DARCY RIBEIRO E O ZAPPING AURICULAR




Nossa sociedade informatizada,veloz, atomizada, fragmentada nos submete a uma avalanche diária de informações, imagens e sons, a maioria deles dispensáveis. Informações que reforçam diariamente o equívoco em que nos encontramos. Festejam a globalização, o consumismo, o ter e não o ser. Fortalecem os dogmas dessa idiotia coletiva que nos leva para um buraco inevitável, o colapso total da civilidade, da ética, do respeito mútuo, dos recursos naturais.Por mais que tentemos ser otimistas, todos os dias, em todas as instâncias, só vemos os seres humanos conspirando contra si mesmos adotando posturas equivocadas que nos levarão ao fim. Fatalismo ? não senhoras e senhores. A saber... hoje, horas atrás, ouvindo aqui em casa fragmentos radiofônicos de uma rádio estúpida,porém com muita audiência, ouvi uma velha entrevista do escritor/pensador/político/antropólogo Darcy Ribeiro que há muitos anos defendia (com a veemência que lhe era peculiar) que devessemos olhar para as fronteiras e os caboclos amazônicos que estavam sendo dizimados pela ganância da elite da região que avançava no desmatamento, garimpos, predação total. Esses caboclos acabavam por fugir para as periferias das grandes cidades da região (como Belém do Pará)  onde eram esvaziados de todos os seus valores folclóricos e culturais (como a sua fantástica culinária) e incorporados à degradante e dispersiva cultura de massas que pulula nas periferias do planeta. Estou aqui apenas a relatar o subtexto e não a fala literal de Darcy. E se assim o faço não é apenas para lamentar, mais uma vez, a ausência de pensadores e políticos corajosos como ele. É para deplorar que nenhum dos alertas feitos por Darcy ou por outros poucos foi ouvido por autoridades de qualquer jurisdição, a maioria delas mais preocupada em salvar os próprios bolsos e herdeiros do que pensar no futuro da humanidade. A Amazônia continua a ser degradada, as fronteiras agrícolas ,suas queimadas e agrotóxicos continuam aumentando, os garimpos e mineração predatória aumentam, as áreas verdes são degradadas , os indigenas incorporados à hedionda sociedade shopping center. Darcy está morto, a junção de 90 por cento dos políticos nativos não vale um dedo de sua mão e o país ( com Serra ou com Dilma, tanto faz) caminha célere na trilha idiota do desenvolvimento predatório que é criação de estradas, asfaltos mil, usinas hidrelétricas, grandes obras, incentivo ao consumo, à compra de automóveis. Educação, civilidade e sustentabilidade são os alimentos orgânicos da política. Todo mundo diz que é bom mas poucos, muito poucos adotam. E a ausência de Darcys só faz aumentar o crescimento de Ciros Gomes e outros estercos políticos do mesmo calibre. O vácuo da inteligência abre espaço pra mediocridade falante. Dá pra ser otimista assim ? 

Comentários

ANA LÚCIA disse…
Otimistas, como?... Mais um texto brilhante!
Saudades...

Ana
E. Campos disse…
Nenhum comentário. É o que vejo aqui, para tão bom uso que você fez do teu espaço, hoje, invocando o bom e lúcido Darcy.
Será o feriado, ou outros tantos, como eu, estão quietos do outro lado, apenas aplaudindo tuas palavras ?
Para cada Darcy Ribeiro, 20 shopping centers, para cada Burle-Marx, 30 hidrelétricas...
É difícil pensar no que fazer. Ou mesmo em não fazer, que eu acho muito mais útil. NÃO FAZER muita coisa, nunca, porque estamos sempre agredindo. Deixar de fazer, cada vez mais. E só. Porque FAZER nos torna apenas Sísifos compulsivos, e a pedra, morro acima ou morro abaixo, está sempre destruindo.
O tal IDH é o vilão, que impõe a populações distantes, saudáveis e modestas um modo de vida branco e perverso, e, claro, consumista. A Rede Globo divulga o IDH com grande entusiasmo e mesmo jornalistas esclarecidos o levam em boa conta sem questionar o horror que há por trás.
O apóstolo possível, hoje, artista, é o fotógrafo e quase-ambientalista Peter Beard, e ele é bastante enfático em um de seus últimos livros, após ter passado os últimos 50 anos no Quênia e ter presenciado a depredação absoluta de um dos grandes santuários da vida animal: só nos resta assistir e dar as boas vindas ao fim do mundo.
Cristo não foi suficiente, nada será.
"NATURE HAS HUNDREDS OF MILLIONS OF YEARS OF MESSAGES FOR US. AND WE WANT TO DENY IT." (P. Beard)
Gideon Rosa disse…
Ricardo,
estou aguardando seu contato. Sou meio analfabyte, tem que ter um lugar fácil no blog pra falar diretamente com você.
gideon@ufba.br
Jaime Guimarães disse…
Informação, informação e mais informação. Como cantava Roger Waters, "who needs information"? O que fazer com ela, afinal?

Eu ouço e leio notícias estarrecedoras de grandes áreas queimadas na Amazônia, no cerrado, sei lá quantos focos de incêndio POR DIA acontecendo nos ecossistemas brasileiros e...e o que acontece? Apenas vira carvão, porque não vejo uma vontade política para ao menos DEBATER essa questão - nem na candidata verde observo o fervor que a situação mereceria, e até entendo porque o risco de ser chamada de "ecochata" em período eleitoral não é dos mais interessantes. Por isso que eu acho que a Marina continuaria muito mais útil no senado.

Enfim, não dá pra ser otimista. Eu venho dizendo há algum tempo: está ruim agora, vai piorar a curto/médio prazo. Os professores é quem podem falar sobre isso melhor...

abs

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