TODO PROSA

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Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

UM PROGRAMA CHAMADO CONTRÁRIOS

       
      Ouvindo outro dia o "jornalista" (???) Reinaldo Azevedo regurgitando "verdades" num programa modorrento da rádio Jovem Pânico de São Paulo fiquei a pensar : e se existisse um programa de televisão onde os contrários se encontrassem ? o nome do programa seria mesmo "Contrários". De um lado sujeitos como Reinaldo e sua estética (???) vovô chorão de chinelo felpudo e do outro , duelando com ele, o objeto de suas críticas fosse o presidente Lula ou Dilma. Seria dar importância demais ao esteta do jornalismo "xarope pra tosse provocada " ? Pode ser mas lembremos que cada época tem o Carlos Lacerda que merece.  Não gostam do Reinaldo porque é feio demais ? troquem por Mainardi, Augusto Nunes, Jabor e por aí vai. E nem vamos chamar esses sujeitos de golpistas. O que eu queria mesmo era ver esses caras peitarem de verdade aqueles a quem esculhambam diaria e obsessivamente.
     Para não dizer que não falei dos contrários também queria ver o mesmo em mão oposta. Nassif, Paulo Henrique Amorim ou assemelhados a peitar de frente os "arautos da modernidade" FHC, Serra, Alckmin ou Aécio. Contrários frente a frente. Seria um espetáculo televisivo e tanto.Uma ideia simples com alto potencial de audiência nesses tempos belicosos. Mas uma tola ideia como essa é inviável . E sabem por que ? porque tirando uma ou duas exceções jornalistas ,mesmo que gabaritados e experimentados, "afinam" diante dos seus opositores ideológicos. Aí fica valendo aquele tratamento "senatorial", protocolar , de sorrisos amarelos e tapinhas nas costas. Algo do tipo a "autoridade" dizer para o crítico : " Você é terrível hein ? não me dá folga ..."  Ao que o jornalista engomadinho e formal responde : " É a democracia excelência... mas não é nada pessoal "... ou seja um programa chamado "Contrários" nunca aconteceria porque seu título poderia ser trocado por "Hipocrisias". Invariavelmente os "lobos maus" viram cordeirinhos diante das "otoridades". Eu que  já participei como entrevistador ( muitas vezes) e apresentador ( uma única vez) do programa RODA VIVA sei do que estou a falar. A sala vip , ante sala do estúdio de gravação, com seus acepipes e refrigerantes esfria as animosidades e aí vai pra o ar sempre um programa morno, engessado, onde critico e criticado se aturam como colegas de firma num churrasco. Salvo raras exceções.
    Não tivesse eu tanta certeza disso , depois de muitos anos atuando em tantas mídias, não ia ficar levantando bola para algum colega fazer o meu "Contrários". Fosse ele viável eu queria era mais dirigir, escrever e apresentar uma atração dessas. Mas quem é que se habilita francamente a encarar uma parada dessa para valer ? A Tv privada não o faz por conhecidos compromissos comerciais. Não se fere um potencial anunciante, é a lógica deles, E a tv pública, engessada até os ossos no seu rigor mortis jornalistico, não o faria por ser mais realista que qualquer rei visto que sua fonte de financiamento é fundamentalmente o  estado. Assim sendo que lindo projeto engavetado é esse "Contrários" . E que sucesso faria num país que parece, infelizmente, conflagrado ideologicamente. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SOBREVOANDO OS ÍNDIOS...

ilustração de Jo Fevereiro
    (...)Jonas apontou lá embaixo para o professor uma porção de malocas  indígenas . Uma maior, no centro do terreno, e outras menores e consistentes em volta. E disse , suavemente :
            --- Lá é a terra dos índios.
Mesmo sendo o meio do dia a aldeia parecia sossegada, silenciosa. E parece que todos dormiam , febris pelo calor e não em virtude do sarampo que tinha matado muitos deles dois meses antes. Mais uma vez era um sobrevôo tranqüilo e eles , nas alturas, não eram notados  nem pelos índios que dormiam e nem pelos poucos curumins  que se espalhavam pelo terreiro judiando de um jabuti. Numa sombra, perto da maloca maior, respirando fundo e ofegando o Pajé da tribo os notava no alto. Aliás o pajé sabia que eles viriam  mas preferiu não espalhar a novidade pois a chegada poderia atrair vãs expectativas já que os visitantes chegariam pelos céus mas não trariam nem cura dos males nem presentes.
Um sol muito luminoso  ofuscava a perfeita percepção mas o Pajé sabia que eles estavam ali e sobrevoavam  e de alguma maneira  ele tentou se levantar com dificuldade  e fez sinais que esclareciam  que ali estavam todos muito bem obrigado apesar de alguns percalços, algumas malárias e uma safra de milho que não foi das melhores.
O Pajé tinha fumado os seus trecos  e estava turbinado também de mandioca fermentada o que lhe dava maior facilidade de conexão. Por outro lado isso provocava um certo ruído de comunicação. Jonas explicou ao professor que aquele era um povo remoto há muito visitado por eles. Um povo que havia lhes ensinado muito e que também se aproveitava de certo conhecimento  que vinha desde  tempos imemoriais. (...)


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A BORDO DO COMETA DA PACIÊNCIA


publicado originalmente no portal DOM TOTAL.CLIQUE AQUI.

Por Ricardo Soares*

  Uma máquina de lavar roupa (ou quase) altamente tecnológica pousa em um cometa em movimento no espaço. Aterrissa, espia em volta e, com os olhos da humanidade, o que vemos? Nada. "Perdidos no espaço". E aí me lembro do lendário seriado da ficção cientifica da minha infância e de grandes questionamentos filosóficos do menino Will Robinson que, apesar de perdido e no espaço, fazia a apologia da inocência e da ética diante das vilanices do doutor Zachary Smith.
  É, pousamos em um cometa em movimento e, nessa velocidade da informação, eu não soube para onde ele vai. Será que vai parar em algum ponto aqui no Butantã, São Paulo. Será que sobe a avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte? Será que ele dá carona? Aceita passe? Para onde ele vai? Para onde for, levará os olhares da humanidade já que o robô voyeur máquina de lavar promete fotografar tudo.
  Não vou fazer aqui aquele discurso manjado sobre o paradoxo entre nossa avançada tecnologia em contraponto com nossa barbárie civilizatória atual, questão definitivamente bem posta no clássico filme "Blade Runner". Mas cabe uma reflexãozinha.
 Essa carona no cometa demorou dez anos para ser levada a termo. Dez anos onde muitos profissionais notáveis se empenharam para não errar, para que chegássemos a esse feito notável. Foram precisos dez anos de muita paciência. Para mim, essa é a grande lição desse feito. Fazer com que a humanidade, viciada em pressa e velocidade, parasse pra pensar que, às vezes, é preciso muito tempo para efetivar um grande feito. O cometa que agora cavalgamos é um elogio à paciência de que todos nós precisamos.
*Ricardo Soares é escritor, jornalista, roteirista e diretor de TV. Publicou, entre outros, o romance "Cinevertigem" e os infanto-juvenis "Valentão", "O Brasil é feito por nós?" e “Dia de Submarino”. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DE VOLTA A MAURICÉIA DESVAIRADA...

é pra levar a sério ??? 
   
    Antes de mais nada leiam o post desarmados Mauricinhos amados. Trata-se de uma sátira. Já ouviram falar do gênero ? Outro dia mesmo, motivado por um post sobre “mauricismo e bolivarianismo”, escrito pela jornalista Cynara Menezes (clique aqui), fiz uma pesquisa arqueológica em meu próprio blog e achei um relato que vai na linha proposta por Cynara e nos dá conta das origens dos mauricinhos . Escrito em 2007 prova-se atual. Veja aqui. Como o tema volta à ordem do dia retomo o assunto , relembro relatos passados naquele post e acrescento apontamentos novos sobre ele :


1.Como já sabemos os mauricinhos são provenientes de um pequeno atol que fica entre as ilhas Maurício de Mingau e Maurício de Sousa bem próximos dos arquipélagos Cebolinha, Cascão e Magali. Mauricinhos são uma tribo nômade, dadivosa e cheirosa que se espalhou planeta afora a partir da expansão dos domínios do rei sol de França, o abaitolado Luis XIV, patrono inconteste dos mauricinhos.Hoje sabe-se que os mauricinhos descendem de gigantesca tribo nórdica e diferenciada catalogada pela ciência como os "Pitecantropus Coxinhus". Daí que a malta suja e ignara os apelidou na realidade atual brasileira de "coxinhas" que é uma denominação mui atualizada dos mauricinhos. Todos farinha do mesmo saco . Farinha de trigo , of course!

tudo que um bom dinheirim pode comprar


2.Os mauricinhos sempre foram asseados, polidos, discretíssimos e sempre pensaram no bem estar do próximo muito antes de serem guilhotinados pela revolução francesa. Os mauricinhos promovem a justiça social e a distribuição de renda pelo mundo é bom que se ressalte. São conhecidos os seus programas sociais e o verdadeiro asco que eles tem da mídia e seus holofotes.Nada fazem para aparecer a não ser “ser eles mesmos” como apregoa a ética e estética “loucura loucura” de Luciano Incrível Hulk, um mauricinho comunicador , espécie de porta-voz do mauricismo . Um sujeito com cara de pássaro ( um tucano ?) que representa com galhardia todos os ideais da Mauricéia inclusive a defesa de que os pobres devem ter os mesmos direitos dos ricos contanto que se coloquem no lugar deles, longe dos bairros nobres e das padaria de grife que freqüentam. E que também se prestem a tomar parte do circo que ele monta em seu programa dando presentes para que os pobres chorem diante das câmeras. Muito edificante.


3.Os mauricinhos clássicos querem ser originais, diferentes e diferenciados mas na ânsia de serem novidadeiros tornam-se óbvios. Se alimentam basicamente de caviar, trufas,os óbvios brioches servidos em brunchs e gostam de chocolate suíço ou belga sempre acompanhado de taças de champanhe francesa. Também podem ingerir camarões sete barbas e lagostas conforme a época do ano e período de acasalamento. Os mauricinhos só se acasalam com os do mesmo grupo social e invariavelmente acasalam-se entre eles mesmos ou com fêmeas do mesmo sexo , as patricinhas. Não relutam em copular com fêmeas de outro extrato social sobretudo com aquelas “pobrinhas” que se deslumbram com carrões, brilhantina no cabelo , mocassins italianos, camisas pólo de grife e as indefectíveis camisas azuis claras de mangas longas. Sexo com “pobrinhas”, que fique bem claro, é diversão. Para perpetuação da espécie a escolha deve recair sobre fêmeas barbies com pedigree.




4.Os mauricinhos templários – ramo venerável da tribo – são muito religiosos . Freqüentam compungidos missas, batizados , casamentos e crismas. Beijam crucifixos, passam água benta nas testas e sobretudo pregam para o católico tradicional muito embora não se furtem a abraçar evangélicos, conservadores, usurpadores da fé pública em geral. Não se constrangem em confraternizar com fascistas e golpistas. São grandes artistas da dissimulação os mauricinhos. Eles tem como patrono o Mauricinho histórico Dom Pedro I que rasgou a fita do chapéu e gritou, batendo as botinhas : eu fico, eu fico , eu fico no Brasil !!! mesmo apesar dos pretos, mamelucos, cafusos , fandangos e candangos.

Gabriel Bauxita Jr. Pensador religioso mauricinho.

5.Em cofres blindadérrimos , de preferência fora do país, os mauricinhos guardam o seu patrimônio junto com seus valores éticos, estéticos e nada ascéticos. Nesses cofres também guardam a verdadeira história do Brasil pois reinventaram uma outra sobretudo quando sobem a palanques para dizer que foram pioneiros na luta pelas eleições diretas e outras conquistas que nada tiveram a ver com eles. 

6.Os mauricinhos clássicos estudam os filhos fora do país para dizer que a educação do Brasil é uma joça. Tratam-se nos melhores hospitais daqui e do exterior para reiterar que a saúde é um lixo. Andam de helicópteros para reclamar da lamentável mobilidade urbana. Os mauricinhos marcam mesmo posição. São muito ativos embora possam ser passivos pois são homens de condição plural, liberais nos costumes. Aliás ser gays entre eles é aceitável. Os menos favorecidos fazem parte da “viadagem”. 

Aócio Noves Fora, reinventor maurício da história brasileira

7.Recentemente um Mauricinho sênior ganhou as manchetes e a mídia brasileira e nela ficou por bom tempo graças aos muitos amigos que ele fez no segmento de rara independência e imparcialidade. Aócio Neves Fora, neto de um falso pai da pátria, virou candidato a presidente . Merecia. Ele adora falar em meritocracia.Afinal conseguiu cargos públicos ainda bastante jovem e sem maior esforço graças à sua genialidade reconhecida por dez entre dez políticos que queriam agradar o seu vovô de quem era precoce papagaio de pirata. Aócio foi diretor de loterias da Caixa Econômica aos 25 anos, nomeado por Sarna Sarney, e em seguida se elegeu deputado federal com uma votação expressiva graças, evidentemente , ao seu próprio mérito.

8. Aócio tem méritos sim .Pode ser considerado um patrono do movimento mauricista, até porque é mais velho do que seus congêneres sul-americanos, os mauricinhos Lacalle Pou no Uruguai e os Capriles venezuelanos que em geral estão entrando nos 40 anos. Aócio tem 54, conservados por cremes e benesses cirúrgicas e cosméticas a que todo mauricinho tem acesso,isso sem contar que o sol da república do Leblon faz muito bem àquela tez mauricistica pouca afeita aos grotões do miserável Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais,estado que desgovernou e que pouco conhece .




Fernando Bollor de Mello , grão vizir do mauricismo mundial


9.Mas por favor... por fim não cometamos injustiças. O grão vizir nesse segmento, o PHD , o pioneiro em cavalgar as desastradas estepes do poder na ótica dos mauricinhos foi o hoje senador da base governista Fernando Bollor de Mello que chegou a presidência com tenros 40 anos e ternos caros , bons vinhos, carros velozes, jet-skis ,Montblancs , Breitlings, aviões e conduta econômica supersonicamente incompententes que nos levaram ladeira abaixo rumo ao seu impeachment.
Ronaldo Calejado. Mais para Mauricião que Mauricinho.Pioneiro do agrocoxismo.


   Haveria muitos tópicos a narrar acerca da linhagem maurícia como a que representa o personagem acima.Mas me recolho à minha insignificância fabril. Filho de operário, criado no ABC, pertenço a outra casta e se aqui ficar discursando contra eles vira a inevitável resposta de que sou refém de “ódio de classe”, do “rancor contra gente rica”,etc. Não, não digam isso. Reconheço minha insignificância , minhas parcas proteínas , meu desajeitamento em vestir um bom Armani. Me curvo diante da superioridade dessa casta e quero um país onde eles sorriam os brancos e harmoniosos sorrisos da privatização, dos pedágios extorsivos, da falta d’água , da corrupção jamais investigada e punida, da conivência com os “justiceiros” do Judiciário. Um país governado para os mais ricos e cheirosos onde a segregação seja um troço disfarçado na ideia de que “pobre, mesmo limpinho, é bom no seu cantinho”. Me curvo a isso mas sabe onde? Só em pesadelos. Porque enquanto eu estiver acordado estarei aqui zoando com os que acreditam que nossa saída é essa Mauricéia desvairada...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS .VAI UM POETA NUM MUNDO PATETA

Manoel de Barros : lia a vida de outro jeito
      Faço um trocadilho bobo mas no qual acredito : vai -se mais um poeta num mundo pateta. Morreu Manoel de Barros e eu confesso que desde sempre não tinha uma opinião definitiva sobre a vida e a obra dele. Muitas vezes achei bobocas e tolas as coisas que ele escrevia e em outras tantas vezes achava que cometia versos iluminados, clarividentes, arrasadores. Muitas vezes achei que a mídia exagerava a importância dele. Em outras vezes acreditei que ele tinha que ter muito mais espaço no ideário nacional. Vai ver é assim mesmo. Poetas vieram pra confundir não para explicar ou reunir em torno de si consensos. De mais a mais é muito melhor que a mídia escreva muito mais sobre poetas e muito menos sobre políticos. Porque os primeiros e bons ficarão. Os segundos e maus submergirão no limbo histórico.
       Tudo o mais é redundância e não quero engrossar o bolodório de frases inócuas e tolas loas que a mídia vai consagrar ao poeta que se foi. Gente que não leu uma linha dele ou sobre ele vai escrever seu necrológio. Telejornais se encerrarão com seus poemas  e os almofadinhas engravatados de nossas telinhas farão ar compungido para falar de sua morte. O mais de sempre.  
       Manoel de Barros , ao que parece, teve uma vida longa, bonita, proveitosa e literalmente poética. Não pude tirar algumas dúvidas em relação a ele pois foi dos poucos autores brasileiros que não pude entrevistar quando apresentei e dirigi de 1998 a 2005 programas de literatura que passaram em muitos canais. Mas aquela figura simpática de "refugiado ambiental no Pantanal" me causava ótima impressão. Tipos como esse num mundo conflagrado fazem talvez mais falta do que a poesia que praticam. Se ela é boa ou ruim deixo a analise para a plêiade de acadêmicos chatos que pululam no país e afastam os mortais da literatura.  Lamento agora é a perda da figura poética, essa metáfora tão necessária para desarmar nossos corações e mentes. Muitos passarinhos no seu caminho Manoel de Barros...

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

UM PERDIGUEIRO NO BURITIZAL

   



  Diante do cão perdigueiro um enorme buritizal surgiu. O bicho, ressabiado, se confundia diante da profusão de novos apelos para o seu olfato. Passados grandes e nada silenciosos mergulhavam nas águas plácidas do fim de tarde e um quilometro adiante crianças numa algazarra sacudiam essas mesmas águas que deixavam pois de ser plácidas. Mais adiante ainda, no limite do buritizal, começava um longo mar de soja naquela tristeza de deserto verde que o faro do perdigueiro ainda alcançava. Pois foi só ele que aos poucos notou nossa aproximação. Foi ficando mais e mais agitado, latia fino  em forma de um quase ganido, o que era incomum.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

DEITADO NO SOFÁ DE CURVIM

     
deitado no sofá de curvim da ficção
    Envelhecer desse jeito sem ter ousado me parece algo muito triste e é assim que me vejo se tivesse envelhecido na quente noite de verão onde evitei um contato visual, corporal ou verbal  com desconhecida. Me vejo assim a buscar sôfrego o ventinho tímido do ventilador, a ansiar por compressas nas costas e mesmo por uma boa noite de sono sem as muitas pausas para as micções.
    Vejo como é pouca a felicidade  e o quanto  nos contentamos pouco com ela  a essa altura desse campeonato onde senhora alquebrada e com as pálpebras cansadas busca um sentido feminino para as suas apreensões e rugas fartas. Sou um velho e estou deitado ao lado de uma velha  que logo mais vai ranger os dentes e passar meia dúzia de cremes que de nada servirão para despistar a sua decrepitude. Ela pode ter em mente algum dia dançante mas ele já era. Ficou escorregadio imprensado entre impurezas das recordações que ganham contornos irreais e próprios conforme as lembranças vão ficando mais longínquas . Afinal , o que se ouvia então ? qual a canção que marcou nossa vida ? Por que ela sempre esqueceu as letras das músicas ? Por que sequer a memória dela é seletiva ? Porque ela só retem lembranças amargas. Eu me lembro que a cerveja era quente , doía meu dente e deitado num sofá de curvim eu garantia que todas essas lembranças eram lambanças.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A HISTÓRIA RECENTE REINVENTADA

      
você, por falta de opção, quis o da direita ? pois a história te deu o da esquerda...

 Uma das principais mazelas da recente campanha eleitoral foi trazer à tona um total desconhecimento da história recente do Brasil. Gente de tudo que é lado santificando quem jamais deveria ser santificado. Candidato reescrevendo a história para moldá-la aos seus interesses e muito mais . Isso torna mais do que urgente, inclusive como forma de preservar a verdadeira memória nacional, o ensino intensificado de história do país. Mais urgente ainda é a revisão por tudo e por todos dos últimos 50 anos para evitar que , por exemplo, se disseminem algumas inverdades como essas :


1. Tancredo Neves não foi o santinho que prega o seu netinho e os guardiões de sua memória

2. Ulysses Guimarães não é o pai da nova democracia brasileira.Nem seu principal artífice. Milhões foram para as ruas conseguir isso

3. Ao contrário do que disse em um recente comício em Goiânia o "netinho" profissional Aécio , o doutor Tancredo não foi o principal condutor das "Diretas Já"...beneficiou-se das indiretas e tornou-se candidato por via indireta porque não assustava os milicos

4.Eduardo Campos não é o santo que pregam nem o Antonio Conselheiro de Boa Viagem que liderou hordas contra os vilões da nação

5.Marina Silva não é a paladina da floresta nem a musa da clorofila mundial com seus interesses miúdos e muito maduros, longe dos verdes

6.Fernando Henrique Vaidoso não foi o criador do plano Real. Foi seu avalista e condutor . O plano real foi inventado no governo Itamar.

7. a mídia brasileira não é imparcial ao contrário do que dizem. É vendida e só vende a parcialidade dos seus interesses

8.Não existe censura no Brasil.

9. O Brasil não vive em uma ditadura bolivariana

10. Comunistas ainda existem sim. Mas não comem criancinhas

domingo, 9 de novembro de 2014

NUNCA FOMOS TÃO BURROS


publicado originalmente no portal DOM TOTAL.   Clique aqui.
Por Ricardo Soares*

Nunca tivemos tanta informação à nossa disposição. Nunca fomos tão burros, rasos, superficiais e preguiçosos mentais. Chocados com a paulada? Creio que não porque duvido que qualquer pessoa  de bom senso ao olhar para os tempos modernos não tenha se debruçado um pouquinho sobre esse paradoxo.

Quando vejo em qualquer saguão de aeroporto ou qualquer sala de espera, restaurante, bar ou shopping as pessoas pregadas aos seus tablets e smarthphones como se fossem extensões de seus corpos, eu não me orgulho de nossa espécie e de nossa era. Tenho é pena. A imensa legião com os olhos pregados nos seus HDs externos, suas vidas coladas a um aparelho, me dão a nítida impressão que, em breve, estarão a limpar a baba bovina que lhes escorre pelos cantos das bocas. Gado manipulado, legião de autômatos insensíveis ao que se passa em volta. Adoentados e escravos da tecnologia. Estou sendo contundente, cruel, exagerado? Preste bem atenção agora ao que ocorre do seu lado e veja se não estou minimamente certo.

A revolução da informação está longe de terminar e não tenho nada contra ela. Ela avança todos os dias e nos abre novas possibilidades. Não temos como nos insurgir contra isso. Mas o tipo de comportamento e de "cultura" (e bota aspas nisso) que isso gera é sinal de evolução? Não estaríamos deixando nossos softwares e computadores cada vez mais inteligentes para ficarmos emburrecidos irreversivelmente?

O debate acerca do assunto está posto no mundo globalizado e sou apenas um grão de areia a "pitacar" sobre ele. Gente muito mais competente e especializada mergulha e mergulhou no tema. Escrevo sobre porque percebo situações cotidianas no varejo, todos os dias, que me afetam direta e indiretamente. Gente cada vez mais "assoberbada" não usando a própria memória sequer pra guardar números dos telefones conhecidos ou aniversários dos amigos. Gente que ocupa sua memória com o quê, mesmo?  Orgulho e preconceito? Ambições materiais a serem pagas a perder de vista com os cartões de crédito que valem em todo o planeta?

Lugar comum dizer que estamos no meio de uma "revolução" semelhante à provocada por Gutenberg no século XV, quando a descoberta da imprensa "democratizou" a leitura de livros, antes apenas privilégio do alto clero e meia dúzia de intelectuais e aristocratas. Gutenberg e seu invento disseminaram conhecimento assim como agora a imensa tsunami virtual deveria fazê-lo. Só que, diante de tanta ignorância e de leitura rasa sobre todos os assuntos, todos os dias, me pergunto: não estamos deixando de ser leitores para sermos meros espectadores de um mundo que passa numa velocidade atroz? Quem se dispõe a se desplugar ao menos uma vez por semana para a leitura de um bom e demorado livro ou mesmo uma prosa reta com um filho, um amigo, uma companheira? Quem se dispõe à contemplação, num mundo de barulhos e luzes? Aonde vamos nessa velocidade? Para mim, vamos é dar de cara num muro que nos anula. De onde, por trás dele, poderemos perfeitamente sermos controlados por uma única inteligência artificial que nos (des)governe. Se você, com sua pressa, conseguiu ler esse texto até o fim, talvez concorde com pelo menos um dos meus argumentos.
*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, jornalista e roteirista. Publicou o romance “Cinevertigem” e os infanto-juvenis “Valentão” e "O Brasil é feito por nós?" entre outros livros. Foi cronista dos jornais "O Estado de S.Paulo", "Jornal da Tarde" e “Diário do Grande ABC”.

sábado, 8 de novembro de 2014

OS POLÍTICOS TOMATES AMASSADOS




 (publicado originalmente no portal  DOM TOTAL em    DOM TOTAL)


Por Ricardo Soares*

Embora adore ler ensaios nunca me atrevi a cometê-los. Aliás, já os cometi sim. Alguns poucos. Mas tive a sensatez de não publicá-los muito embora com toda essa enxurrada de textos e agressões durante o período eleitoral ( e agora, depois dele) os dedos coçam para escrever algo mais caudaloso e menos superficial sobre o nosso desprezo pela política e pelo fazer político. Sim, porque só nosso desprezo pelo tema justifica termos chegados a esse ponto. De fim de roda da história com poucas opções para escolher entre os menos piores.

A política, notadamente no Brasil, parece reservada na sua maioria a dar destaque a quem não teria o menor destaque no mundo intelectual ou empresarial. Ficamos com os tomates amassados, com os restos do tacho ao que parece. Porque parece que, ao menos e com certeza no Congresso Nacional, nunca tivemos uma configuração tão deplorável de seres humanos. Eleitos por nós na sua maioria muito embora alguns tenham ali chegado por força dessas coligações absurdas e de um número enorme de legendas de aluguel.

Se os institutos de pesquisa, com suas combalidas reputações, resolvessem ir a campo fazer pesquisas sobre política como conceito no Brasil acredito que apurariam que uma maioria significativa crê, com convicção, de que política trata-se de uma atividade medíocre e suja , que deixa longe e repele os honestos trazendo para o seu colo principalmente as nulidades e os malandros ( com ou sem gravata) que enxergam na atividade uma maneira rápida de fazer amigos, influenciar pessoas e ganhar muito dinheiro. O desprestígio da política no Brasil hoje é um caso de polícia, literalmente. Pena que nem todos sejam presos e nós vejamos para cima e para baixo meliantes disputando mandatos e inventando desculpas horrendas para as suas artimanhas.

A classe política tem uma péssima imagem. Nossos melhores marqueteiros creio que não conseguiriam dar conta de melhorar essa imagem enxovalhada que fixa no nosso inconsciente e consciente cenas deploráveis de dólares sendo guardados em cuecas, recebidos em pacotes,transações e comissões nojentas sendo negociadas com câmeras escondidas. Às favas o bem público, os cidadãos honestos perseguidos pela voracidade do imposto de renda.

Talvez esse descrédito generalizado faça com que a política no Brasil, o fazer cívico, não atraia os nossos melhores. Senão como explicar a ascensão e queda midiática de tipos que estariam melhor colocados dentro de camisas de força como os patéticos Collor de Mello, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e demais aberrações? E isso só para citar três “singelos” exemplos de desequilibrados patológicos.
Infelizmente a opinião pública nacional chegou à certeza de que a política é uma atividade de pessoas imorais, sem sentimentos ou palavras de honra , ineficientes e sem compromissos. Talvez por isso tantos se acusam tanto de todos os lados. Não sobrando nada de bom para gregos, troianos, baianos , paulistanos, petistas e tucanos . É preciso, antes de mais nada, reabilitar a credibilidade política para refundar a credibilidade. Do contrário estaremos na areia movediça por prazo indefinido.

* Ricardo Soares é diretor de tv, jornalista, roteirista e escritor. Escreveu, entre outros livros , o romance “Cinevertigem” e os infanto-juvenis “Valentão”, “O Brasil é feito por nós” e “ Falta de Ar”. Foi cronista do “Estado de S.Paulo”, “Jornal da Tarde” e “Diário do Grande ABC”.

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CINEVERTIGEM

O BRASIL É FEITO POR NÓS ?

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