TODO PROSA

Minha foto

Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O último pôr de sol de Jericoacoara

    Imagem relacionada
    A triste e cretina tecnocracia vigente no país desde sempre, que anda de braços dados com o tal "desenvolvimentismo", não ergue, mas sempre destrói coisas belas com uma voracidade impressionante. Isso faz com que se reduzam os paraísos tropicais brasileiros, porque com a desculpa de que eles devem ser acessado por muitos, na verdade leia-se "destruído" por muitos.
Um dos exemplos mais notáveis disso é o ex-paraíso de Jericoacoara, Ceará, quase inacessível há trinta anos e que agora vai ter aeroporto aberto para despejar hordas de turistas predatórios em vôos charters. Estou generalizando? então esperem para ver. O que tem sido lamentado por muitos é festejado, obviamente, pelo senhor André Facó, secretário da Infraestrutura do Ceará. Não passa pela cabeça dessa gente preservar um paraíso como aquele de maneira sustentável. O "negócio" é encher, transbordar, faturar.
Conheci Jeri há sei lá quantos anos. Logo após uma das visitas cometi uma crônica para o jornal O Estado de S. Paulo,  há vinte anos, onde louvava, entre outras coisas, o famoso pôr de sol de Jericoacoara. Evidente que ele vai seguir, mas certamente contemplado por um tipo de turista mais interessado em barulho e balbúrdia do que contemplação. Por que nossa noção de progresso é tão atrasada? Como nada podemos fazer me resta então um saudosismo barato reproduzindo abaixo um trecho daquela antiga crônica:
"Estou no alto da duna mais alta daqui. Enxergo, de longe, na linha do horizonte, o que penso que já esqueci. É certo que vivo a  buscar, correndo contra o tempo. Pode crer que são piegas as grandes coisas da vida. Este pôr de sol aqui é inenarrável. E no imenso mar, que um dia foi português, os raios vermelhos do sol refletidos na água se constituem em uma visão tão bela que juro que jamais serei o mesmo. São piegas as boas coisas da vida.
Estou no alto da duna mais alta daqui e descarto os dias inúteis, rodo as horas para trás e tento ajeitar o meu caminho para encostar no de quem interessa. Subo na duna com um sentimento de paz e arrependimento. Amo a todos que estão lá embaixo embutido que estou de uma paz imensa. Amo os meninos que correm atrás de uma bola furada, amo o burrico que transporta cocos verdes, amo os namorados que passeiam de buggy e as estrelas que despontam. Amo o estresse que deixei para trás, as pechinchas de amor, o peixe grelhado que comi, o cobertor curto que não esconde os pés nas noites de frio.
Estou no alto da duna mais alta daqui e me lembro que em muitas situações da vida acabei saindo, a contragosto, pela porta de trás.  Deixei casas vazias de sentimentos, enchi ambientes tristes com falsas alegrias, funguei, reclamei, expus minhas dores de dentes a um coro de descontentes. Li muito buscando saída em outras biografias para a minha própria vida difusa. Fui muitas vezes um chá que ferveu com várias ervas. Bebi de muitas infusões e dei de beber aos outros destas mesmas poções. Daí, me desculpe a rima barata, vieram as confusões.
A duna é a mais alta daqui e eu não subestimo mais nenhuma fração. Fração de segundo, minuto. Agora é hora. De esfarrapar, costurar, cerzir. É hora de saber para onde ir porque, olhando do alto da duna, descubro que acabamos não indo a lugar nenhum. Às vezes, por medo do bolo, a gente deixa a fatia mais doce sobre a mesa. Aí vem o gato e come. Às vezes a gente adormece e alguém mais desperto leva o doce no bucho.
Do alto da duna vejo os barcos voltando, as velas se recolhendo e eu fico tecendo um lençol imenso onde está estampada minha auto- estima. Nunca auto - piedade. Os barcos voltam, sargaços estão nas redes misturados aos peixes miúdos quando crianças descobrem uma arraia graúda. Surpresa. A vida é piegas porque ao contrário de Deus, como disse o poeta uruguaio El Sabalero, os homens, na sua existência, tem muitos primeiros dias.
Do alto desta duna tenho mais um primeiro dia. Uma nova descoberta. Descubro que não adianta a gente querer para dar certo. A vida é feita de desvios, muitos grãos de areia que entram nos olhos. E quando coçamos forte demais choramos. E quando choramos nos envergonhamos de nossas fraquezas.
Nesta minha pobreza de homem comum encosto as costas na areia quente e olho para o céu. Não vejo o Cristo Redentor nem anjos que tocam trombetas. Esse céu, cearense e globalizado, só dá espaço a um Boeing de destino incerto. Minha vista se nubla pois não sei para onde ele vai mas suponho ter ele destino certo ao contrário de nossos caminhos. Nunca um Boeing foi tão lindo com o sol em cima.
Minha embarcação perdeu o lastro para ir muito longe. Preciso ancorar um tempo justo em algum porto e me reabastecer. Aqui eu não bebo, não fumo, respiro fundo e me despoluo. Do alto desta duna - a mais alta daqui - quero aprender a pensar devagar, quero reaprender tabuadas que esqueci, quero enxergar Peri correndo atrás de Ceci e sentir que vivo numa terra com palmeiras onde canta o sabiá. Este pôr de sol em Jericoacoara é minha modesta canção do exílio. Um consolo para quem sabe que vai voltar a enxergar o sol se pondo, torto e sem jeito, por trás de todos aqueles prédios da avenida Paulista".
Publicado originalmente no DOM TOTAL. (Clique aqui)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O joio e o trigo da literatura brasileira

    Imagem relacionada
    Durante oito anos e oito temporadas escrevi, dirigi e apresentei os programas “Literatura” e “Mundo da Literatura” originalmente produzidos para a então rede Sesc/Senac de Televisão e veiculados por outras emissoras educativas em canais abertos e fechados Brasil afora. O programa me deu a rara chance de mapear a produção literária nacional conversando com quase todos os autores nacionais consagrados, os então emergentes e os injustiçados.
   Procurei pautar a busca pelos autores pelo critério vago e subjetivo do que considerava boa literatura e não pelo mercado. Isso não quer dizer que não levei ao programa autores do mercado mas não deixei que critérios puramente comerciais pautassem a linha do programa que contava, aliás, com uma equipe eficiente a quem sou grato até hoje.
   E por que faço um balanço tardio de um programa que teve sua derradeira temporada em 2005? Justamente por constatar o quão dinâmico é o tal mercado e quanto ele nos joga goela abaixo tanta “novidade” literária que não é novidade alguma. Se me ressinto da ausência dos programas que fazia a essa altura não é por vaidade e sim porque fiquei distante justamente desse movimento editorial que lança joio e lança trigo com uma velocidade insana que mal dá tempo para a assimilação , digamos, dos “novos valores”. Assim sendo nada sei sobre autores – como Julian Fuks e Noemi Jaffe – que surgiram após o fim do programa. Por isso toda vez que não quero dar bola fora a respeito peço consultoria a gente mais antenada com as novas freqüências como a prezada Mirna Queiroz da revista Pessoa.
    Diante desse panorama visto da ponte muita coisa pode então ter me passado desapercebida e posso ter cometido erros em meu juízo de valor sobre a recente produção literária nacional. Mas algumas de minhas impressões – hoje de um observador mais desatento se comparado com o profissional que fazia os programas de literatura - são corroboradas por outros autores mais atentos do que eu ao atual panorama. Dia desses, por exemplo, encontrei com o escritor Ronaldo Cagiano em uma livraria em São Paulo e ele concorda comigo que continua a vigorar a lei do mercado nas relações entre autor-editora-mídia e que muito joio é vendido como trigo num universo onde a pretensão dá o tom. Ou seja, não estou sozinho em minhas “incautas” e atuais percepções. Outros autores como Ademir Assunção, Márcia Denser, Roniwalter Jatobá, Nelson de Oliveira e André Sant’Anna pensam parecido embora eu não tenha procuração para falar em nome deles.

    Volto a esse tema especialmente por suas questões que me causam grande perplexidade: quem lê tanta “novidade” em país de baixas tiragens? O que de fato tem relevância já que na minha modestíssima opinião muito do que de melhor foi e é produzido anda não só fora do catálogo como não tem a devida divulgação. Cito nomes a esmo que vão dos esquecidos e talentosos Ricardo Guilherme Dicke, Campos de Carvalho a Samuel Rawet passando por Vicente Cecim , os próprios já citados Roniwalter, Ademir Assunção e Márcia Denser a Oswaldo França Jr. , Roberto Drummond , Julio César Monteiro Martins, Joaquim Nogueira, Marco Antonio Lacerda e muitos mais. Repito que lancei nomes a esmo e me desculpo por omissões porque a lista, infelizmente, é grande e como lembrou Cagiano em nosso encontro boa parte dos autores aqui citados sequer foi lida ou assimilada pelos que agora são vendidos como “novidades”.

   Criticar as “novidades” não é um gesto rancoroso, pois são elas, afinal, que dão alento ao mercado que precisa ter o que vender. O que me incomoda é que a “novidade pela novidade” seja um critério de excelência quando na verdade é apenas um critério de precedência. Sobretudo porque na maioria das vezes vende-se o tal joio como fino trigo. O pior é não sobrar espaço algum para a reflexão, a leitura atenta e digestão de tantas publicações para tão poucos leitores.O resultado disso tudo no entanto parece não incomodar grande parte desses “novos” autores que (ao contrário de veteranos escaldados) ostentam seus galardões de “escritores” sem o menor constrangimento e sem ler, sem sequer reconhecer que não inventaram a roda agora e que não deveriam vender como novidade o que é apenas reciclagem. A literatura brasileira contemporânea, por sorte, não começou com eles como querem fazer supor.
    Espero que em algum momento exista pois a tal reflexão sobre que tipo de ficção o Brasil está produzindo porque a essa altura- gostaria de estar equivocado – parece que o que anda sendo publicado é bem pior do que o período entre 1998 a 2005 quando eu fazia programas de literatura para a televisão.
(publicado originalmente no DOM TOTAL. (clique aqui)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

HOMO VIDENS CABOCLO

    
    Vou começar hoje com uma provocação que é, de certa forma, uma homenagem ao saudoso Antonio Abujamra e seu finado "Provocações" lá na tv Cultura. O tema, para também homenagear Abujamra, é a televisão nossa de cada dia, cada dia mais decadente, abjeta, dispensável.
    O tema é televisão e um dos seus ícones brasileiros, Jô Soares, sempre disse crer que ela não fosse capaz de incentivar a violência  ou mesmo gera-la. Essa foi uma das muitas estultices que verbalizou nos muitos anos em que esteve à frente de seu inócuo talk-show que muitos lamentaram ter acabado e que, convenhamos, não deixará saudades por motivos muitos. Essa é a boba provocação dessa crônica, mas não o tema dela e sim o conceito do Homo Videns lançado já há algum tempo pelo pensador italiano Giovanni Sartori que teoriza acerca da nova espécie humana que teria derivado do Homo Sapiens.
   O tema me veio à mente após ler um artigo que Carlos Juliano Barros – jornalista, documentarista e mestre em Geografia Humana – escreveu para a revista do SescTv onde o próprio Sartori é citado num contexto que avalia o impacto da tecnologia sobre as nossas vidas. Nisso incluso, obviamente, a televisão e o audiovisual como um todo.
   É estarrecedor como a humanidade se estupidifica todos os diante dos seus computadores e smarthphones não despregando o olho da telinha fartando-se, sobretudo, do cardápio nefasto do audiovisual que paradoxalmente poderia prestar um baita serviço a educação no mundo, mas não o faz por conta dos interesses bilionários da tal "indústria cultural".Nessa linha o audiovisual, infelizmente, que poderia ser usado como difusor das políticas de promoção dos direitos humanos e de igualdade veio, na mão contrária, abrigar toda uma lamentável fauna de retrógrados e ignorantes que confundem, por exemplo,  programas como o proposto (e enterrado)  "Escola sem Homofobia" com "apologia à homossexualidade". Carlos Juliano aborda isso em seu texto e vai adiante ao lembrar que de 2011 para cá, "uma verdadeira primavera de movimentos" se consolidou na luta por direitos humanos, ao mesmo tempo que se fortaleciam e destilavam ódio e preconceito a partir de grupos políticos e pessoas de, digamos, propensões nazi-fascistas. Resumindo: os monstros saíram do armário como pode se ver fartamente nos "audiovisuais" da internet afora.
  Tudo isso me faz crer que Jô Soares sempre esteve e estará errado quando defendeu que a televisão não é capaz de incitar a violência. Mas sendo ele próprio resultado da cultura dessa certa superficialidade talvez não seja o mais adequado "intelectual" a debater a sério o assunto. Fato é que o Homo Videns, especialmente no Brasil, digere mal inclusive muitos bons recados que o "audiovisual" passa adiante. De meu lado fui e sou um profissional do ramo há muito tempo e torço para que eu mesmo e muitos dos meus colegas – como o Carlos Juliano Barros – ainda possamos ser competentes na feitura de imagens, sons e palavras que ajudem a tornar nossos Homo Videns caboclos menos preconceituosos do que são nos dias de hoje.

Publicado originalmente no DOM TOTAL. Clique aqui.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O que 1971 pode ensinar a 2017

   
Resultado de imagem para bambuzal
    Meados de 1971. O Brasil tinha sido campeão mundial de futebol um ano antes e eu adorava Pelé  e Jairzinho e uma bicicleta que tinha ganho no Natal anterior e era azul e branca, da marca Monark. Na verdade era uma Monareta , um modelo da Monark para meninos. Eu desbravava com ela toda a vila Paulicéia em São Bernardo do Campo, ABC paulista .Subia e descia morros, entrava e saia de campinhos de futebol, a arrastava pelos bambuzais e trilhas que davam no Jardim Canhema que no futuro viria a ser um bairro violentíssimo de Diadema onde morreu um menino chamado Fernando Ramos da Silva que ficou famoso no cinema fazendo o papel de Pixote.
   Naquela época o Pixote não tinha nascido e a gente entrava nos bambuzais para pegar bambu para fazer papagaios e pipas. Hoje tudo aquilo virou uma devastação completa tomada por industrias de carros e caminhões que sepultaram bambuzais, rios, riachos, campinhos de futebol .Lembro que hoje existe uma horrível avenida onde eram um daqueles bambuzais . E quando ali volto, muito de vez em quando, não vejo mais moleques nas ruas e fico tentando me achar no meio daquele cimento todo.
  Mas como eu ia dizendo parece que tinha muito mais mato do que de fato devia existir naqueles tempos. É que como hoje não tem mato nenhum para mim qualquer mato naquela  parece uma floresta de sapos e rãs que viviam a pular em dias que pareciam ser muito mais claros e ensolarados. Eu tinha poucos medos e o futuro pra mim era apenas uma caixinha cheia de miudezas.
  Diante dessas miudezas, cacos de uma infância já remota, eu não sabia as agruras que o país passava. Ditadura, esse nome maldito que hoje é pronunciado com ênfase por muitos que desconhecem o que se passou em 71 e outros anos onde os militares mandavam, prendiam e arrebentavam. Triste quem vai às ruas hoje pedir pela volta de um regime de força. Mas eles não sabem o que fazem na medida em que não estudaram , não leram , não viveram aqueles tempos. Mais triste é ver os contemporâneos nessa  mesma farsa. Gente que sabe o que aconteceu e , mesmo assim, exalta a força, a autoridade, o machismo e o cabresto.
    Não são poucas as teorias que se espalham pelo planeta no início de 2017 dando conta dessa espantosa escalada autoritária e conservadora. Não tenho a menor pretensão de entender os motivos . Prefiro crer, como os espíritas, que é karma. Karma coletivo. Por outro lado se faço a despretensiosa evocação de lembranças de 1971 é na esperança de que um estilhaço desse ano nos ensine no aqui e agora, em 2017. Para que a gente não repita os mesmos erros e evoque o que não deu certo .Não tem a menor graça voltar aos valores arcaicos do passado, sepultar conquistas e esquecer as utopias. Quem vive assim é robô. E nós não viemos ao mundo para isso.
Publicado originalmente no DOM TOTAL... Clique aqui

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sobreviver ao naufrágio

    

  (...)Mas à noite ainda sonhamos e ali,dentro da tênue plataforma dos sonhos,submersos ou não em nós mesmos, quase nadamos nessa placenta etérea  (formada muito mais de luz que de matéria) e quase imaginamos que todos nós,um dia,vamos sobreviver ao naufrágio.(...)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2 de janeiro- desmazelo diante da Terra

   
foto de Guilherme Longo

Essa, abaixo, é uma das versões das  365 pequenas histórias do Diário do Anonimato do Mundo, que durante algum tempo encontrou abrigo na revista Pessoa de Mirna Queiroz... essa historieta  de 2 de janeiro poderia se passar em qualquer cidade do mundo... pois que seja São Paulo.


2 de janeiro


         O barulho da furadeira perfurando parede atravessa a paciência alheia. Alguém começou o ano fazendo reformas.  Ao furar a parede do apartamento que fica no 13 º andar  o homem esquece  de renovar sua agenda e de jogar fora dos bolsos das calças tíquetes velhos de estacionamentos e ingressos das sessões de cinema já vistas.  Na unha do dedo indicador da mão direita percebe uma mancha esquisita. Mais um fungo provocado pelo desmazelo diante da Terra.

sábado, 31 de dezembro de 2016

31 de dezembro : mas não faz mal, foi só o tempo que passou

       

    O texto que vocês lerão mais abaixo é uma tosca tentativa de um menino de 20 anos - que um dia fui - em estabelecer uma conexão de esperança e otimismo em dias vindouros através de uma personagem chamada Maria Auxiliadora. Foi escrito em 3 de outubro de 1979 e ainda hoje não sei se é poesia ou crônica. Também não sei se é bom ou não levando em conta a idade que eu tinha. Isso na verdade não importa.  O que importa aqui é o desejo de Maria Auxiliadora em dormir com o "ano que vem " na cabeça.Que essa sensação de ano que vem permaneça conosco todos os dias de 2017 porque se não acreditarmos em melhores)anos vindouros a coisa fica dificílima não é verdade ?? 

(a imagem acima tenta definir o que o texto pretende e a imagem abaixo é de um remoto livro de poesia&prosa que cometi em 1982 , "A Invenção da Surpresa" , onde este texto está publicado depois de ter ganho um concurso nacional de minicontos em Guaxupé,interpretado pelo sumido e talentoso então amigo Aderval Borges.  A capa do livro é do meu ex-cunhado e eterno compadre Mário Sérgio Longo.)


31 de dezembro : mas não faz mal , foi só o tempo que passou


    Você continua chamando Maria Auxiliadora e pegando o mesmo ônibus naquele mesmo ponto. Eu continuo com aquela dor de cabeça do lado esquerdo, sustentando o meu mundo que pense mais para a direita. 
     Você continua parando na "Flor da Beira Alta" e comendo quindim com Coca- cola. Eu continuo fazendo uma canção singela , sem aquelas grandes pretensões. E você sabe.
     Você continua saindo às seis da tarde do serviço e antes de ir pro supletivo passa em casa , escova os dentes e come uma maçã adocicada. Você continua saindo às 11 e meia do supletivo e olhando para as vitrines com a ambição de comprar o vestido azul que nunca o teu salário vai te dar. Você continua tendo uns olhos bonitos e aquela ruguinha bem na testa. Você continua tendo os olhos que eu não tenho.
     No dia 31 de dezembro Maria Auxiliadora eu passei em frente a uma loja e vi um abajur muito bonito , cheio de luzinhas coloridas. E me lembrei da gente no quarto, com aquelas luzes. Era bem no fim do ano. Aí eu entrei numa pastelaria, um freguês cumprimentava o chinês, eu pedi um caldo de cana e um pastel de carne e aí lembrei que andava sozinho. Estava sozinho , parado ali , tomando caldo de cana que escorria pelos dedos. Você continua não gostando de caldo de cana. Aí sai meio chateado, chutando as tampinhas do caminho e fungando. 
     Você continua tendo os olhos que eu não tenho. E eu com minha dor de cabeça do lado esquerdo, entro no quarto, acenso o incenso e vou dormir com o ano que vem na cabeça.
(3/10/79 - SP) 

Ame seu coração

    


      Muita gente está a dizer que o  ano de 2016 foi um tempo ruim.Opinião quase unânime nas pensatas virtuais ou reais.  Muita gente dizendo “foi o pior ano da minha vida” e coisas do gênero. Não os culpo . Assim foi se lhes parece e o mundo e o Brasil não ajudaram com trairagens de toda monta , cafajestices, atentados, roubalheiras , violências, gente de muito bem partindo  de toda essa conturbação. Eu mesmo que nem de tanto bem sou quase peguei a “navilouca” rumo ao desconhecido em setembro passado . Um infarto porque estou farto de tudo ? difícil saber. Prefiro apostar que foi uma diabetes mal cuidada, uma carga de incertezas sobre o lombo e demais fatores que apesar de leves quando se juntam ficam pesados. Mas aqui estou aos vossos lados, companheiro dessa doidíssima viagem planetária. É pesada , pois. Mas vale a pena. Por isso pueril conselho de fim de ano : ame seu coração. O metafórico e o real. Feliz 2017.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

divagações do trem de minério

(...) E quando o barulho do trem e suas dezenas de vagões sacudia o quartinho eu via poesia em tudo e sobretudo em minha particular Minas Gerais velha de ferro  que sempre retrabalhou  dentro de mim a mineral sensação de que não só os diamantes são eternos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

país melhor acabado em 2017

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, campo de beisebol e atividades ao ar livre


    Há um ano escrevi numa rede social o que está abaixo . Merecíamos sim um 2016 muito melhor e ele não correspondeu às nossas expectativas... como acho a pintura linda e meu otimismo renasce como uma muda de pau-brasil num vaso não devidamente adubado - é preciso muito cuidado para que vingue a muda - eu repito aqui no blog os votos do ano passado... 2017 há de ser melhor...

"Queria essa pintura de Jack Vettriano como apólogo de um país mais solar,menos ranzinza, mais bem acabado...onde a gente pudesse molhar os pés na água e esticar os mesmos pés cansados na praia sem medo de ser pilhado no atacado, no varejo , no triste cortejo de reclamões nos quais vamos, infelizmente, nos transformando. Houve uma vez verões muito mais leves. Que o calor que está para chegar seja apenas o do clima e não vindo de bafejos do inferno. Merecemos todos um 2016 bem melhor..."

Meus livros

Meus livros
CINEVERTIGEM

O BRASIL É FEITO POR NÓS ?

VALENTÃO

FRANGUINHO SEBASTIÃO

DIA DE SUBMARINO

DIA DE SUBMARINO
DIA DE SUBMARINO

FALTA DE AR

FALTA DE AR
FALTA DE AR
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Arquivo do blog

Seguidores