TODO PROSA

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Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fica na Lapa carioca a minha praia da Normandia

    Se soubesse que um dia não seria necessário o diploma para exercer o jornalismo teria feito mesmo História , com agá maiúsculo, pois cada vez mais me convenço que é conhecendo direito o passado que não repetimos erros no presente segundo determina a velha máxima por vezes lembrada.
   A História brasileira nos atropelou no presente com a overdose (necessária) de informação acerca do nefasto golpe de 1964 que nos levou a anos e anos de atraso e trevas . Não sucumbimos e estamos todos de pé como nação apesar dos percalços impostos pelas múltiplas súcias de corruptos de todos os matizes e partidos que nos flagelam todos os dias.
  Mas não estou aqui para lhes dizer de minhas inúteis reflexões políticas mas para lhes contar como me senti outro dia exatamente como aqueles personagens de uma série de comerciais do History Channel que andam por lugares que nem imaginam terem sido cenários de acontecimentos capitais na linha nem sempre reta da humanidade. Algo exatamente como a jovem mãe que caminha com seu pimpolho numa praia da Normandia sem saber que ali se deu parte da sanguinária batalha do dia D em 6 de junho de 1944.
   Pois sim, minha modesta praia da Normandia é um prédio perdido no tempo que fica ali nas esquinas da rua da Relação com Gomes Freire na Lapa carioca. Atemporal, quase pedindo licença por ainda estar de pé e em boa forma , abriga o Hotel Carioca onde me hospedo bastante quando estou no Rio já que fica quase defronte à televisão onde trabalho. 
  Um dia o Hotel Carioca foi o Hotel Marialva de onde nas sacadas dos quartos dos andares mais altos pode se ver , ainda hoje, a entrada do antigo prédio do “Correio da Manhã” e a entrada do antigo e belo ( porém sinistro) prédio do Dops que está sendo reformado e onde tanta gente boa apanhou feio em passado recente. 
    O passado recente me atropelou em noite de 2009 quando por acaso numa noite insone eu me debrucei num desses terraços e olhando para baixo vi inscrito em mármore eterno no alto do prédio o nome do “Correio da Manhã” jornal histórico há muito extinto que teve papel fundamental no golpe de 64. Primeiro apoiando depois condenando até ser fechado. Ver que a História estava bem ali diante dos meus olhos me fez imaginar quantas tramas e sexos furtivos teriam se desenrolado nos quartos do antigo Marialva, hoje o Carioca. Fiquei imaginando se em noites silenciosas nos anos de chumbo seria possível ouvir o grito dos torturados no prédio da polícia na rua da Relação. 
  Fantasias históricas a parte tudo isso eu apenas intuía quando li dia desses, com 10 anos de atraso, o belíssimo relato de Carlos Heitor Cony intitulado “ A Revolução dos Caranguejos” publicado originalmente em 2004 na coleção “Vozes do Golpe” da Companhia das Letras. No texto Cony relata seus atribulados dias logo após o golpe quando ( ele apoiou a queda de Jango) começou a perceber que tínhamos caímos numa esparrela ditatorial da qual só saímos em 1985. E onde se refugiou Cony por aqueles tempos protegido desde a portaria por amigos que se revezavam para que ele não fosse preso ? No Hotel Marialva, hoje esperto e ereto Hotel Carioca que preserva em salas ao lado de onde se serve o café da manhã , no primeiro andar, toda a memória de tempos idos e vividos. A História com agá maiúsculo nos atropela sim todos os dias sem que percebamos. É uma revolução dos caranguejos como no título do Cony. Mas que esse andar para trás não nos leve nunca ao retrocesso. Assim espero.





sexta-feira, 27 de junho de 2014

ESTILHAÇO DO ANO 70



Evocações antigas. Um velho pedaço de manjar sobre a toalha vermelha. De mesa. Uma jarra de suco quebrada. Sobre a pia. Uma panela de pressão com metade de feijão, metade de ar. Guardada na geladeira. Um fogão à beira da exaustão. No chão respingos de pinga. Nenhum grito parado no ar. Nos anos 70 tudo parecia andar mais devagar. No muro que dá para a casa vizinha cresce uma samambaia. Uma parreira de uvas está secando acima do piso de cacos de cerâmica  enquanto  um japonês do outro lado da rua estuda contabilidade para passar em um concurso público.
Cai um sereno frio, cachorros baldios latem para os postes com pouca luz e duas mães padecem de bronquite pois as fábricas estão muito perto. Há um rádio ligado ao longe. Outro rádio ligado mais perto. Não estou muito certo de que idade eu tenho. Um primo longínquo já faz a barba e de duas primas brotam seios nos seus peitos. Não entendo nada. Só que me dizem que a pátria é amada e que os cegos não enxergam mesmo a luz.
Passei, talvez ontem, por um buraco cheio de carros que me leva ao outro lado da cidade. Uma zona que é a norte e não é minha. Ali , num prédio entre muitos prédios, esconde-se um tio triste com sua família triste e amuada. Ali tomamos chá e comemos bolo de fubá. Então, de repente, rojões foram ouvidos e cachorros correram pra baixo da mesa.  Soube que a festa era no México mas era como se um gol decisivo fosse feito aqui. Recolhi minhas lembranças num saco cheio de aniagem e agora as depositei sobre esse balcão. Afinal não sei se comemoro ou se choro.


Ricardo Soares, 27 de junho de 2014


segunda-feira, 23 de junho de 2014

MEU DIA DE AGENTE SECRETO NA COPA DO MUNDO

  
O Camaronês que eu não descobri o nome. Eu segui quem era seguido. 
  É provável que no momento em que você ler essas mal traçadas linhas o resultado do jogo Brasil e Camarões já seja conhecido . Mas esse é o risco da crônica : muitas vezes morrer mesmo antes de ser lida. Ainda mais na efemeridade das palavras e imagens com os quais nos bombardeiam todos os dias. Mas deixemos de digressões e vamos aos fatos, ou melhor, às trivialidades.
  Levantei cedo na manhã de domingo brasiliense e depois que minha irmã e cunhado partiram para Belo Horizonte,após breve visita, peguei a bicicleta e fui rodar dia lindo adentro. Durante a semana, e ainda mais no domingo, Brasília é um presente para os ciclistas. Tem muito chão para pedalar em ciclovias bacanas que estranhamente os nativos pouco usam dando preferência ao automóvel. Pedalei pois pelo Eixão , sentido sul, e peguei desvios e mais desvios rumo a cidade fantasma adentro que é no que Brasília se converte ali no setor de autarquias e ministérios. Andei pra cima e pra baixo, fotografei prédios e ruas desertas. Inclusive dois prédios que parecem pertencer a ANATEL  e  que levam o nome de dois sujeitos pra lá de polêmicos na política nacional. Já falecidos e esquecidos mas ali estão com seus nomes gravados sobre a pedra : Luis Eduardo Magalhães e o ex- ministro e divisão Panzer dos tucanos : Sérgio Motta. Agora, não resisto, só à guisa de provocaçãozinha básica, já imaginaram se o governo petista desse o nome de Luis Gushiken a um desses prédios ?                  Voltando ao passeio ciclístico do domingão acabei por chegar ao  estádio Mané Garrincha às dez da manhã. O belo mostrengão imponente com seu entorno deserto àquela hora. Cenário bem distinto do que vai se ver nessa segunda onde só torcedores abonados e “diferenciados” vão poder assistir ao que muitos de nós queríamos ver. 
    Defronte ao estádio vários torcedores brasileiros chegando e indo embora, num curioso reconhecimento do terreno. A maioria desses torcedores se aproximam de um camaronês simpático , todo paramentado com as cores do seu time, e pedem pra fazer fotos ao lado dele. Cortesia que nunca é dispensada quando se trata de torcidas rivais no futebol brasileiro. O camaronês solícito atendeu a todos tanto defronte do estádio como ao lado da torre de televisão e da feirinha em seu entorno . Foi assim até o caminho para o seu hotel  no setor norte. E como sei disso  ? eu segui o camaronês . E por que segui o camaronês ? Explico no parágrafo abaixo.
    Um dos muitos que abordou o camaronês na porta do estádio, esse de maneira furtiva, estava um sujeito magro de abrigo cinza e preto que perguntou num tosco inglês se o camaronês tinha ingressos para o jogo de hoje. Não ouvi a resposta mas pude ver uma incessante insistência do magrelo para com  um camaronês bastante constrangido, acuado. A certa altura percebi que o magrelo anotou o telefone do camaronês e esse se afastou do local dizendo que o magrelo o aguardasse. Pensei : pronto ! vão tungar esse camaronês. E passei a segui-lo de longe, aproveitando para curtir a Brasília festiva e a paisagem. Camaronês zanzou pela feira da Torre de Tv, posou pra mais dezenas de fotos, sorriu, acenou, apertou mãos. Tipo pra lá de simpático e eu ali preocupado se ele não ia ser sacaneado pelo magrelo. Eis que a certa altura, uma hora depois do encontro dos dois na porta do Mané Garrincha, percebo que o   magrelo está seguindo o camaronês. Não o ficou esperando na porta do estádio conforme o combinado. Magrelo se esconde atrás de arbustos, marquises e pilastras mas o está seguindo com convicção enquanto ele segue para o setor hoteleiro norte. Ou seja , eu seguia o camaronês que era seguido pelo magrelo e agora eu seguia os dois.  A certa altura achei que o magrelo ia abordar o camaronês.  E eu queria saber, afinal, o que estava acontecendo. Temi pelo tipo simpático que posava com os torcedores brasileiros. Assim, quando a distância percebi um carro de polícia  estacionado há uns 200 metros, eu abordei o magrelo  e perguntei porque ele seguia o camaronês tão sorrateiramente. Sem dizer quem eu era ele se assustou e me respondeu em espanhol que ia atrás do camaronês que estaria hospedado no Hotel Libertador e ia lhe vender um ingresso para o jogo Brasil e Camarões. Ou seja quando pensei que o magrelo é que era o “isperto” parece que era exatamente o contrário. Me dei por satisfeito com a versão do magrelo , recolhi meu trem de pouso e mergulhei de novo na manhã de sol do inverno de Brasília sem saber se o magrelo mentia ou não. Dei por encerrada minha missão de agente secreto na Copa da capital federal.


Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Titular do blog Todo Prosa (www.todoprosa.blogspot.com) e autor, entre outros, dos livros Cinevertigem, Valentão e Falta de Ar. Atualmente diretor de Conteúdo e programação da EBC- Empresa Brasil de Comunicação.

Publicado originalmente no portal DOM TOTAL.


sábado, 21 de junho de 2014

A bola eterna



      Um dia, quando o jovem Neymar tiver virado pó e quando a sombra de Garrincha ou Pelé tiver sido levada de todos os nossos estádios e quando esses estádios tiverem virado farelo de cimento e quando todas as toneladas de jornais e revistas que relatam essas famas tiverem virado uma sopa cósmica haverá no meio de um velho gramado , repousada na marca esmaecida de um cal antigo, apenas e tão somente aquele objeto ancestral e esférico chamado bola. Ali, solenemente largada num meio de campo desolado sem multidões em volta estará ela cercada de nenhum cuidado, ressecada e meio murcha a espera de novos pés que lhe deem um fino trato. Não sabemos se nesse futuro inóspito seremos bípedes, se voltaremos às quatro patas ou se nos comunicaremos por telepatia. Sequer sabemos se seremos poucos ou muitos ou se nosso clima será incandescente ou glacial. O certo é que a bola estará ali repousada sempre a espera de um novo pontapé inicial pois como a bola, nós humanos, somos fadados aos eternos recomeços de partidas.





domingo, 15 de junho de 2014

Plágio, clichê e domingão de Brasília

Grafite achado hoje de manhã abaixo de um viaduto na retaguarda da Esplanada dos Ministérios



    Se a vida não é clichê ela é plágio não diria Roberto Baggio, preocupado com sua trancinha na final da Copa 94 ao não defender os interesses da Itália. Uso a metáfora do planeta futebol porque o mundo e o Brasil só fala nisso nesses dias de Copa  e não há mal nisso. Faça futebol não faça a guerra. Invada a área, bata escanteio, reclame por pênaltis mas não agrida, não morda, não grite.
        Hoje pela manhã pedalei por Brasília mais uma vez. Não levei a máquina fotográfica com preguiça de carregar o estorvo pendurado no pescoço mas depois me arrependi. Deixaram o Eixão aberto porque o ciclista é sempre o último a ser visto ainda mais quando tem jogo ali no Mané Garrincha. Prioridade para os carros é a lógica. Assim procurei caminhos alternativos , ali perto do Lago Sul, setor de embaixadas e a abandonada retaguarda da Esplanada dos Ministérios onde nada acontece no fim de semana. Estacionamentos vazios, vigias vadios a falarem estultices ao telefone. Pela distração deles eu poderia colocar cinqüenta bombas em cinqüenta lugares diferentes e ninguém veria. Isso posto vamos para a alegria.
        Há 15 dias eu ainda flanava em Paris e confesso que como sempre me encanta aquela multidão de gente do mundo todo a se deslumbrar diante das belezas com gestos e atitudes infantis, mesmo com todos os exageros. Tenho esperanças no ser humano quando vejo que se transformam em meninos e meninas que dão risadas altas diante das belezas. Tenho esperança nesses momentos e fico a acreditar  que ainda temos saída.
        Essa sensação parisiense experimentei fugazmente essa manhã ali ao lado da Catedral de Brasília onde principalmente suíços e equatorianos sorriam e se fotografavam em total harmonia deslumbrados diante da beleza criada por Niemeyer, comprando alegremente réplicas da obra vendidas por camelôs igualmente sorridentes. Apareceram por ali também alguns chilenos, uns mauricinhos bobalhões pedalando fantasiados de atletas e repetindo “hei véio, hei véio” e uma trupe de pernambucanos embrulhados na bandeira do estado carregando bumbo, triângulo e sanfona.

        Diante da diversidade, do bom humor ,do alumbramento, diante da beleza, mesmo com o dia ameno e nublado ( brasiliense confunde nublado com frio, igual a carioca) acredito assim que o ser humano não é só esse exército devoto ao consumo e ao “subir na vida”. Pedalei satisfeito de volta pra casa e resolvi não ir até a porta do Mané Garrincha com medo de ver cenas que me tirassem do encantamento. Assistirei Equador e Suiça deitado no sofá vermelho repetindo mais um clichê , esse musical : “toda maneira de amor vale a pena”.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

MARLENE SE FOI ! VIVA MARLENE

    

    No meio da Copa,triste notícia ficará opaca.Foi-se Marlene,das maiores interpretes que esse país já teve.Nenhum portal pôs na capa que sempre é reservada às inócuas celebridades. Aqui abaixo um exemplo do derramamento da velha diva ao interpretar a canção "Viver do Amor" de Chico Buarque. Marlene era única! Ajudou a alavancar a rádio Nacional como uma potência na época. Hoje, quis o destino, que eu fosse um dos responsáveis pelo futuro da rádio Nacional. Evidente que por isso e tudo mais não poderia deixar batido a sua partida. Marlene em meio a tantas cantoras ruins da atualidade deixará saudades superlativas. Óbvio dizer que fará muita falta. Até pelo modelo de grande cantora que foi. 

sábado, 7 de junho de 2014

A FRANÇA PELA PORTA DA DIREITA


Diante da porta da Assembleia Nacional da França , de onde se originaram os termos "esquerda" e "direita" conforme o posicionamento político dos frequentadores da casa, fico a pensar num paradoxo atual dos franceses que é incompreensível para um estrangeiro como eu, mero comedor turístico de queijos e baguetes.


A extrema-direita francesa, comandada pela abominável Marine Le Pen, venceu as eleições locais para o parlamento europeu, deixando estupefato pensadores, jornalistas, escritores, intelectuais e boa parte da opinião pública francesa. Paradoxo incompreensível para mim é que isso ocorre exatamente no momento em que a mesma França lembra por esses dias os 70 anos do "Dia D", o gigantesco desembarque nas praias da Normandia que começou por libertar o país do jugo opressor nazista. Ou seja, comemoram a libertação da mão dos nazis mas votam nos candidatos quase nazis (alguns totalmente) da Frente Nacional de madame Le Pen.

Desemprego, insegurança, medo das ações econômicas de mão forte da senhora Merkel que não dá moleza aos parceiros da União Européia jogando o jogo só dela? Quais os verdadeiros motivos dos franceses terem dado a vitória a abominável madame Le Pen? Analistas das tvs locais garantem que isso só ocorreu pelo absoluto desinteresse dos franceses nessa eleição de 25 de maio. Se lixaram para as eleições do Parlamento Europeu e agora vão ter que paga o pato de não só uma Frente Nacional mais forte como uma madame Le Pen mais musculosa eleitoralmente para as próximas eleições presidenciais francesas.

Há muitos europeus inteligentes – como um prezado amigo espanhol que mora atualmente no Brasil – que não consideram madame Le Pen tão perigosa ainda. Talvez falte a mim, pobre mortal latino-americano, essa percepção europeia já que essa senhora e seu discurso me assusta horrores. Especialmente quando ainda tenho os tênis sujos da areia da praia de Omaha, Normandia, onde tantos tombaram para destruir o que essa senhora enaltece. O patriotismo sombrio, o individualismo exacerbado, uma União Europeia detonada e uma "França forte e para os franceses", como ela vive dizendo. Já vimos mesmo esse filme antes. E não fazem 70 anos. Ou estarei exagerando?
*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Titular do blog Todo Prosa (www.todoprosa.blogspot.com) e autor, entre outros, dos livros Cinevertigem, Valentão e Falta de Ar. Atualmente diretor de Conteúdo e programação da EBC- Empresa Brasil de Comunicação.
( publicado originalmente no portal DOM TOTAL)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

PARIS, SEMPRE A PRIMEIRA VEZ


   Um fio de perfume basco chamado Euskadi  repousa num estreito pedaço de cartolina. É apenas uma de muitas lembranças que estão sobre a caótica mesa cheia de papeizinhos, bilhetes de metrô usados, notas fiscais de brasseries, boulangeries e cafés que formam o mosaico dos dias que passam agradáveis quando se flana por Paris.
   Estou num studio no oitavo andar de um prédio em Passy, não muito longe de onde viveu Balzac. A janela está aberta e dá para uma estreita e simpática varanda . Atrás desse prédio está a torre Eiffel mas não a vejo. Apenas voam sobre  minha cabeça as luzes que dela emanam.  São 11 e meia da noite e não a mais de 40 minutos anoiteceu em Paris nesse maio de 2014 , tantos maios depois  de tantas outras primaveras aqui vividas e sentidas sobretudo aquela revolucionária e um ícone do século 20. A primavera de 1968.
   Volto à cidade pela quarta vez na vida e voltar aqui é como reencarnar. A vida é mesmo muito curta para vir tão pouco a Paris. Mas estou de volta e regressar aqui é como reencarnar. Paris é sempre uma primeira vez. Mesmo que se tenha visto já umas 200 vezes a Torre Eiffel ou cruzado mais 200 as pontes que cruzam o Sena, Paris é sempre recomeçar . Esse sim um sonho feliz de cidade, um destino mítico e quase universal com o qual tantos sonham mas nem todos podem aqui estar ao vivo para conferir.
   Minha companheira não conhecia a cidade então alguns recantos eu vejo de novo com os olhos dela, como se fosse essa feita a última vez. Quase Besame Mucho , um bolero aliás que os músicos de rua aqui tocam sem parar. Afinal Paris, se mulher fosse e não uma cidade, seria aquele objeto de desejo que a gente sempre quer beijar muito.
    É tão bom ser um anônimo completo por aqui que lamento o destino das celebridades que por aqui não podem flanar incógnitas . Pois flanar parece ser nosso destino em Paris. Venha de onde a gente vier. Volte para onde a gente for voltar o bom é simplesmente flanar. Deixar que as cenas aqui vistas grudem nas paredes de nossas memórias e não desbotem com o passar dos anos.
    A caudalosa avalanche de lugares comuns que eu aqui despejo é porque Paris é antes de mais nada uma cidade de sensações e não de decisões. Ou, se você quiser, é uma cidade de constatações. Para começar você constata que a cidade é linda e insubstituível e pronto. E ponto. Não brigue com a beleza dela . Não brigue com o patrimônio universal de sua unanimidade e nem venha com aquela balela que a cidade é linda “apesar dos franceses”. Ela é linda, sim, também por causa dos franceses e dos parisienses que amam a sua cidade. Mesmo quando chove Paris é linda. Mesmo quando é frio Paris é bela.
    Tantos e tantos escritores mundo afora e épocas adentro escreveram sobre a cidade. Muito melhor do que eu .Com mais a dizer a respeito dela do que eu. Paris é uma cidade que respira literatura.Mesmo nessa época globalizada de tablets e smarthphones, instantâneas conexões sociais e fotográficas. O teu suspiro em Paris agora será ouvido em Bangkok ou Feira de Santana na velocidade da luz que não é a velocidade da cidade-luz.
    Mas apesar dessa velocidade toda do mundo Paris me desacelera. Quando aqui vejo a humanidade sorrindo, tomando sorvete e se comportando como  criança acho que nem tudo está perdido e nem eu que não me preocupo com a “busca do meu tempo perdido” para aqui lembrar mais uma saga literária concebida na cidade. No caso a saga de Proust com seu imortal olhar tristonho que os seus retratos revelam. Vejo enfim as mãos de Proust e Beauvoir, de Sartre, Camus, Voltaire,Hemingway, Garcia Márquez e Henry Miller a tentar nos descrever a eterna magia da cidade como tantos outros.
    Vejo a lua a minha esquerda na janela e a direita a companheira deitada na cama a dedilhar seu telefone passando para a família dela todas as emoções que a cidade lhe suscita. Pois então assim é Paris ! Um despertar dos sentidos, o hedonismo humanista que aflora e nos dá a  certeza  de que somos enfim humanos com capacidade de ver e gerar muitas alegrias e não robôs de shopping centers. Paris, senhor Hemingway, continua sendo uma festa . Apesar da Europa unificada e cheia de problemas dos dândis do mercado que defendem uma cultura que tenta soterrar o que aqui se preserva. Nesse doido mundo nosso eu diria que Paris resiste. Docemente resiste. Resistance avec elegance.
*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Titular do blog Todo Prosa (www.todoprosa.blogspot.com) e autor, entre outros, dos livros Cinevertigem, Valentão e Falta de Ar. Atualmente diretor de Conteúdo e programação da EBC- Empresa Brasil de Comunicação.

(PUBLICADO ORIGINALMENTE NO PORTAL DOM TOTAL) 

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