TODO PROSA

Minha foto

Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Fantasia Fante

Pergunte ao pó , acumulado nos cantos escondidos, sob o carpete...pergunte ao pó do deserto, caatinga, aterros...pergunte ao pó dos desterros eternos e ao pó que se acumula nas montanhas russas da vida, nos parques de falsas diversões... pergunte ao pó acumulado entre os dedos nas sandálias de Vera Rivken, pergunte ao pó que se desprende dos alfarrábios, ao pó que se levanta das ruas de Luanda,ao pó vindo dos tropéis dos cavaleiros de Aruanda...pergunte ao pó de mico, pergunte ao Fante... pergunte que , enfim , eu fico...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ocidentais Infernos




Ocidentais Infernos


Com pesar relembro
que os ingleses se acharam donos do ar
enquanto os portugueses legislaram sobre o mar

azar o nosso que nos sobraram apenas as correntes oceânicas
o vai e vem das marés
restos de sargaços que chegam nas praias
tartarugas amputadas por redes malditas

somos lerdos no processo histórico
de nosso próprio esquecimento
achamo-nos nobres
mas somos pobres sobretudo de espíritos


afogamos as nossas mais velhas tradições
em nome de deuses mais modernos
e ao invés dos paraísos indígenas
nos legaram ocidentais infernos...

                                                        ***
Ricardo Soares

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sou do tempo em que...

        Alguns amigos e conhecidos dizem , com razão, que tenho saudades de um tempo em que não vivi. Algo bem próximo da síndrome exposta no filme "Midnight in Paris", o mais recente e poético Woody Allen. Talvez, no meu caso, eu quisesse ter vivido na São Paulo dos anos 20, época da eclosão da Semana de 22 para ver Villa Lobos reger descalço, Bandeira declamando "Os Sapos", Mário e Oswald flanando pelo Municipal. Por outro lado meu jeito cítrico de ser talvez se entediasse com aquela oligarquia cafeeira paparicando esses intelectos muitas vezes tão hipervalorizados quanto hoje o são pedantes como Arnaldo Antunes e outros. 
    Mas deixa essa minha língua para lá pois quero falar que sou de um tempo outro, saudosismo ou não , de um tempo em que não se confundia pensatas aleatórias com crônicas, um tempo de consistência e mais coerência e sobretudo um tempo em que o Estado tinha funções especificas que era, no minimo , dar em troca para os cidadãos benefícios merecidos pelos impostos que pagamos.
    Esse tempo passou  sobretudo quando percebemos que se o Estado deveria nos suprir em saúde, transporte, educação e segurança e nada faz chegamos ao absurdo surreal de nos perguntar para que entáo pagamos impostos. A economia neoliberal, globalização e discurso tucanoíde na presidência de FHC nos fez achar que é normal um Estado esvaziado de obrigações, todas elas privatizadas e entregues à iniciativa privada. Quer segurança cidadão ? pague por ela !  quer boas escolas pra seus filhos ? pague bem caro por elas ?  quer saúde ? pague as Golden Cross da vida que embolsam milhões e pagam muito mal os médicos credenciados . Ah!!! e quer transportes ? compre seu carro, pague seu Ipva e sobretudo pague muito mas muitooooo pelos pedágios, especialmente se você estiver no "desenvolvido" estado de São Paulo. Afinal a grande herança tucana além de privatizar até banheiros públicos ( como no caso da estação Barra Funda do metrô e outros exemplos) foi trazer a noção de "mudernidade" de que se quer o melhor tem que pagar. E ainda falam do grande estadista FHC e seus satélites. Cansei "professor" de a cada 30 kms de estradas paulistas ter que pagar para rodar em benefício dos seus amigos privatistas. Sou de um tempo em que não nos faziam de bobo assim descaradamente.

sábado, 23 de julho de 2011

AMY WINEHOUSE FOREVER

(impressionante como a letra traduzida dessa canção do Pink Floyd cabe como luva em Amy Winehouse)


Brilhe seu Diamante Louco


Lembra quando você era novo?Você brilhou como o sol.Brilhe seu diamante loucoAgora há um olhar em seus olhosComo buracos negros no céu,Brilhe, diamante loucoVocê foi surpreendido pelo fogo cruzadoDa infância e do estrelatoFundido na brisa de aço.Venha, alvo de risos distantesVenha, seu desconhecido, sua lenda,seu mártir, e brilhe!

Você alcançou o segredo cedo demais,Você chorou para a lua.Brilhe, diamante louco.Ameaçado pelas sombras da noite,E exposto a luz.Brilhe, diamante loucoBem, você desgastou suas boas vindasCom precisão aleatória,Cavalgou na brisa de aço.Venha sonhador, você visionário,Venha pintor, em você flautista,prisioneiro, e brilhe!


Ninguém sabe onde você está,Quão perto ou longe.Brilhe, diamante louco.Empilhe muitas camadas a maisE estaremos nos unindo lá.Brilhe, diamante louco.E nós nos aqueceremos na sombraDo triunfo de ontem,E velejaremos na brisa de aço.Venha menino,Ganhador e perdedor,Venha mineiro da verdade e da ilusão,E brilhe!





    Hoje muitos estarão a falar dela nesse universo virtual atomizado. Milhares de admiradores pelo mundo todo. Admiradores e não fãs pois há muita diferença entre um e outro. Sou um admirador tardio de Amy Winehouse mas desde o dia em que a ouvi pela primeira vez foi acachapante. Cheguei a comentar com meu filho mais de uma vez que temia ser esse o fim dela,um fim precoce. Era enfim a crônica de uma tragédia anunciada e a mídia voraz por tragédias vai mais uma vez se esbaldar em cima de Amy . Exatamente como fazia quando ela vivia. Mídia muito mais preocupada com sua triste sina de junkie do que com  o talento impressionante dela como cantora, compositora e performer. Ela era um banquete para essa mídia baixo astral que se estabeleceu como regra no Brasil e no planeta, sinal do fim dos tempos.
   Amy não cabia em si. Não havia espaço dentro dela pra tanto talento, incômodo, inconformidade com um mundo escroto que já encontrou pronto. O mesmo talento paradoxal que matou a ela e a Hendrix, Joplin, Morrison e tantos outros. O mais é redundância. É duro ser genial nos tempos da cólera ignara que rotula, impõe regras e limites . Não deu para a Amy. Pena para nós. Agora vejam o link acima. A letra (traduzida)de "Shine on you crazy diamond" do Pink Floyd cabe como luva na tragédia que levou Amy. E abaixo Cida Moreira cantando lindamente "Back to Black" . Linda interpretação que agora soa como homenagem que é a única coisa que nos resta fazer para os mortos geniais que não compreendemos


sexta-feira, 22 de julho de 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

CARTA ABERTA A BISAVÓ ÍNDIA

(ruínas Mombuca,perto de Paraguaçu Paulista,onde teria vivido minha bisavó.Foto de 6/01/2007)


Prezadíssima bisavó índia que a terra há muito tempo já comeu :
    Talvez seja o pesinho dos anos, talvez seja essa alma cabocla e carente, talvez sejam os tempos idos e vividos mas fato é que ando cada vez mais desentranhado dessa vida da cidade, querendo bater asa para bem longe, perto dos preás e das corruíras, dos micos e dos bugios, a batucar tambores com o que não restou da minha gente.
   Do meu inconsciente para o meu consciente as vezes afloram imagens de trilhas que não percorri e que passam pela serra do Roncador adentro, perto de onde sumiu o coronel Fawcett . Ou me surgem flashes de cantos ermos das planícies de Roraima ou do cerrado infindo onde os meus podem ter passado em busca de caça, pesca ou de fugir dos capitães do mato.
    Sei pouco ou quase nada do meu passado indígena a não ser uma única foto sua , já entrada em anos, com um vestido longo, tirada no final da década de 20 do século 20. Você está no canto direito da foto, vestido longo e escuro com apliques de renda branca, apoiando a mão esquerda numa cadeira antiga. Ao seu lado o meu avô, seu genro, com um terno elegante porém amarfalhado com um vasto bigode com as pontas viradas para cima . Na foto ele fica no centro pois ao lado dele está minha avó , linda e grávida do meu pai, creio eu.
    Minha avó, sua filha, chamava-se Perciliana Maria Severina e nessa foto o seu vestido longo fazia uma certa combinação com uma blusa também longa que vagamente lembrava a roupa de um marinheiro. Sequer imagino onde a foto tenha sido tirada ou quem a tirou. Só sei que é o único registro que tenho seu , do meu avô e da minha avó. Pode ter sido tirada em Paraguaçu Paulista, Assis ou mesmo Rancharia. Jamais saberei.
   O que sei , prezada bisavó, é que parece que esse apelo ancestral que está estampado nos seus olhos puxados e tristes , na sua boca murcha e na sua mão direita apoiada num ventre um pouco inchado, esse apelo ancestral me leva de volta a regatos, riachos,ocas, pajelanças e me faz querer cada vez mais voltar às minhas origens e não mergulhar na urbe ou nessa equivocada vocação citadina a que praticamente nos obriga a cultura ocidental globalizada.
    Estou cada vez mais querendo ser aquele índio que olha para a lua e que pega o próprio peixe no rio despoluído mesmo que isso seja ilusão passageira que a brisa primeira levará. Fico assim despossuído de origens pois ancestrais outros, de parte de mãe, portugueses e alemães, não me dizem respeito. Conheci essas outras pátrias, andei muito pelos Portugais da vida, adentrei nas Alemanhas , quando eram duas, e não me achei tanto quanto me acho e me perco nesse Brasil profundo que os brancos começaram a destruir e a mestiçada prossegue com louvor.
    Sabe bisavó, há de haver em mim algo de errado pois cada vez mais me rebelo e me agito e não sossego meu coração cinqüentão que deveria ter apaziguado o fogo da rebeldia e do descontentamento. Estou virando um índio velho , reclamão. Um índio que não pita seu fumo de corda mas beberica suas cachacinhas e tem horror à catequização dos jesuítas que nos desvestiram de nossa nudez e nos colocaram no caminho do bem deles, que foi o nosso mal.
     Sabe bisavó , a integração das populações indígenas no Brasil moderno foi uma falácia. Os índios sempre foram escravizados e subjugados e muitos de nós brasileiros nem nos reconhecemos índios. Eu mesmo procuro em mim os traços que talvez estejam mais nos olhos puxados da minha irmã mais nova. Quiçá em mim exista na cor da pele, em certo jeito de olhar o mundo . Mas não existe na paz e na sabedoria interna que muitos deles tinham. Não sou um silvícola apaziguado, não sou um índio catequizado, não acredito no que os portugueses disseram e prometeram desde que fedidos desceram das caravelas. Eles trouxeram piolhos e nos cobriram o que chamavam de vergonhas e contaram a história do jeito deles. Mas o que quero não é festejar e lembrar meu passado lusitano. Mas reencontrar a trilha do meu indigenismo genético. O sangue que corre aqui nessas veias diabéticas e que correu no seu sangue .
   Sabe bisavó . Reza a lenda que seu nome era Lúcia e que teria sido roubada pelo meu bisavô (sequer o nome dele eu sei) em uma tribo em algum lugar do caminho entre o Pantanal e o extremo oeste paulista quando ele tangia o gado nessas idas e vindas e reparou em vossa formosura plantada à entrada de uma choça. Desse roubo, desse rapto, dessa fuga, apareci eu mestiço vira-lata a achar graça num passado nebuloso do qual sei detalhes esparsos.
    Não sei mesmo se conforme a gente envelhece se aproxima da infância ou se esquece dela. No meu caso nem uma coisa nem outra. Sinto a necessidade de por instinto talvez voltar para o lugar de onde tenham lhe tirado. Tentar entender o que havia por trás dos seus olhos tristes e contemplativos, olhos que foram parar também nos olhos da minha avó, morta de tifo em 1934.
     Meu pai pouco conheceu a mãe. Tampouco consta que ele tenha conhecido você bisavó. Eu não conheci nenhum de vocês, sequer meu avô que morreu bem antes de eu nascer. Não sei se você era tupi guarani, tapuia , bororo ou o que . Não sei se conheceu um sertanista ou se foi discriminada por ser índia. Só sei que olhando para essa sua face tão longinqua , para esse tempo tão remoto na foto aqui na minha frente, quase caio em contradição e peço que você peça a Deus que me proteja. No entanto não sei qual era o seu Deus e nem sei se você sabe quem eu sou. Só sei que quanto mais eu envelheço mais enxergo em mim os seus traços. Sobretudo por esses seus olhos desalentados que parecem ter visto demais e se cansaram. Eu não desisto bisavó mas o mundo em que eu vivo cada vez tem menos a ver comigo e eu me imagino ao seu lado olhando a lua na porta da choça muito antes do meu bisavô te roubar. Quem sabe se juntos não haveríamos de ter conseguido alimentar em nossas mãos os guarás que rondavam a taba naquelas noites antigas ?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

AS CRÔNICAS MARCIANAS

     
     Há situações nesse nosso mundão de meu Deus que não são mesmo desse planeta.Mas como tudo é possível sob o sol por que então não pensar que possa haver mais lógica entre marcianos do que terráqueos ? O raciocínio aflora com a releitura tardia e em nova edição de "As Crônicas Marcianas" do lendário Ray Bradbury em edição da Editora Globo com prefácio interessantíssimo de outro lendário , o escritor Jorge Luis Borges.
     É Borges pois que aponta para o lado de horror metafísico que tem o livro de Bradbury quando revela que o conto " A terceira expedição" é a história mais alarmante do livro especialmente porque toca na indefinição da identidade dos hóspedes do capitão John Black que chega a um local, após longa viagem, que tanto pode ser Marte, como a Terra em outro tempo e dimensão ou nada disso.  Outro aspecto lembrado por Borges é a solidão , o estranhamento, o vazio que permeia todo o livro. Sensações mais fortes do que se as histórias fossem ambientadas em cenários citadinos de Buenos Aires, Nova York ou nossa São Paulo terceiro mundista.  O que fica patente é que nossa solidão as vezes nos coloca como marcianos dentro de nosso próprio planeta. E a releitura de "As crônicas marcianas" com nova tradução (de Ana Ban) e novo layout nos deixa com a sensação de forte estranhamento diante do inusitado que todos os dias está aí nas nossas portas, nas nossas calçadas ou nos fossos escuros de nossos elevadores, simbólicos ou não. O planeta Marte de Bradbury incomoda e tem mais semelhanças com nossa dimensão do que imagina a vã filosofia. Ficção científica bem feita defitivamente é altíssima literatura. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

FRANCISCO DE ASSIS

       "Lá vai São Francisco pelo caminho", diz o refrão de uma bela canção de Vinicius de Moraes e Paulo Soledade que está no belíssimo disco "Arca de Noé". E ele segue o caminho nada sozinho nesse mundo conturbado onde o pecado existe no lado de baixo e de cima do Equador e por todos os pólos e poros do planeta. Paradoxalmente num mundo deserdado, onde as utopias naufragam e a "matrix" do consumo triunfa, o santo de Assis segue o caminho com seu recado eterno e etéreo de um mundo mais justo, mais igualitário, menos desigual. Um santo que, se vivo fosse, incomodaria demais a igreja Católica de Herrrr Sig Heil Ratzinger. 
     São Francisco sempre inspirou muita gente. Biógrafos , estudiosos e escritores de raro talento como Nikos Kazantzakis (o mesmo de " A Última Tentação de Cristo") que escreveu o magistral "O Pobre de Deus". O santo pode ter sido, a grosso modo, o primero hippie , o primeiro pacifista, o primeiro ambientalista,um homem que tentou a seu modo trazer os católicos para o caminho do "amar e ser amado" mas o rebanho sempre preferiu o "é dando que se recebe", lema máximo de partidos ordinários como o DEM brasileiro.
     Embora jamais tenha posto meus pés em Assis na Itália sempre me alimentei da retórica, das convicções do santo, construindo pra mim mesmo um ideário religioso muito particular onde ele ocupa lugar especial ao lado de Cristo, Buda e quase mais ninguém. Por conta disso sempre li quase tudo a respeito dele e coleciono imagens do santo que enfeitam e de certa forma protegem a minha casa.
     Agora, no meu aniversário, o casal amigo Rinaldo Gama/Laura Cardoso me presenteou com um belo livro de Chiara Frugoni (foto),

recém-lançado, que leva o nome  de "Vida de um homem : Francisco de Assis". Ainda que não seja um livro lírico , um livro impregnado de poesia,  ele passa por situações poéticas quando consegue com competência alinhar os muitos consensos biográficos entre as várias versões correntes sobre vida e obra desse santo peculiar. Não trouxe nenhuma novidade substancial em relação ao que eu já sabia mas ao menos me deu a certeza de que seus feitos foram tão doces e densos que deixaram um legado ímpar pra quem vibra no sentido de almejar uma tão dificil paz mundial. O santo medieval nunca nos fez tanta falta.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Vic Parisi e uma gratidão Transamazônica

    
    Hoje completa-se exatamente 30 anos. No dia 5 de julho de 1981 eu quase morri na Transamazônica.Coincidência que eu tenha achado aqui a bela foto do fotógrafo Vic Parisi (abaixo) nos meus guardados exatamente hoje quando o acidente completa três décadas. Vic foi mais que um companheiro naquela jornada. Foi um cumplice que foi além de suas funções para realizar o meu trabalho depois que me acidentei.

   Eu trabalhava então na revista "Boléia", dirigida aos caminhoneiros do Brasil, publicada pela Bloch Editores , a mesma de "Manchete" , "Pais e Filhos", "Ele & Ela", "Fatos e Fotos" e outras publicações. Éramos da turma que trabalhava na sucursal de São Paulo que ficava em uma redação nos fundos da luxuosa "Casa da Manchete" na avenida Europa. Um exército de Brancaleone obreiro e romântico com personagens que dariam crônicas impagáveis, gente em extinção pelo caráter e pela competência. A exceção talvez fosse apenas o diretor geral da Bloch em São Paulo, canalha antológico, que alimenta hoje tantas histórias lendárias de servidão, submissão e venalidade por aí. Mas essa é uma triste história que aqui não cabe contar.
    Cabe lembrar que naquela época eu viajava então em longa jornada de  São Paulo a Belém seguindo um reluzente caminhão N10 da Volvo então recém-lançado. A própria empresa disponibilizou um Passat marrom quatro portas para que a gente seguisse a imensa carreta que percorreria os caminhos do norte do país. No tal 5 de julho paramos num trevo ermo, quente, quase na confluência da Belém -Brasília com a Transamazônica. Era um lugar atípico onde existia um casinha onde se lia "Buite das muié bunita" registrada em  foto impagável do mesmo Vic e que infelizmente não tenho. A tal casa funcionava como lupanar de noite e como restaurante de comida caseira de dia. Ali almoçamos e a equipe toda (que era composta além de mim e do Vic por um técnico da Volvo e o motorista da carreta) deitou em redes à sombra de frondosas árvores.
   Eu estava preocupado com o horário e para espantar o banzo peguei o Passat , sai da Belém -Brasília e entrei na Transamazônica, como sempre em péssimo estado de conservação. Rodei algo como meia hora num calor insuportável em busca de um local onde pudesse levar a carreta da Volvo para ser fotografada em lugar idílico na selva. Foi quando me deparei , ao alto de um aclive ,com uma gigantesca nuvem de mutuns. Já haviam me contado que isso era possível mas quando você se depara com uma nuvem de mosquitos vindo em sua direção se apavora. Retornei o Passat e segui em velocidade inadequada de volta ao trevo da Belém -Brasília. Foi quando cruzei (literalmente) com uma enorme pedra no meio do caminho que eu não percebera na ida. Ao tentar desviar só me lembro de ter perdido o controle do carro e ter pensado numa fração de segundo: " Estou fu..."
     Devo ter acordado dia e meio depois num hospital em Tocantinópolis. O Passat capotara várias vezes, eu e o carro despencamos de uma ribanceira de 6 metros e escapei por milagre, poupado pelo destino de ter perdido a vida com tenros 22 anos recém completados. Fui salvo por um jipe dirigido por dona Sara, dona de um posto único de gasolina ali nas cercanias, que me levou com os companheiros ao hospital onde despertei dia e meio depois do acidente.
     Contei essa história incontáveis vezes nesses anos nesse mundo afora, inclusive em palestras para jovens jornalistas. Mas nunca a tinha registrado por escrito como faço agora usando como mote uma tardia homenagem ao querido Vic que não vejo há tantos anos . E por que faço isso tardiamente ? porque o Vic após o acidente, fora o cuidado que teve comigo no hospital, pegou meu caderninho de anotações e foi aos locais onde eu deveria ter ido se não tivesse me acidentado para conversar com os personagens que me interessavam. Mais que exemplo de solidariedade e companheirismo Vic (que hoje é fotógrafo e pastor) pôs em prática um espírito de equipe que hoje é cada vez mais raro de se ver nas redações contemporâneas infelizmente esvaziada de preceitos éticos e assemelhados. É um salve-se quem puder onde cada um joga pra si e subordinados sacaneiam subordinados subjugados por chefetes jovens e histéricos. Lógico que existem as exceções mas não apenas por saudosismo posso lhes garantir que as redações do passado eram mais saudáveis.
    Por tudo isso meu caro Vic, meus caros ex-colegas, meus prezados leitores eu lhes digo : me arrependo mesmo de ter demorado tanto para escrever tudo isso. Vic e sua placidez, revelada nessa foto acima, mereciam essa tosca homenagem muito antes de eu completar 30 anos desse desventura amazônica. 

     

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Num Lageado onde a memória é crônica

       Talvez eu goste das crônicas porque são elas matéria de memória e as memórias,sobretudo das coisas boas, nos dão certo alento em relação ao futuro incerto. Talvez eu goste das crônicas porque elas resgatem tempos idos e vividos , cheiro de café com bolo, e nos coloque diante da real finitude na qual somos enfim imersos desde que nos tornamos humanos. As crônicas nos humanizam pois provam que tudo passa. O trem do passado, toda e qualquer vaidade , uma pompa que está morta num baile remoto de formatura,as grandes e médias fazendas que enriqueceram barões e exploraram imigrantes.
   Nesse final de semana esbarrei em uma delas , a Lageado ( foto acima), que fica em Botucatu, interior de São Paulo. Na sua antiga sede jaz um museu do Café. Tanto café colhido em sacas antigas, um passado requentado que não traz de volta nada. Fica quase suspenso no ar como a ponte de madeira da foto que fazia a ligação entre o antigo pátio onde o café secava e o armazém onde ele era guardado.Memória crônica. 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

OS VERDADEIROS PIRATAS DA SOMÁLIA

  

Para um fato não existe apenas uma versão como tentavam nos ensinar no passado alguns obstinados mestres nas faculdades de jornalismo na época em que havia jornalismo e não essa maçaroca pasteurizada de hoje em dia onde as grandes corporações midiaticas determinam o "certo" e o "errado".
   Isso posto quero lhes recomendar com entusiasmo o documentário espanhol chamado "PIRATAS" de Juan Falque que me foi apresentado pelo amigo Roberto Lamego. É devastador principalmente porque nos esfrega na cara o desconhecimento que temos em relação a gravíssimos problemas pelos quais passam países "marginais" desse nosso planeta como a Somália.
   A mesma mídia hegemônica que rotula as FARC como terroristas narcotraficantes esquecendo que elas surgem como reação a um estado assassino na Colômbia, a mesma mídia que detona Hamas e os movimentos de libertação da Palestina ocultando os crimes hediondos do sionismo,  essa mesma mídia sempre nos apresentou  os piratas da Somália como os piores dos piores bandidos da Terra, sanguinários sádicos que matam, esfolam, riem sobre os cadáveres da vítimas.
   Antes que atirem pedras na Geni aqui é bom lembrar que não estou a defender a ação violenta dos piratas muito menos das Farc ou do Hamas. Mas queria lhes chamar a atenção sobre esse valoroso documentário na medida em que elucida o contexto em que surgem os piratas somalis. Em reação a destruição total da pesca nas costas daquele pais africano , devastado por fome e guerras tribais. A pesca predatória tem sido promovida pelas mesmas nações do primeiro mundo que transformaram aquelas águas em depósito de todo lixo hospitalar e radioativo que vem de seus territórios. Vergonhosas atitudes que vem contado com beneplácito de organismos como a Onu , aliás como era de se esperar.
  Ou seja, mesmo que a versão do documentário lhes pareça estranha é bom assistir para que a gente reflita sobre que tipo de verdade a mídia hegemônica nos vende todos os dias. Duvidem pelo menos. Não comprem a "verdade" assim de cara já que infelizmente não se ensina mais nem nas faculdades nem nas redações que um fato pode ter várias versões.      

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