TODO PROSA

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Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

domingo, 31 de janeiro de 2016

A TRAIÇÃO DOS ELEGANTES

      
     Há um remoto livro do maior de nossos cronistas, Rubem Braga, chamado " A Traição das Elegantes". Acrescentemos "dos elegantes" também. Eles e elas podem nos trair , roubar , vilipendiar pois os destinos pátrios sempre pertenceram a eles. Nunca foram questionados nem apeados do poder por tanto tempo como agora. Culpas à parte se elegantes podem cometer erros e desviar verbas está implícito que todos fazem vistas grossas, deixam pra lá,pois os "elegantes" sempre foram assim. Mas , ai de nós, se os bagaceiras, se os frequentadores dos frangos com polenta e pescadores da Billings botarem a mão no butim, aí sim!! vem sangue, pólvora, fumaça! O butim sempre teve dono e não deve mudar de mãos. Que novidade é essa agora, esse bando de não formados na Sorbonne querendo ter conta na Suiça ? Então dá-lhe Justiça seletiva, imprensa seletiva, decadente mas com pose altiva. Isso sim é um país a deriva... enquanto a justiça não for pra todos não acredito no Brasil.

"Inês imprensa" é morta



( texto publicado originalmente no DOM TOTAL . ( Clique aqui)


     A imprensa brasileira virou um território inóspito,devastado, de paisagem calcinada tal qual vemos naqueles clichês cinematográficos americanos tipo “Mad Max”. Essa paisagem torna-se ainda mais contundente quando observada a distância e só resta lamentar a que triste fim chegamos.
    Entro nesse território apreensivo, com a mão no coldre, pois infelizmente também estou armado. É um lugar que eu conhecia bem,onde tinha amigos e colegas. Mas hoje quase não conheço ninguém. É um território hostil e sou apenas um forasteiro de meia idade deslocado de uma paisagem que um dia supus que também fosse minha.
     Gestamos os ovos de tantas serpentes por muitos anos. Não foi por falta de aviso de gente esclarecida. E, agora, Inês morta o que resta fazer? Dar uma de moderninho e engrossar o coro dos que dizem que a imprensa está viva sim , apenas se reciclando em buscas de “novas formas e desafios ?”. Me poupem caras pálidas. Tal qual conhecíamos a mídia nativa está morta e enterrada e os pretensos bad boys que frequentam os salões desse território inóspito não passam de cães que ladram mas não mordem. São fracos, mal alimentados intelectualmente, rasos.
    O fato da “Folha de S.Paulo” contratar um jovem analfabeto e fascista para integrar seus quadros é a pá de cal naqueles que ainda relativizavam o tal fim da nossa imprensa. Não se trata mais de uma discussão ideológica. É uma discussão patológica. Ficaram todos doentes, legitimando a doença da ignorância e desinformação ao cederem espaço , pretensamente nobre, a estupidez suprema. O atestado de “nada ser” fica valendo daqui pra frente. Basta falar mal de um governo impopular ou destilar ódio que tem espaço. E, pior, com a defesa de um cínico discurso de pluralidade.
   O erro colossal da Folha pior que não me assusta. Não assusta aos veteranos e nem aos jovens profissionais esclarecidos que um dia acreditaram numa imprensa  de verdade. Não imparcial pois imparcialidade é um mito inventado. Mas ao menos justa. Hoje vivemos regras tão selvagens que a primeira vítima a tombar  nessa guerra  foi a verdade. E fomos tão incompetentes que nem sabemos o dia, hora e local exatos  onde se deu essa tragédia. Mas ela está consumada. Literalmente a Inês-imprensa  é morta e eu que já não reconheço a paisagem tenho medo disso tudo.
Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Autor de sete livros foi cronista da revista "Rolling Stone" e dos jornais "O Estado de S.Paulo" e "Jornal da Tarde" entre outros.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

AINDA ESTOU AQUI MARCELO PAIVA


(Republico aqui texto escrito originalmente para o portal DOM TOTAL acerca do mais recente livro de Marcelo Paiva...(Clique aqui)


   Ainda estou aqui Marcelo Rubens Paiva. Da mesma geração que a sua, você mais velho que eu apenas um mês, dou de cara com seu novo livro de belo e sugestivo título: “Ainda estou aqui”. Antes que eu me atrevesse a comprá-lo já tinham me dito que era um livro bonito. Paguei para ver. E gostei.
   Não faço a menor ideia se “Ainda estou aqui” está vendendo bem, se recebeu boa acolhida crítica, se suscitou discussões acerca dos temas que levanta : a chaga que fica para sempre naqueles que tiveram parentes diretos envolvidos em assassinatos políticos da ditadura brasileira 1964-1985 e a dolorosa convivência com o mal de Alzheimer que vitimou Eunice, mãe de Marcelo. Do primeiro tema muito sei, nada sofri. Meu pai era um modesto supervisor de almoxarifado justamente no emblemático ABC paulista durante a ditadura. Apolítico e alienado desses temas sua única ambição era pagar em dia as prestações do BNH e educar direito os 3 filhos. Do segundo tema muito sei. Esse meu pai morreu de Alzheimer em 1996 aos 67 anos. A doença o pegou precocemente quando ele tinha apenas 61 e cada mazela e estágio da doença que Marcelo Paiva descreve é bem dolorosamente conhecida de minha família.
   Marcelo Paiva fez um livro bonito. Simples, enxuto,digno, derramado, mas sem pieguice. Não abraçou nenhum rancor e deixou claro que sua mãe também não o fez nem antes nem depois que foram nominados os assassinos de seu pai muitos anos depois de sua morte . Em muitas partes o livro me deu um baita nó na garganta e creio ser essa uma das lindas funções da literatura. Dar nós nas gargantas nesse mundo cada vez mais pragmático, estéril e sem sangue nas veias.
  Li as primeiras 200 páginas numa só sentada. Não resisti e mandei um recado para o autor dizendo que estava gostando muito. Ele agradeceu mas não precisava porque não é uma mera gentileza. É a pura verdade. Verdade que reitero quando termino a leitura de “Ainda estou aqui” sobre o Atlântico na noite do réveillon para começar meu ano novo aqui em Paris. Aí, Marcelo Paiva, eu reforço o que disse : é um livro belo. Escrito, com perdão do chavão, com a alma. Sem se preocupar com salamalaques estilísticos. Direto e reto ao ponto. Expondo as vísceras. Com o açúcar e o afeto que essa história merece.
  Creio ter conhecido o Marcelo Paiva em 1983 quando ele era o jovem autor best seller de “Feliz ano velho”. Eu era então o jovem repórter especial do “Diario do Grande ABC” e forcei a mão para traçar numa grande matéria de domingo um paralelo entre jovens autores brasileiros ( como o Marcelo e o Reinaldo Moraes) e a literatura beatnik que começava então a ser publicada entre nós. Alhos nada tinham a ver com bugalhos mas até que aquela remota reportagem de domingo ficou redonda.
   Outras e muitas vezes estive com Marcelo Paiva. Quando seu best seller virou peça, quando virou filme com direção de Roberto Gervitz , quando fui convidado a fazer pequenas entrevistas para um programa que ele apresentava na Tv Cultura, o esquecido “Leitura Livre”. Também nos vimos em feiras e encontros literários Brasil afora quando eu fazia mediação dessas conversas com escritores e o Marcelo era convidado. Confesso, sem constrangimento, que pouco conheço de sua carreira literária depois do “Feliz Ano Velho” . O tempo e os ventos me levaram para outras paragens escritas e só li com gosto depois de sua estreia o “Blecaute” e sem gosto e sem terminar o “Ua Brari”. Embora tenhamos muitos conhecidos em comum nunca nos tornamos próximos mas sempre gostei da posição que ele assumiu a favor de uma literatura de entretenimento que, aliás, inexiste no Brasil.
   Não sou, nunca fui e nunca serei crítico de literatura embora na juventude tenha cometido uma porção de resenhas. Muitas injustas , outras justas. Mas quero dizer a você, Marcelo Paiva, que também estou aqui. Sobrevivendo nesses tempos bicudos de palavras tortas e tolerância zero com ideias e ideais que não sejam os nossos. E sou pego assim de surpresa com um livro que me fez entrar confiante, feliz, esperançoso no ano novo. Ver esse livro e essa vossa vida sorrindo com um filho novo a se debruçar num manancial de otimismo me faz ver o quanto estou errado ao ter dificuldade de ficar livre de certas mágoas fecundas. Estou longe mas tão perto de você agora que adoraria fazer um brinde contigo em qualquer bistrôzinho honesto aqui de Paris ou em uma cantina decadente do Bexiga. Na estiva de ano novo estou a tentar recuperar o escritor que eu deveria ter sido com mais aplicação. 2015 para mim não foi um “Feliz Ano Velho”. Mas “Ainda estou aqui” a repartir contigo e tantas outros lembranças geracionais que nos são tão caras. National Kid sobrevoa nossas consciências e desfralda sua capta pictórica para nos ajudar a entender nossas tristes, doces, pesadas ou incuráveis lembranças. Feliz ano novo confrade escritor. Que outros singelos livros como esse venham. O “leitorado” agradece.
Ricardo Soares é escritor, diretor de TV, jornalista e roteirista. Autor de sete livros foi cronista dos jornais “O Estado de S.Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Diário do Grande Abc” e da revista Rolling Stone. Dirigiu as revistas Trip e HV.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A POESIA É UMA MÚMIA

      

      A poesia é uma múmia . E tem sua maldição. Pode ficar presa muito tempo mas quando rompe as ataduras ela sai atrás de quem a cutucou em seu sepulcro.  Arqueólogo de araque cutuquei e fui cutucado pela poesia durante toda a vida mesmo sabendo de sua maldição. Mesmo sabendo que ela machuca e não nos dá de comer fiquei com sua marca tatuada em mim . Esse sopro milenar que cheira a éter e cânfora, a oliva , absinto e vinho ,  a bactérias de tuberculose e nuvens de maconha está impregnado em mim . Espero que vocês se contagiem e não me amaldiçoem pois a poesia em Paris jogou de novo sua bendita  maldição em mim. Vou voltar a mostrá-la. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

PARIS LINHA 2016





PARIS LINHA 2016


Imagina a China
na esquina de Bombaim
vinde a mim os indianos
o entra e sai do Senegal
um peso da antiga Argélia

Não sei cultivar as plantas
suspensas nas varandas
dessa Paris desassistida

Assim , monsieur, é a vida
um ensaio de chegada 
em cada nova partida

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

PARIS PARA ESQUERDA, DIREITA E CENTRO CAVIAR




PARIS PARA ESQUERDA, DIREITA E CENTRO CAVIAR

 Paul Theroux, talvez o mais criativo, desenvolto, desencanado  e melhor escritor de viagens que já li tem um desprezo solene por turistas em geral.  Em suas viagens mundo afora não cai em armadilhas para turistas e mantém distância oceânica deles e suas generalizações, banalizações da cultura local e desejos consumistas imediatos. O turista para Theroux é antes de tudo um chato. 
Não vou aproveitar o mote de Theroux para dizer que se ele acha que turistas são chatos é porque nunca viu ou acompanhou hordas de turistas brasileiros exterior afora. Nem vou dedicar linhas ao tema para não dar impressão de presunção. Só digo que em Paris ou em qualquer lugar é sempre um alívio estar longe dos turistas de nosso país. Salvo as exceções de praxe, é lógico. Gente que não vem para mergulhar no delírio das compras das galerias Lafayette e tirar uns 2339 selfies em qualquer ponto turístico sem sequer saberem onde estão. O mundo virou uma pastelaria de imagens e os retratistas sequer tem noção do que estão retratando.
Paris é uma festa eterna, perene, imutável. Faça o que fizer qualquer mujahedin aqui as esperanças se renovam e até as melancolias se traduzem em arte. Sou suspeito para falar. Estou aqui não de férias mas me dando uma, duas , três tréguas . Uma por mês . Tentando me curar de emoções fortes sofridas em recentes tempos profissionais onde abracei causas e fui abraçado pelos ursos traiçoeiros da burocracia e da burrice. Jamais convivi com tanta gente talentosa e guerreira  que vivia em paralelo  sempre tentando  superar as cascas de banana jogada por cretinos do corporativismo e da mediocridade. Enfim um bruto paradoxo que agora parece um esmaecido fantasma do passado. Paris apaga tudo.
Antes que digam que o deslumbramento com a cidade é coisa de “esquerda caviar” eu vos digo : é coisa de esquerda, direita e centro . Caviar ou não. Porque Paris é tão caprichosa que tem muitos donos. São muitas Paris em uma só com o perdão do óbvio gritante.
Sempre acho curioso nas redes sociais algumas pessoas que escrevem sobre a capital da França como se proprietário dela fossem. Gente que por ter vivido , passado a juventude ou estudado por aqui considera-se mais “conhecedor”de Paris que os outros. Como se as dicas deles valessem mais, como se a apreciação de suas papilas gustativas fossem mais “gourmets” que a de outros. Geralmente são dicas caras, manjadas,apinhadas dos tais turistas chatos. Ou dicas com a presunção de serem “discoladas”, capice ?  Preguiça maior do que essa só sinto daqueles que vêm a Paris ver e viver em torno dos desfiles de alta costura. Para esses dá-lhe Paul Theroux na veia. Mas , besteira, na verdade parte dessa gente  vê o mundo com a retina de João Dória. Esqueçamos e deixemos eles serem felizes também. Paris também é para eles. Paris é para todos.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O FIM DO FRANGO COM POLENTA

   


   Republico aqui com outro título a crônica de segunda-feira no DOM TOTAL (LEIA AQUI)  também por um curioso motivo de "diferença cultural". A crônica lá publicada com o título de " A memória da polenta que azeda minha baguete" foi ilustrada com uma saborosa foto de um frango ensopado na polenta mole. Tudo o que o tradicional "frango com polenta" de São Bernardo do Campo não é. Esse , ao qual me refiro, na minha memória e na de milhares, é a fabulosa e calórica polenta frita que acompanha o frango também frito tal qual a foto acima. A diferença de percepção deve ser porque em Minas polenta é assim , mole. O que entre os paulistas se chama "angu". Nada sutis diferenças.

A MEMÓRIA DA POLENTA QUE AZEDA MINHA BAGUETE


Por Ricardo Soares*



   Dizer que o Brasil é um país sem memória é de um óbvio que urra, saltita, balança a pança. É de um “óbvio ululante” como dizia o gênio pernambucano – carioca Nelson Rodrigues. Isso posto, ainda acrescento que falava do assunto aqui em Paris com amigos brasileiros quando trombo com a noticia que dá conta de mais um golpe na memória. Fechou o restaurante São Judas Tadeu no Bairro Demarchi, São Bernardo do Campo, estrela da tal rota do frango com polenta, batizado por meu amigo Sérgio Pinto de Almeida  como o “Maracanã da polenta” visto as proporções estratosféricas de suas instalações que abrigava mais gente que a torcida do simpático Juventus da Moóca.
   Reza a lenda que o restaurante nasceu para atender a uma alcateia de caçadores famintos que flanavam naquele pedaço bucólico de São Bernardo em 1949 . Os frangos que eram então servidos aos lobos famélicos eram criados no quintal e temperados com ervas múltiplas e servidos sobre uma polenta mole. O local tornou-se lendário e serviu de cenário para muitos almoços familiares de milhares em mais de seis décadas. Mais lendário ainda se tornou quando serviu de cenário a muitas reuniões dos que frequentavam o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo nos finais dos anos 70 tendo a frente o futuro Lula presidente. O São Judas foi assim vital para as bases de fundação do PT. O resto é história com suas glórias, invenções e decepções.
  Na minha memória afetiva, o fim do “São Judas” dinamita grandes e singelas lembranças de infância. Era o lugar que meu pai nos levava (eu, as manas e minha mãe) quando sobrava algum no orçamento. Lugar que levei os meus filhos, lugar onde toda a decoração ao mesmo tempo despojada e brega poderia ser uma locação de um filme da Cinecittá romana.
   Não vou esquecer jamais o frango crocante chegando no prato sempre acompanhado de toneladas de polenta frita e calórica que só de lembrar faz minha diabetes galopar em açúcares abertos. Não vou esquecer o inesquecível barulhinho que se ouvia quando essa polenta era mordida e, ainda quente, queimava nosso paladar. Não vou esquecer das sobremesas, do corre-corre da criançada, de tanta foto que ali foi tirada por famílias hoje findas. Toda vez que eu queria ter ainda hoje uma referência visual da minha infância eu voltava ao “São Judas”.
   Em um país como a França, um patrimônio cultural e gastronômico como esse seria tombado. No Brasil provavelmente vai virar um enorme empreendimento imobiliário de mau gosto, pois tem 16 mil metros quadrados ( dá dois campos do Morumbi) e pode oferecer um cardápio de construções de apartamentos daqueles que tem “varanda gourmet” pra queimar carne diante de um cenário horroroso no qual se transformou o antes bucólico Bairro Demarchi em São Bernardo.
   Ainda resta o consolo de que ainda resistam o “Florestal” ( como lembra a amiga Daniela Nanni) ou o “São Francisco”. Mas vai saber por quanto tempo. O tempo de desconstrução segue firme , aqui e agora, em todo o Brasil e sobremaneira , sempre, em São Paulo. Essa desmemória do fim da polenta da minha infância azedou a minha baguete de hoje na capital francesa.
*Ricardo Soares é escritor, diretor de TV, roteirista e jornalista. Autor de sete livros, morou em São Bernardo do Campo de fevereiro de 1968 a dezembro de 1978.


domingo, 10 de janeiro de 2016

um dia acreditei que ser repórter bastaria

   

   “Um dia acreditei que ser repórter bastaria. Que o mundo da notícia tudo me daria do que eu quisesse ser. Que nada. Minha porção repórter que desde então se resguardara que era a porção melhor que trazia comigo até agora e que já me fez crer jaz inerte. Quem dera pudesse todo repórter ainda entender, oh mãe , quem dera ser a notícia limpa o apogeu da primavera e só por ela ser. Quem sabe a notícia real venha nos restituir a glória , mudando como um deus o curso da história por causa da verdade, só da verdade...


( à guisa de uma tosca paródia de “ Superhomem , a canção de Gilberto Gil) “

Ontem meu primeiro "colis" em Paris

            

    Completo hoje meus dez primeiros dias na Paris de 2016, em estado de emergência. Seria de uma pretensão estelar fazer qualquer consideração acerca do humor geral da cidade após os atentados de 13 de novembro mas no geral ela parece seguir normalmente os seus dias visivelmente esvaziada de turistas. Eles cá estão sim mas mesmo se considerando que é inverno ( não rigoroso) estão em menor número do que invernos passados.
     Tirando algumas revistas que agora eles fazem aleatoriamente em transeuntes em ambientes fechados ou abertos e uma presença grande das forças de seguranças nas ruas ( grande mas não ostensiva) a normalidade parece ir adiante e até com os tais "colis" os parisienses estão acostumados. Ontem peguei o meu primeiro indo pra casa . Havia um "colis" ( designação genérica de pacote suspeito)  entre as estações de Chatelet e Montparnasse e interromperam a circulação de metrô na linha 4. Tive que pegar um RTP ( trem veloz urbano) e fazer baldeações para chegar a estação Max Dormoy na linha 12.
         Também essa semana um suspeito de terrorismo foi alvejado e morto não muito longe de onde estou pois teria colado ao corpo um colete com explosivos falsos. Teria resistido à prisão e o mataram. Se escrevo isso com relativa displicência são por dois motivos : 1. fiquei sabendo do ocorrido só no dia seguinte  2. o violento episódio não causa espécie em quem vem da São Paulo onde a polícia de Alckmin mata inocentes todos os dias e bate em estudantes de 16 anos com gosto. O mundo é um lugar muito violento sim mas a capital dos paulistas se converteu em uma aberração mesmos nos tempos ressabiados de Paris.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

DESCENDÊNCIA

pintura de Adrian Borda

DESCENDÊNCIA



Se o céu que nos protege

De ilusão não se sustenta

É que grito de marujo no meio da tormenta

Anuncia terra a vista e uma onda violenta

Porque a vida vem do gozo

Mas descende da placenta



Ricardo Soares ( 21-07-1991)


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ATACAMA, MENSTRUAÇÕES E O CONTEXTO PARIS


        O contexto, o entorno é o seguinte :quinto andar de um prédio parisiense. Janela um pouco aberta, céu cinzento, fumaça de calefação subindo pelas chaminés e um cheiro de frango assado que sobe de uma "televisão de cachorro" logo abaixo.
    Lá em cima um escritor redimido com suas palavras presentes e passadas dá tratos a um texto escrito há exatos 30 anos na ilha de Itaparica, na flor dos seus 26 anos. Não sabe ainda se o calhamaço vira um livro ou um tijolo no lixo. Mas lá está o escritor e seu personagem fixado no ano da graça de 1985 quando o Brasil vivia a frustração da recusa das diretas-já e o começo do nefasto governo Sarney pós morto de Tancredo.
    O protagonista é um repórter ansioso, inquieto, entediado com as pautas chochas que lhe oferecem no dia a dia. Dribla o desinteresse com uma das muitas cartas a Klaus, o amigo distante. Bom , esse é o contexto . Essa é parte da história que segue adiante mas ainda não sei se aperto o "pára" ou o "continua". Palpites nesse balcão de opiniões virtuais...

(letter from Klaus, take 2)

        Porra Klaus. E os Estados Unidos continuam perseguindo a Nicarágua. E eu aqui cortando os meus toquinhos de unha não entendo nada. E vejo diante de mim uma tardezinha calorenta que me dá a impressão que a vida começou ontem. Que lá fora não tem ninguém. Talvez um pé de mixiricas ou meia dúzia de bentevis.
        Sou feliz. Como uma galinha em decúbito dorsal. E não entendo nada. Queria estar viajando como Joana me contou. Por uma estrada do Chile, perto de Antofagasta, onde a poeira do deserto do Atacama suja meus olhos. Mas eu não viajei Klaus.Estou aqui plantado, criando umas torpes raízes. Escutando todas aquelas canções que ouvíamos anos atrás e que não nos diziam nada. Uma porção de amores desfeitos, mulheres lindas e distantes. Perfeitas e sem o bafo da manhã. Sem menstruações.Porque você sabe Klaus, tenho que ser honesto com você, detesto menstruações. Aquela coisarada descendo toda, aquela lavação toda embaixo dos chuveiros, aqueles dores de cabeça, aquela sensação que toda mulher tem de ser mortal e poder gerar, ter e perder filhos.
        Juro Klaus que por aqui eu tenho comido legal. Dou duas ou três “bolas” por dia. Maconha orgânica, da boa. Faço a cabeça e penso que o mundo não começou a existir. E nem dou importância a uma porção de livros que guardo naquelas prateleiras improvisadas de tijolos com ripas. Não leio porque não aprendo. Inclusive queria dar algumas “cachuletas” em alguns desses escritores que tem a mania de ter a  solução para tudo. Como se a vida fosse resolvida com um grande frasco de remédio ou num livro e você lesse a bula e saísse rindo e peidando no vale de lágrimas.
        Tenho certeza. A vida aqui começou ontem. Tem um cachorrinho preto lambendo os meus pés e não entendendo nada. Pergunta, caído de quatro no mundo : “O que é essa coisa barbuda e peluda que tem uma coisa salgada que eu estou lambendo ?”. O cachorrinho não está entendendo nada. E eu sempre peço bis para essa vida Klaus. Meus olhos não estão borrados. Não estou cuspindo fogo nem matando um elefante por dia para mostrar que sou gente, sou legal, sou sabido.
        Do meu lado direito tem um rombaço na parede e eu vejo um mamoeiro. Nasceu agora. Oculto e feliz. Sem comparações com ninguém. Porque você sabe Klaus, esse escritor que está nos fazendo mais dia, menos dia vai ser comparado com alguém. Ou assim imagina. É uma loucura. O imbecil está sem sono no meio da noite e nos inventa não puros e tranquilos transando um mundo que nasceu ontem. Coloca a gente cheio de surpresas,esperanças, expectativas. Mas amanhã ou depois um punhado de outros imbecis vai dizer que ele nos inventou com influência de um outro imbecil que fica escrevendo de noite, sem sono. Tudo um eterno moto-contínuo de imbecis.
        Mas nada disso importa Klaus. Importa o nosso sossego. A feliz sina de termos descoberto que o mundo ainda está nascendo. Que não existem correntes políticas. Que não existem repercussões de escândalos . Que não existem reportagens enormes sobre miséria ou fome. Que não existe o jornalismo. Nem prefeitos, vereadores, governadores ou deputados. Está tudo por fazer. Lá fora, debaixo desse calor, tem um mundo para pintar.       

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Há 30 anos o jornalismo já acabava?

   

 "Me preocupo pelo futuro da minha profissão". É a frase final da sequência de parágrafos abaixo de um romance remoto que cometi há exatos 30 anos e que jamais publiquei. A temporada invernal em Paris está me dando chances de rever o escritor que fui aos 26 anos e não tenho condições de auferir ou não valor àquilo que escrevi. O que julgo curioso compartilhar com vocês é que essas linhas escritas há 30 anos se não foram proféticas ao menos antecipavam o fim do jornalismo tal qual o conhecíamos. Há 30 anos ele já definhava na visão de um jovem jornalista que é o protagonista da história e que ,evidente, tem muito de mim. No trecho abaixo ele escreve uma carta ao seu irmão mais jovem que havia ficado no Paraná e vejam só ! essa carta, de certa forma , poderia ter sido escrita hoje.
   "Sou muito novo meu velho e acredito que aí está uma desvantagem. Comecei cedo nessa porra de profissão e perdi também muito cedo todas as ilusões. Agora resta viver encostado de uma maneira menos hipócrita ao lado de pessoas o mais decentes possíveis e simplesmente levar a vida. Essa é hoje a grande meta de um jornalista como eu nessa grande cidade.
   Você viu por que eu te digo sempre que a profissão não tem encanto ? por isso também acho muito engraçado quando surjo em casa a cada fim de ano e os pais mais os vizinhos ficam todos orgulhosos de mim, falando de boca cheia que “esse menino trabalha num grande jornal lá de São Paulo”. Se todos soubessem como no fundo é um mundo tão mesquinho e sem graça como o de muitos grandes escritórios... o romantismo nessa profissão já acabou faz muito tempo embora alguns idiotas ainda levem a profissão tão a sério que acreditam existir furos de reportagem em plena era da TV ao vivo.
   A televisão acabou com o furo de reportagem. E, a bem da verdade, os novos jornalistas desaprenderam tanto que hoje se limitam a ser porta vozes de autoridades e cumpridores das ordens dos chefes. Os “filhos da pauta” , como ironizam os mais velhos com toda razão. Mas isso é culpa dos próprios chefes e patrões que com a contenção de custos deixaram de incentivar o jornalismo investigativo, as grandes reportagens. Me preocupo pelo futuro de minha profissão".

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