de digitalizar os seus feitos ou o seu passado.
      Com essa constante sensação de que o que vale é a novidade do dia, o imediato,a gente se defronta com o passado,sobretudo o profissional,como se fosse um velho ponto de ônibus que já foi muito frequentado mas que hoje está abandonado. A solução,se vai se optar pelo otimismo,é embarcar em novos ônibus que podem não ter lá esse conteúdo todo  mas são novinhos e reluzentes até que a novidade da semana que vem os sucateie também.  Estão vendo o resultado de fazer uma imersão em si mesmo ? 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A QUEIMAR CARTAS DE AMOR...


   A primeira mulher que lhe escreveu cartas de amor o fez com letras miúdas e intenções graúdas espalhadas em parágrafos longos e intensos, cheios de exclamações,suspiros e até espasmos. O coração dela batia ao ritmo das frases e elas eram tão sinceras e derramadas que podiam se ouvir ao fundo dos adjetivos o ruído de sinos remotos que tocavam.
    Nunca soube ele o motivo de ser o inspirador de cartas de amor das mulheres visto que não se achava tão intenso e passional quanto as cartas que inspirava. Era até um sujeito metódico que dormia sempre na mesma posição e sempre deixava o creme sobre o pincel na véspera de fazer a barba.
     Assim sendo não surpreende que a segunda mulher que lhe escreveu cartas de amor tenha tentado se cortar nos finos braços alvos manchando de sangue o papel acobreado onde confessava sua lascívia e seu desespero. Sua letra rotunda revelava uma paixão cheia de afluentes e ele não deu conta de tanto transbordamento.
     Ele sempre relutou em ler sob a luz dos abajures e a olhar direto nos olhos das amadas, temendo ver além ou através delas,temendo se ver diante da revelação de uma paixão encontrada que é aquela que floresce quando identificamos que atrás da maquiagem e acima das olheiras há muito mais a desvendar.
     Assim sendo não surpreende que a terceira mulher a lhe escrever cartas de amor tenha sido uma míope de olhos intensos e espremidos, mulher que mordia os lábios quando sofria e que assoprava seus próprios calores com um comedimento incompatível com o fogaréu dos seus escritos.
     Assim sendo ele foi indo. Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas. Ao fim ,por mais intensas que fossem, acabou por achar que todas aquelas cartas eram banais, fugidias, filhas apenas do arroubo do momento. E assim sendo,rasgou todas elas,debruçou-se sobre a pilha e ateou fogo. Ao queimar todas elas tornou-se enfim fiador do seu próprio esquecimento...

***
Ricardo Soares- 1 de fevereiro de  2011,meia noite e dez

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