TODO PROSA

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Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Clint Eastwood, 82 anos

     

    Clint Eastwood chega aos 82 anos de idade com dois Oscars de Melhor Diretor e continua a filmar e a trabalhar muito. Está previsto para setembro o novo filme que se chama Trouble With the Curve que vai  mostrar um olheiro de beisebol que percebe que está perdendo  a visão. Clint é aquele tipo que nos faz ter uma saudável inveja... chegar aos 82 desse jeito e não capenga e triste. Parece que para conhecer melhor esse raro ator estão a sugerir a leitura da recém-lançada  biografia dele, o tal "Nada Censurado". Na obra, o historiador do cinema Marc Eliot analisa os filmes e a vida do ator. O trabalho de Eliot parece ser o de mais fôlego  já feito sobre Clint. Eu quero ler. Me interessa sobretudo o viés dele como pianista de blues.

Clint Eastwood – Nada Censurado, de Marc Eliot. Tradução: Vera Ribeiro. Editora Nova Fronteira. 372 páginas. R$ 49,90

quarta-feira, 30 de maio de 2012

mergulho a esmo em Montes Claros

(...)É, lá embaixo é Montes Claros e eu não avisto a fazenda do Cedro onde nasceu Darcy Ribeiro. Avisto, isso sim, uma imensa fila de caminhões cheios de lama que se movimentam vagarosamente sob a luz mortiça e alaranjada que vem dos postes. Eles não estão a espera do frete, nem estão na fila do pedágio ou da balança. Desfilam, isso sim, defronte à calçada dessa larga avenida que começa no fim de uma estrada. Desfilam e observam. Os caminhoneiros observam com olhares gulosos, olhares devassos e tarados, olhares travessos e famintos, observam um imenso desfile de putas que ali se distribuem de maneira aleatória ao longo da calçada.(...) 

terça-feira, 29 de maio de 2012

mergulho a esmo em Portugal

Porto/ Vila Nova de Gaia 

(...)Esse português que vos falo conheci não foi de chofre , foi sim aos poucos, besuntado em minha vida desde as muitas vezes que fui e voltei a São Paulo passando por muitos lugares de onde trazia notícias quase mudas que lhe contava. Mas esse português em quase nada achava graça pois já tinha visto coisas demais na vida e agora o que pouco lhe interessava era saber da vida alheia. Queria mais é saber da corridas dos cavalos , dos páreos e dos placês, dos prêmios e das barbadas. Mas me ensinou , pois, que o vinho do porto não é feito no Porto e sim em Vila Nova de Gaia . E também disse que as uvas desse vinho vinham na verdade de Passo da Régua e não do próprio Porto.(...)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Entre Cameron e Fellini


     Eu não gosto de James Cameron. Eu gosto de Fellini. E daí ?podem perguntar os impacientes .Daí que isso nada muda em nada a não ser o fato de que cinema hoje , em escala mundial , é James Cameron e não Fellini e nem me venham com o surrado argumento de que há espaço para todos porque quando a estética vigente é a “supremacia Bourne” de um tipo como Cameron para mim as coisas vão muito mal.
   O fato de Cameron ser arrogante e antipático é o de menos. O que incomoda é o fato de Cameron dar mais a impressão de ser um investidor de Wall Street em busca de resultados do que um cineasta , do que , enfim , vá lá, um artista. O diretor de “Titanic” parece estar sempre em busca de querer romper algum parâmetro, ultrapassar marcas, marcar recordes, provar que é o mais impetuoso, pioneiro ou corajoso dos realizadores. Cameron é matemática de resultados. Fellini é história e poesia.
    Um dos últimos feitos proclamados de Cameron é ter atingido a profundidade marinha recorde ao mergulhar 11 quilometros abaixo nas Fossas Marianas no Pacífico. Sozinho, intrépido e confiante .Tenho total desconfiança em relação ao feito por inúmeros motivos sendo que os principais são : por que confiariam missão tão impressionante e específica a um cineasta blockbuster e não a um cientista ?por que além da indústria que cerca o próprio Cameron ninguém mais fez alarde sobre assunto tão importante ? Como um sujeito mergulha 11 kms oceano abaixo e simplesmente abre a porta de um mini- submarino , pilotado como um video-game , e não sofre os efeitos da descompressão ? Como não mostra nenhuma imagem do que viu lá embaixo além de sua própria face diante dos equipamentos do mini-submarino ? Ao menos o episódio mostrado na Nat Geo foi entediante e pouco revelador das profundezas.
     Cameron quer parecer um aventureiro mas nos passa a impressão apenas de ser o CEO de uma grande empresa em momentos de lazer. Daqueles tipos que fazem safári nas savanas africanas ladeado por seguranças armados e mordomos uniformizados que servem refrescos e acepipes. É o Marco Polo de boutique sempre pronto a vender suas “aventuras” a patrocinadores vultosos como no caso da Rolex com as Fossas Marianas. Nada contra pois a aventura é cara. Mas me recuso a ver o que Cameron faz como arte. Cameron é negócio.
    Evidente que Fellini está muito mais para poesia, história e literatura na mesma medida em que Cameron está para ciências exatas. Essa é a equação do mercado. O que se tem a lamentar é que milhões de pessoas mundo afora consumam como fast food essa ganância de prazos e metas de Cameron enquanto Fellini fica, digamos, para os espíritos mais sensíveis. A longo prazo sei que isso pouco importa. Cameron é um hamburguer, Fellini um risoto com receita de nonna italiana. A se lamentar é que num mundo de urgências o que importa um longo prazo ? Como diz o dito, no longo prazo estaremos todos mortos. Tanto o imediatismo de Cameron quanto a arte de Fellini pois a esta altura temo que nada seja imortal.

domingo, 27 de maio de 2012

mergulho a esmo em Feira de Santana

(...)Não mais do que quinze minutos depois chega capengando um encorpado e velho ônibus azul que em seu letreiro frontal indicava : “ Feira de Santana, o maior entroncamento rodoviário do Brasil”. E quem sou eu meu rei para desprezar uma viagem à Bahia ? Pois assim embarquei no ônibus e parti para Feira.
Seria pouco dizer que essa era apenas uma rota de buracos e fendas, de miséria e sujeira. Era na verdade o trajeto dentro de um imenso abandono(...)

sábado, 26 de maio de 2012

mergulho a esmo no Rio de Janeiro

(...)Nada mais há para se inventar para o Rio de Janeiro nesse meu olhar de estrangeiro com direitos exclusivos já que tantas vezes vim aqui que daqui me considero. Não canso de olhar a avenida Atlântica e nem de olhar o forte ou as pedras do Leme e ficar imaginando quantos doidos apaixonados dali pularam em busca de uma doce morte salgada com o perdão do trocadilho.
Mas agora tenho essa sensação de repulsa e atração pela multidão . Quero e desejo estar perto dela como dela quero me afastar. De onde vem tanta gente ? por que com tanto desespero se aglomera, se reúne , se seduz mutuamente ? por que não desejam estar sozinhos no caminho que leva de volta à praia ? (...)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

mergulho a esmo na via Anchieta

   (...)Naquela tarde dos tempos dos laquês nos cabelos fazia um sol fraco,sol de inverno . Minha mãe me tomou pela mão , trancou a porta do sobrado de pastilhas rosas onde morávamos ali no Jardim Maristela. Conferiu duas, três vezes se tudo estava bem trancado,  repetindo um antigo gesto de meu pai. Respirou fundo com seus pulmões de asmática, atravessou o curto e triste jardim e olhou pra via Anchieta bem decidida. O ar cheirava a Orniex, Eveready, fábricas de poluições múltiplas que apodreciam o ar daquela região. 
     Subimos um pequeno barranco que dava acesso ao acostamento da estrada e quando ali chegamos ofegantes percebi que minha mãe tremeu um pouco pois o movimento era maior do que o esperado. Todo o progresso imundo e fedorento do qual muitos paulistanos se gabavam descia sem glórias para o porto de Santos no lombo dos caminhões pesados quando decidimos- minha mãe e eu – que era hora de atravessar a via Anchieta para pegar o ônibus do outro lado da estrada. Sentido vila Arapuá, São João Clímaco. Minha mãe agarrou minha mão com tanta força que senti suas unhas miúdas entrarem na palma de minha mão esquerda. Atravessamos correndo e torcendo pra que nenhum caminhão desgovernado nos colhesse no meio daquela curva tenebrosa que eu via pela metade da janela do meu quarto.(...)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

mergulho a esmo na represa Billings

        
    Havia um sonho fundo na represa. Billings. As "belas da Billings" como no título de um filme pouco visto do Candeias. Esse sonho era uma casa na beira da represa. Nos tempos de verão as três irmãs mestiças ficavam na varanda que dava para a represa em roupas diminutas e acenavam para os felizes que passavam de barco logo adiante.
  Quando descobri o programa queria todo sábado , com a desculpa de pescar tilápias com o Akira. Era delícia passar de barquinho defronte a casa das três mestiças. Sempre acenava freneticamente mas nem sempre elas acenavam de volta. Impávidas, impassíveis, cientes de suas próprias formosuras as três mestiças se entediavam com tantos galanteios e gentilezas a elas dirigidas.
  Do nome das três jamais lembrarei. Talvez só da mais velha, a mais bela entre as belas, que se chamava Cássia. Em um rosto absolutamente perfeito, moreno, sapeca . Do lado direito uma pinta na medida para deixá-la ainda mais irresistível . Durante muito tempo sonhei com aquela pinta, aquele rosto, aquele sorriso e aquela expressão de desamparo. Mas nunca cheguei mais perto do que um aceno.(...)

terça-feira, 22 de maio de 2012

mergulho a esmo no interior das Minas Gerais

(...)Depois de muitas horas de festa creio ter ouvido Ramiro uivar mais abaixo do terreno. Se Ramiro uiva todo mundo silencia. Lobisomem aqui só se fala dos de outra freguesia. Meu pai palita os dentes e hoje eu já não lembro que cidade era aquela. Conselheiro Lafaiete, Calafate, Nossa Senhora do Lamin, Catas Altas da Noruega ? o pai andou tanto por esse mundo de meu Deus e das pontes de cimento que já não sei dessa engenharia da memória. Sei que foi bom eu ver naquela noite pela única e derradeira vez meu pai beijar a boca da minha mãe em público. A mãe não entendeu nada.(...)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

mergulho a esmo no Ceará

(...)e o Ceará pra mim passou a fazer diferença com as praias de Mundaú ,os pargos da Prainha e as areias ao redor da lagoa da Jijoca. Passei a saber que no Ceará pode se sentir frio de arrepio e subi até Pacoti bebendo em Guaramiranga e olhando a serra bem linda que fica perto de Tianguá. Me ajoelhei ao pé do padim Ciço na calorenta Juazeiro do Norte e andei pelo Crato , Quixadá , Quixeramobim ouvindo uma rádio doida com a meninada do sertão que fazia alegoria em Nova Olinda numa freqüência que ,essa sim, eu sintonizava para ouvir em alto e bom som o bom bode que berrava.(...)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

mergulho a esmo na Venezuela

Pampatar, Isla Margarita,Venezuela

(...)Consigo enfim entrar muitos quilômetros adentro pelo país de Hugo Chavéz e me pego embasbacado com a beleza das savanas da Canaíma e o grau de periculosidade de tantas curvas que me levam pelo longo caminho até a Isla Margarita.
Nunca fui dado a enjoar em curvas mas minha bela caronista venezuelana não pára de enjoar. Se culpa por não ter levado em conta os conselhos de su madre que sempre recomenda que ela leve na bolsa miúda remédios contra enjoo. Essa moça não é muito dada a ouvir recomendações nem a se interessar por assuntos políticos que expliquem por exemplo o que o comandante Chavéz quer dizer com república bolivariana. Seus soldados bravos são bolivarianos e o comandante garante a integridade deles. Será que mesmo daqueles que nos extorquiram todo nosso dinheiro próximo a San Ignácio ? Com o dinheiro tomado por não termos parado num posto do exército e sim passado defronte a ele, a 20 kms por hora, vimos frustrados nossos desejos de chegar até a Isla Margarita e aos bons restaurantes de Pampatar. Ficamos ali fulos e contrariados , parados na beira da estrada, com o necessário apenas para voltar até a fronteira com Roraima. Viva a revolução bolivariana(...)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O jornalismo como uma instituição bancária

redação ou data center ?
         É. Aprendi desde criança que não se julgam as pessoas pela aparência. Nem se julga o desempenho profissional de ninguém pela roupa que veste. Por outro lado a publicidade, sempre ela, cria imagens e conceitos e os perpetua nessa implodida sociedade de consumo. De preferência  imagens e conceitos conservadores que transformaram ,no decorrer dos últimos anos, os jornalistas em tipos alinhados , de ternos bem cortados, cabelos aprumados e sorrisos reluzentes. As moças com blusas de seda, tailleurzinhos discretos em tom pastel , cabelinhos impecáveis. O manual de redação não fica só nas questões de estilo e conteúdo mas na aparência.
     Isso posto , talvez porque eu seja de um tempo onde a imagem do jornalismo e dos jornalistas fosse outra, me causa grande estranheza ver um anúncio imenso em página dupla de uma revista "descolada" onde jornalistas- homens e mulheres- aparecem sorridentes e bem penteados como se estivessem a vender cheques especiais e cartões de crédito para bancos importantes. O meio é propício e a mensagem é direta. "Acredite na gente que te damos o  que você precisa. Informação abalizada , ponderada, nada de excessos ou grandes arroubos. Somos o jornalismo feito para banqueiros, empresários, classes bem sucedidas". E , juro, aqui não vai qualquer tom pejorativo à la PSTU ou esquerdismos afins mas apenas uma constatação. Jornalismo em nosso país nada tem de transgressão se é que alguma vez teve. Mas juro que me causa muita estranheza quando sei que nunca mais vou me identificar com a imagem atual dos jornalistas do Brasil. Talvez porque eu jamais tenha sido porque quando abracei a profissão não imaginava virar gerente de banco mas alguém que revela o que se passa do outro lado do caixa. Doce ilusão. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Chico Anysio no Mundo da Literatura

            Em 2005 eu fazia a oitava e última temporada do programa "Mundo da Literatura" produção da hoje Sesc Tv e veiculado em outras emissoras como a extinta TVE carioca, hoje Tv Brasil. Sugeri um programa sobre literatura e humor e fui conversar com o Chico Anysio que se encontrava tão introspectivo e reflexivo que não convinha ao mote do programa. Fora que ele achava que humor e literatura nada tinham a ver. Fiz assim um programa dedicado só a ele falando de literatura. Muito se falou sobre o Chico recentemente mas lhes garanto que o Chico desse programa vocês não conhecem. O Sesc Tv o reprisa a partir de hoje às nove da noite e nos horários abaixo. Será um prazer se vocês assistirem. Sesc Tv é canal 3 da Sky e 137 na Net. 


Chico Anysio -Mundo da Literatura
16/mai quarta 21:00
17/mai quinta 01:00
17/mai quinta 15:00
18/mai sexta 09:00
19/mai sábado 14:00
21/mai segunda 04:00
30/mai quarta 21:00
31/mai quinta 01:00
31/mai quinta 15:00

mergulho a esmo na improvável Lagoa Vermelha

(...)
--- Que lugar é este ?
--- Esta ilha é maior do que você pode perceber à primeira vista. E apesar de ser uma ilha de uma grande lagoa tem dentro dela uma lagoa menor que poucas pessoas podem atravessar.
--- Outra lagoa ?
--- A Lagoa Vermelha ... uma lagoa que você, por exemplo, pode atravessar, uma lagoa que você escolheu atravessar quando abriu aquela  porta. 
     Aí a charrete começou a descer por um trecho muito acidentado, cheio de pedras cada vez maiores por todos os lados. Perto destas pedras muitos cactos vermelhos começaram a aparecer na paisagem. Eram cactos enormes com espinhos também enormes, assustadores. Quanto mais desciam maiores ficavam as pedras e os cactos vermelhos do caminho . De repente puderam ver atrás de uma enorme parede de pedras que se encontrava na frente deles uma lagoa de águas paradas. Águas estranhas e vermelhas. O cavalo triste quando não suportava o peso da charrete se retorcia todo para segurar todo o peso que tinha atrás de si. Moisés puxava o freio de boca do bicho que ficava resfolegando e relinchando. De repente praticamente despencou morro abaixo(...)

terça-feira, 15 de maio de 2012

mergulho a esmo na zona norte de Belo Horizonte

Zona norte. Bar de zona norte. Por que será que nas principais capitais do Brasil a zona norte é sempre a que tem menos status e no entanto esconde charmes indizíveis e pouco conhecidos ? por que será que os moradores da  zona norte vivem dizendo ter orgulho de sua região mas invejam o status e os imóveis dos moradores da zona sul ?(...)
Pois o boteco zona norte não denunciava suas surpresas logo de cara. Melhor dizendo se diria que olhando assim à primeira vista não se poderia esperar grande coisa dele. Até porque o atendimento não era lá um primor sem contar que os três garçons trajavam aventais sujos e limpavam sempre as mãos em toalhas encardidas.
Mas toda essas primeiras impressões só duravam até o momento em que chegavam à mesa os tira-gostos. Começamos com a língua ao molho de pimentão. Depois fomos para o pão de torresmo, a canjiquinha, o caldinho de feijão, a linguicinha picada, a mandioca frita em cubinhos. Comíamos , bebíamos e falávamos com a mesma disposição. O tempo passando rápido entre goladas, garfadas, bocas cheias de farofa, risos e berros dos fregueses que pediam mais, mais, mais e principalmente mais fígado picado com jiló... o boteco zona norte merecia sua fama.(...)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

um mergulho a esmo na Praia Grande


(...)Dura rotina sem espaço para muita fantasia o bom eram as raras vezes que molhávamos os pés na Praia Grande construindo castelos de areia e olhando o tempo passar com nossos calções listrados. Eu, magro e banguela. Meu pai gordinho e feliz ainda mais pelas ostras que às vezes ancoravam em nossa mesa. Cidade Ocian, Vila Mirim, Vila Tupi. Um cenário antigo saído de algum filme do neo-realismo italiano. Éramos italianos e não sabíamos.
A vida não te deu tantos bons empregos a meu pai mas lhe deu três filhos bem diferentes. Um menino e duas meninas. E, ao que consta, ele sempre exerceu com gosto e ciúme sua paixão pela família. Um gosto que suportava as reprimendas quando tomava sopa fazendo barulho com a boca ou quando fumava demais no meio das refeições. Um gosto que suportou as sutis humilhações que os mais bem aquinhoados da família lhe impunham. Homem do interior . Moreno e troncudo. Quase grosso mas com um refinamento que ia muito além das etiquetas. O gosto pela sinceridade, o intuitivo nojo a toda espécie de hipocrisias. O desgosto por ter que enfrentar os rituais entediantes dos batizados, casamentos , noivados e finais de ano onde todos fingem viver em harmonia.
Este interior distante que marcou as feias unhas dos seus pés afinal era Assis , Rancharia, Mumbuca ou Presidente Prudente ? sua alma carente passou por todos estes recantos mas veio procurar fincar raízes em uma pensão barata no bairro da Liberdade quando lá ainda não era o reduto dos orientais. Como será que você via o sol se pondo a partir de uma janela da rua Taguá ? (...)
 

domingo, 13 de maio de 2012

um mergulho a esmo no fundo da Colômbia

     Quero ter assim a oportunidade de lhes contar de uma mãe que encontrei no sul da Colômbia defronte a uma tosca pousada em Los Pozos. Pequetita, gordinha, moletom e sandálias baratas nos pés , não mais que 35 anos, ela se aproximou de mim sob uma cobertura de folhas de zinco numa manhã chuvosa perguntando se eu podia ajudá-la a encontrar sua filha.
Como poderia eu, brasileiro perdido naquele canto do mapa, ajudá-la a encontrar a filha sumida ? A senhorinha disse que havia me observado no dia anterior conversando com guerrilheiros que dominavam aquela região e viu  que até trocamos apertos de mão e dividimos uma cerveja venezuelana. Logo eu , brasileiro, perdido, mestiço e desconectado era conhecido da guerrilha e podia ajudá-la sim no seu intuito de ter sua filha de volta.
Dois anos antes sua filha havia se embrenhado mata adentro com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e nunca mais havia dado noticia. Isso havia sido no outro extremo do país e essa mãe gordinha e ansiosa , essa mãe de sandálias baratas e choro incontido percorria longa viagem país adentro tentando ter noticias de sua filha, provável guerrilheira das Farc.
Assim, por armadilhas postas pelo destino, essa mãe me implorava que eu chegasse perto de um dos meus "amigos guerrilheiros" e perguntasse por sua filha. Dizia isso fungando e tirando do bolso de sua pobre calça um saco  plástico transparente com documentos e fotos antigas da filha que deixou o lar e parecia uma moreninha simpática e risonha envolta na aura da adolescência esperançosa da qual teriam se aproveitado os guerrilheiros para seqüestrá-la contra sua vontade.
Estávamos protegidos da chuva que não parava sob esse toldo simples de folhas de zinco e enquanto conversávamos uma vaca era esquartejada bem ali na nossa frente . Os pedaços maiores eram colocados num carrinho de mão quando parou bem em frente de nós um jipe azulado de onde desceu Mariana, guerrilheira de alta patente que eu já conhecera de outras charlas. Mariana ia comprar um pedaço daquelas carnes esquartejadas quando me viu e me saudou . Respondi a seu aceno e lhe chamei . Veio até mim conformada , parecia ter pressa. Com pressa também lhe apresentei a mãe aflita que aos prantos repetiu para a guerrilheira a história que havia me contado.
Mariana, apesar de contrariada, ouviu com atenção toda a história da mãe aflita. Ao final do relato pegou a foto da menina sumida , observou bem e anotou o nome dela. Prometia pra mais tarde uma posição a respeito do assunto. Levantou-se depressa, pegou seu enorme pedaço de carne , entrou no jipe e partiu . Eu tomava agora um Pony Malta bem docinho e olhava impassível para a cara daquela mãe chorosa. Estendi-lhe um lenço de papel e ela mal e mal enxugou os olhos enquanto uma chuva pesada desabou sobre todos nós.

sábado, 12 de maio de 2012

um mergulho a esmo em Boa Vista, Roraima

Os direitos são diferentes em Boa Vista e disso você se dá conta logo nos primeiros dias. A cidade é quente , plana, seca , tem madames pintadas e horrorosas e é dominada por um milico chamado Otomar , sujeito de maus bofes e cara do João Bafo de Onça das minhas remotas histórias em quadrinhos infantis.
Roraima ou Boa Vista não cabem na geografia dessa história mas aqui aparecem pelo simples fato de que foi ali , naquele estado e naquela cidade que surtei por causa do calor e enxerguei onde não havia um enorme conjunto residencial de apartamentos. Sucede que não existem muitos apartamentos em Boa Vista mas ao abrir a porta de um deles para levar quinino a um amigo com malária vi que ele delirava sobre um amor funesto e ali no seu emaranhado de delírios e martírios lembrava da ausência da própria mãe. Uma ausência que parecia dolorosa mas que para mim não fazia naquela ocasião o menor sentido. O caboclo delirava mas me dizia tudo isso com uma lucidez incrível. Era o lamento de um caboclo amazonense dito de maneira muito poética até. Um lamento pela ausência da sua mãe, um lamento dito com acentos nos locais corretos e com a convicção que só os delirantes tem mesmo. Esse caboclo recitativo em sua tertúlia de febril tinha bochechas muito inchadas e um rosto muito largo, moreno , dilatado o que lhe emprestava uma aparência de sapo-boi da beira de rio. Um sapo sem nome de sapo pois sua aparência nada tinha ver com seu nome : Weber

sexta-feira, 11 de maio de 2012

mergulho a esmo em Santo André e Paranapiacaba

        (...) Primeiro é preciso dizer que a praça dezoito do forte já foi mais bonita. Primeiro é preciso dizer que a Senador Flaquer já foi mais bonita e que a linda vila de Paranapiacaba pertence a Santo André assim como a horrenda Vila Elclor onde há mais de vinte anos passados um avião pequeno se esborrachou em um morro numa tarde nevoenta de domingo fazendo os cinco ocupantes se transformarem em um mingau vermelho pisado pelos bombeiros.
    Primeiro é preciso dizer que só se anda em primeira ou a pé em Paranapiacaba. Os carros em muitos lugares não passam como não passa o futuro entre os casarões antigos dos ingleses que já morreram a ali moraram quando mandavam a peãozada construir a estrada de ferro que descia a serra. O casario está de pé e um virou até museu das frescuras inglesas. Tem porcelana, mesa, cadeira, sapato do cuzão inglês que mandava no pedaço. Tem toalha de renda, espelho, janelas limpas, boa visão de toda a vila. Aquilo ali na verdade nem parece um pedaço do ABC. No cemitério do outro lado da vila, o lado oposto ao da estação, é um cenário curioso . Todo fim de tarde o nevoeiro que por ali cai deixa os túmulos meio escondidos. Daria um ótimo cenário para uns filmes baratos de terror com os fantasmas dos maquinistas e foguistas da vila correndo atrás das estudantes de jornalismo coxudas que vão ali para pesquisar ano após ano. Já andei muito em primeira e a pé pela Vila de Paranapiacaba. Já senti o cheiro de ferro velho e enferrujado que sai dos trilhos e dos vagões apodrecidos. Já tomei mais de uma vez pinga com torresmo em uma venda antiga que o meu pai quando vivo apreciava. Já vi burro cagando na rua, velho escarrando na sarjeta, gente fugindo do frio e o relógio inglês e lindo do alto da torre me dizendo : “tô te vendo , tô te vendo, tô te vendo ...” (..
.)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

um mergulho a esmo em Mauá e Utinga


(...)De segunda a segunda eu acho Utinga e Mauá lugares muito feios. Utinga pertence a Santo André. Mauá pertence a Mauá mesmo e por ali viveu em uma época um prefeito tão ladrão mas tão ladrão que queria vender as praças da cidade para que nelas fossem construídos prédios através da empreiteira do seu melhor amigo . Se você acha que isso é mentira vai lá nos arquivos do Diario do Grande ABC e dá uma espiada.
Por ali tem obstáculo de concreto por tudo que é lado. Você é obrigado a ir devagar e a respirar um ar meio pesado. É obrigado a ficar sabendo que volta e meia um caminhão de bebida é assaltado e que nas torneiras jorra gasolina que vem de uma refinaria que fica por ali. Árvore não tem , praia bonita também não tem, rio com patos nadando também não tem . Não sei se tem ginásio com quadra de esportes coberta nem sei se nas quermesses estão dando poucos tiros. Sei que uma vez estive numa festa junina ali por perto e vi dois caras sangrando muito. Um teve a cabeça estourada . Outro perdeu um tímpano e a alegria. Hoje a vida dele é um zumbido só, o que deixa o sujeito tontinho de catar mosca, de bater os dentes, de achar que o pôr de sol de Utinga é mais bonito porque a cor do sol com a cor da poluição forma assim uma outra cor diferente. Uma cor que só se vê se estiver chegando devagar , passando obstáculo por obstáculo e olhando o horizonte. Em segunda marcha (...)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

mergulho a esmo em São Bernardo do Campo

(...)Minha mãe na verdade também nunca entendeu direito o meu pai com seu corpo grande que ficava meio espremido dentro do fusquinha marrom naquela suado trajeto diário entre São Bernardo do Campo e o bairro do Jaraguá, em São Paulo. No painel do carro uma imagem de São Cristovão guiando os caminhos. Um imã-amuleto. A certeza de que além da imensa distância diária que percorria haveria de ser feliz o retorno para casa muitas horas depois de sair quando chegava com o pão debaixo do braço ; a gente chamava de bengala, lembra ?
Também vinha sempre chupando balas de hortelã para disfarçar o bafo da talagada que havia tomado na padaria . Era para esconder da mamãe que em virtude das bebedeiras do meu avô não suportava homem que bebia. Aí,depois que ele chegava, muitas vezes eu lhe tirava os sapatos e as meias e ia buscar os chinelos velhos no quarto. E meu pai esperava a janta falando pouco.(...) 

terça-feira, 8 de maio de 2012

um mergulho a esmo no fundo do Amapá


    (...)Depois da epopéia desisti de minha vida de bandido e fui cuidar da garganta ferida. Ungüentos com gengibre, mel , sassafrás, beberagens com copaíba , tudo me deram pra melhorar meu corte na garganta. Pois até eu me curar foi longo tempo e só teve um lado bom porque não pude falar e quem fala pouco se poupa de pronunciar asneira. 
  Chove há muitos dias e há perigo de deslizamentos por todos os cantos do bairro . Móveis , televisões, mantimentos, cães e crianças já foram levadas pelas águas. O velho índio deitado no velho sofá imundo no centro do terreno plano olha a desolação à sua volta. Ele parece ser o ponto mais alto ao redor do caos. Coça os olhos , invoca espíritos remotos e torce para que Tupã não esteja surdo.Chove e eu vejo todo esse aguaceiro com as minhas meias úmidas preocupado porque até estiar leva um tempo longo e minhas juntas endurecem As palmeiras de açaí vergam com o peso dos frutos e a ventania espirra água para todos os lados. De longe avisto as palafitas repletas de musgo e mesmo com a chuvarada os pescadores continuam chegando com suas canoas repletas de tucunarés, filhotes e até tambaquis . Sei que hoje vai ter mujica de caranguejo com farinha d’ água e me reconforto ao saber disso. Toda convalescença faz a gente revisar uns pedaços da vida. Se não foi por bem que seja pelo mal de uma chaga ou uma doença.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

um mergulho a esmo no Jequitinhonha

foto : Franco Hoff

Seria pouco dizer que essa era apenas uma rota de buracos e fendas, de miséria e sujeira. Era na verdade o trajeto dentro de um imenso abandono. Um mergulho seco e feio no Vale do Jequitinhonha, nos grotões da pobreza profunda, do calor imenso que seca o couro das vacas magras e faz pular os ossos das crianças com vermes. Fui ali chacoalhando, costas doídas avançando pela paisagem agora diurna que se descortinava a minha frente. Fui seguindo adiante com a ciência de que desconheço o país onde vivo, as leis que o regem, o imponderável que nos transforma todos os dias em pessoas diferentes do dia anterior. Agora ali, saindo do sertão de Minas e penetrando no sertão da Bahia eu sabia que nada sabia e o que eu era jamais havia sido.
Muitos quilômetros depois e horas de caminho ruim me vejo diante de outro bar de posto. Ficava bem ali, na beira da estrada. A fervura do asfalto partido, aquele calorão poeirento só deixaria de incomodar lá pelas oito da noite quando a caminhãozeira começaria a estacionar de vez para a dormida. Eu tinha acabado de desistir da viagem até Feira. Finquei pé na minha desistência e resolvi ficar por aquelas paragens por onde um dia passou o mascate Xixi Piriá. Relevei o calor, o mormaço , umas moscas e num prazo de tempo que me pareceu até curto as lombadas do destino me levaram a uma mesa de pôquer onde eu conheci um bando sem líder e eu me achei um líder sem bando. Sem valentia, apenas na moral da sapiência formamos um bom grupo (...)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Vai-se Tinoco. Fica o sertanojo

     Na velocidade internética e na celebração ao inútil a notícia veio tímida. Mas morreu hoje um símbolo da cultura caipira brasileira. Tinoco, 91 anos, que com o irmão Tonico formou a mais venerável dupla de música caipira do país. Eu disse "caipira" e não "sertanojo", esse arremedo urbanoíde de cantores histéricos e mauricinhos que cantam em dupla com chapelões country sem nenhuma conexão com campo, terra, mato, cultura caipira de fato.
     De certa forma  Tonico&Tinoco são os pioneiros dessa moda terrível das duplas que se proliferam como brachiaria em roça de milho. Eles como Milionário e Zé Rico mais Pedro Bento e Zé da Estrada, Pardinho e Pardal e outros genuínos representantes de uma certa cultura caipira  vão ficando soterrados por produtores oportunistas de plantão que fabricam essas duplas hediondas e ainda acusam o mercado de purismo quando se manifesta a favor da qualidade evocando os Tonicos & Tinocos.
      Por sorte , pelos interiores adentro, essa cultura caipira ainda ainda encontra guarida em rodas de moda de viola. E se as centenas de feiras agropecuárias nos empurram goela abaixo o lixão country urbanoíde sertanojo ainda tem gente por aí sabendo quem é e quem foi Tonico & Tinoco e mais compositores do quilate de João Pacifíco, Raul Torres e outros de igual   quilate. Mas como é uma competição desigual é muito triste saber que se foi Tinoco, um ícone de uma época que já não volta mais. Abaixo um vale-brinde do   imenso talento da dupla.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

sempre eterno Edgar Allan Poe

           Quando eu era mais moço me dava um tédio tremendo quando eu lia ou ouvia escritores consagrados ou gente da universidade dizendo que preferia a leitura dos clássicos aos contemporâneos. Aquilo me soava pedante, artificial , denotava uma baita má vontade com a produção literária contemporânea. Sobretudo a brasileira. E não é que muito antes do que eu esperava estou pagando pela língua ?  E não é que estou fazendo valer a premissa do Nelson Rodrigues que dizia "jovens envelheçam" ?
      Ainda não sei se por fastio ou se por de fato encontrar quase nada de interessante na produção literária brasileira atual dei de revirar meus velhos volumes guardados e dar de cara com coisas imperdíveis como os contos de Edgar Allan Poe que li em encarnações passadas aqui mesmo. Eles voltam à minha tona com força total me dando conta do óbvio : o que é bom mesmo é eterno e não se trata apenas de um juízo de valor. Poe é o pai de todos os escritos competentes de horror. Dele derivam todos os demais livros e filmes legais do gênero. Não há Stephen King que se preze que não tenha passado por ele e por H.P Lovecraft. Nesses dias chuvosos,  imerso numa bruminha que nada tem de Avalon reli com redobrado e renovado gosto os incríveis " O Barril de Amontillado", "A queda da Casa de Usher" e o terrível "Gato Preto" e me dei conta de que Poe e sua vida trágica são cenas que se intercambiam e fizeram dele o maior de todos nessa categoria. Que é afinal a categoria da eterna boa literatura. Sem análises pedantes e academicismos tediosos. Bom por si só. Quem nunca leu que corra atrás, por favor.  

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