TODO PROSA

Minha foto

Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O DESTINO É UM MONSTRO SUBMARINO


O DESTINO É UM MONSTRO SUBMARINO
  
Basta de filosofia
ia, mas havia
não há espaço por essa via

Congestionando paradoxos
métodos nada ortodoxos
singra-se mares perigosos
pontos muito nervosos
capilaridades, efemérides
datas inócuas

canais olímpicos deságuam no mar poluído
saudade alcança o seu olhar mais comprido
na linha d'água um pedaço e terra  se assoma
ponta de uma ilha vulcânica

o que se esconde abaixo de nós
é lava fervente
rio de fogo
transformação dos sinais
muito além de onde a aparência demonstra


o destino é um monstro submarino...

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

interestelar canoa

     


    Na recém descoberta galáxia de Franciscus Gandhi, uma enorme conferência dos beneméritos do planeta Peace organiza uma expedição salva Terra e Salva Brasil diante da possibilidade real de Trump na Casablanca , Temer no Planalto, Alckmin no Bandeirantes e Dória na prefeitura. Os  alienígenas beneméritos ainda tem esperanças de que esse triste quadro se reverta mas , por via das dúvidas, organizam uma barca interplanetária para levar alguns poucos  justos para fora desse possível inferno. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

ELKE MARAVILHA VIRA PURPURINA

      


    A morte, a "Indesejada das gentes", como a chamava o poeta Manuel Bandeira, chegou no mesmo dia para dois personagens diametralmente opostos no imaginário brasileiro. O primeiro deles,centenário e abjeto,foi João Havelange cujo nome virou sinônimo de empáfia , antipatia, arrogância, prepotência,vaidade e , lógico, corrupção superlativa. Não vou embarcar nessa de transformar todo morto em santo mas também não perco mais uma linha em falar nessa triste criatura que tanto mal fez ao futebol mundial. 
   Prefiro aqui lembrar  de Elke Maravilha, sinônimo de alegria, simpatia, descontração, ousadia, ícone da cultura de massa e que fez muita gente pensar. Foi pioneira comportamental, foi drag queen antes de todas as drags, foi musa dos gays, dos descolados, símbolo libertário em épocas bicudas. Perder Elke, ainda nova aos 71 anos, é ruim num país careta, enfezado e escroto que se forma sob as nuvens de um governo espúrio e vampiresco da corja em volta de Temer.
     Em curto período entre 2008 e 2010 fui vizinho de Elke no bairro do Leme (Rio)e algumas vezes a vi desfilar ( literalmente) pelas ruas distribuindo seu sorrisão, sua simpatia e chamando a todos de "criança". Por essa época acabei pegando um dia uma ponte -aérea com ela e embarcado no papo agradável descobri o que intuía e muitos falavam : era uma mulher culta, articulada, perfeitamente ciente do papel que representava no cenário pop nacional.  
    A tal "indesejada das gentes" , perdão mesmo pelo raciocínio politicamente incorreto, deveria ter trocado  o bilhete de embarque de Elke pelo de Havelange. A musa é que deveria virar centenária pois nos traria muito mais alegria ao país , agora tão precisado, do que o lamentável pseudo-fidalgo que envergonhou a nação.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

São Paulo:pra que queremos ser bandeirantes mesmo ?

   


   Descobri uma "vibração" sobre São Paulo postada em forma de frase na Internet  atribuída ao capitão de indústria Jorge Gerdau Johannpeter . Diz ele :"Existe em São Paulo uma vibração para os negócios como há em poucas cidades do mundo. Você percebe essa energia estimulante assim que desembarca em Congonhas, entra num táxi ou escuta conversas no elevador. As pessoas estão pensando em negócios 24 horas por dia. É sensacional!"

   Soma-se a isso outra frase de outro capitão da indústria, o já falecido Antonio Ermírio de Moraes :"São Paulo tem o espírito de luta e conquista dos antigos bandeirantes. É desbravadora. É uma cidade que valoriza o trabalho e não quer nada de graça". 
   Vou tentar não colocar nenhum preconceito contra os capitães da indústria aqui citados mas as suas frases dão bem a medida dos motivos de São Paulo  ter dado tão certo para pessoas como eles e tão errado para milhões de seus habitantes que são quase compelidos a se envergonhar do ócio, do lazer, da contemplação como se fossem atividades ilegítimas, espúrias, vergonhosas.
   Essa exacerbação do trabalho, do stress, do movimento contínuo , da velocidade fez de São Paulo um pesadelo infeliz de cidade que só muito trabalho "humanizador" será capaz de reverter. Eu como paulistano confesso não vejo a menor graça na frase de Gerdau e nem do que disse Antonio Ermírio com essa estética "bandeirante empreendedor". Mas o que eles disseram explica bem onde chegamos...


OLIMPÍADAS DA RESIGNAÇÃO

   
   O texto abaixo, publicado originalmente no DOM TOTAL (leia aqui) dias antes da abertura das Olimpíadas continua atual e assim parece se formos considerar o número de "likes" que recebeu. Primeiro porque meu modesto desejo de que desse tudo certo com a festa olímpica se comprovou . Deu tudo certo sim, foi bonita a festa pá e etc, etc...mas, contudo , todavia continuamos no lodo de um governo golpista , ilegitimo , com propostas sórdidas e aparentemente estamos resignados...sendo assim , replico o texto... 

OLIMPÍADAS DA RESIGNAÇÃO...
     Área de enorme turbulência com ventos laterais fortes  e fétidos e milhares de urubus na cabeceira da pista. Está difícil aterrissar no Brasil de hoje em dia muito embora nos embrulhem para presente com essas Olimpíadas que acontecem na cidade do Rio de Janeiro  para as quais desejo pleno sucesso não pelas imundas e hediondas “autoridades” envolvidas na efeméride mas pelo congraçamento universal que ela representa.
     Colocar a cabeça para fora do bueiro em que nos metemos está ficando cada vez mais difícil e perigoso e perdoe o amável leitor por minha subterrânea metáfora mas é que manter a espinha ereta e o coração aberto tem sido um exercício de superação para todos nós . Nunca vi tanta teoria a respeito de nossa natureza corrupta e corruptora. Nunca vi tanta ignorância e desinformação ser propagada por aí afora. São tempos sombrios e colocar o bloco do sorriso na rua é ter que imaginar, em primeiro lugar, que vamos sair desse triste lugar.
     Atriz famosa sendo hostilizada por conversar com manifestante anti Dilma, pseudo-ator fazendo discurso de ódio e preconceito na avenida Paulista, hordas de intolerantes pedindo volta de milicos , descerebrados levantando cartazes grotescos onde ostentam com orgulho a própria estupidez. Junta-se a isso a crescente escalada de ignorância e influência das hordas evangélicas no Parlamento e no país afora somado ao extemporâneo conceito de que "comunismo" devora crianças e estamos diante de um país em pandarecos que nem o mais delirante dos ficcionistas de horror poderia supor alguns anos atrás. De verdade se não nos juntarmos superando diferenças ideológicas para conter essa escalada da ignorância vamos mergulhar nas trevas absolutas. É tão assustador o que está acontecendo que daqui a pouco vamos ter medo até de ter carros vermelhos como o meu. E não adianta dizer que tudo isso é culpa da falta de educação. Temos que juntar a educação e civilidade que nos resta e lutar contra os bárbaros. Sob pena de sermos "desgovernados" por eles durante muito tempo. Nessa torta sinistra some-se à receita  uma mídia comprometida com o Poder e estaremos muito perto da combinação de fatores que resultaram na eclosão da Europa fascista da década de 30.
   O negócio está assustador mesmo e  a ação dessa malta ignara nas ruas do Brasil já está lembrando os camisas pretas do Mussolini, os camisas pardas de Hitler e os camisas verdes do integralismo de Plínio Salgado,todos farinha do mesmo saco abjeto do fascismo.Algo efetivo tem que ser feito antes que seja tarde demais e não há exagero no que digo . É só olhar para as ruas . Quem chama essas preocupações de alarmismo ou está relativizando ou querendo que consideremos normal o anormal, o fora da ordem, o sem tino e o sem juízo. Desculpem mesmo mas o meu otimismo olímpico está guardado num embornal sujo e roto. Querer mostrar aos outros que a casa está em ordem no meio de tanta sujeira é disfarçar o indisfarçável. Se nada fizermos vamos ganhar todas as medalhas de conformismo e resignação e nem o mais torpe dos ufanismos nos colocará nos trilhos de novo.

domingo, 31 de julho de 2016

O medo que as pessoas tem do escuro




  Estão a ver a luminária de poste na foto, certo ? é "peça" de iluminação pública, certo ? Errado. São as provas de como os seres humanos podem transformar a placidez, o sossego , a contemplação noturna num show de horror com iluminação fortíssima de luz fria suficiente para iluminar uma quadra coberta e afugentar vagalumes, corujas, saruês . Mais bizarro é que foram colocadas defronte à minha casa para acabar com o escurinho do meu quarto e tirar o meu sono pois seria decisão da "maioria" do condomínio onde moro. O síndico garante que das 180 unidades do condomínio 160 quiseram a bizarra , agressiva e invasiva iluminação pública. E por que toda a minha reclamação ? Porque me mudei pra cá em 4 de dezembro de 2002 também porque poderia ver o céu de estrelas noturnas e as luas cheias que tanta satisfação já me deram. E assim, quase 14 anos depois, a maioria que não consegue conviver com o escuro traz as luzes da cidade para um condomínio fechado( atentem : fechado, seguro, tranquilo) por questões , diz de novo o síndico, de "segurança". Sim é preciso respeitar a opinião da maioria mas é difícil quando você de fato não consegue entender a razão de tanta estupidez. Ou vai ver o estúpido sou seu que não quero trazer a estética , a ótica , a luz de São Paulo para dentro de um condomínio que até então era quase campestre. Nessas horas que me lembro do tal " o inferno são os outros" ao qual Sartre se referia e chego cada vez mais a conclusão de que me vocaciono ferozmente para ser um ermitão definitivo.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

DEVO A ELES UM ROMANCE

Replico aqui a crônica da última  segunda- feira para o DOM TOTAL. (Leia aqui) . Não será o primeiro e nem o último texto sobre o valor da amizade. Mas é minha versão sobre o que representa a amizade a essa altura da vida. E a esses amigos fico devendo um romance...
DEVO A ELES UM ROMANCE
Éramos cinco, ficamos três. Não porque dois tivessem morrido ou se desgarrado do grupo, apenas se distanciaram. Um deles inclusive  foi morar em Brasília, o que é uma forma de solidão. Só sei que agora somos três e já faz tempo. Coisa de mais de 30 anos? Talvez sim, se bem que a amizade tem exatos 41 anos.
São os meus amigos mais antigos. Aqueles que vieram da adolescência vivida na presunção de uma futura notoriedade nossa quando seríamos escritores e dramaturgos talvez mundialmente famosos. Qual o que, muito embora nenhum de nós tenha sido uma decepção completa.
Um deles virou psicanalista. Não satisfeito, pois queria conhecer também a parte química da alma humana, virou médico e psiquiatra. Vocacionado desde sempre à tolerância e a entender as diferenças entre os seres humanos. Este é o meu amigo mais doce, mais sereno, mais plácido e educado.
O outro, jornalista e conhecedor de todos os meandros literários possíveis é o homem mais inteligente que conheci na vida. Hoje infelizmente emprestando seu gigantesco talento a uma revista nefasta. Racional sem ser frio, irônico sem ser maldoso, arguto sem deixar de ser doce é o introspectivo mais cheio de vida interior que já vi. Me lembra às vezes uma linda flor rara guardada numa estufa. Deveria ser muito mais visto e apreciado, mas se recolhe.
Marcamos vez ou outra jantares, onde colocamos a prosa em dia. Chamo de jantar "dos tiozinhos", geralmente em restaurantes desinteressantes, estratégia inteligente e inconsciente para mantermos o foco em nossa conversa e não no cardápio. Comemos qualquer coisa, pois queremos nos inteirar uns dos outros.
Na juventude tivemos e fizemos um grupo de poesia. Éramos cinco. Hoje os três recordam. O grupo não deu em nada, mas foi tudo para a gente um certo tempo. A bordo desse grupo organizamos saraus, chuvas poéticas, estandes para autores independentes em Bienais do Livro. Dizíamos que "a arte estava com indigestão" e lançamos duas antologias poéticas e cinco livros individuais em 1982. A última vez em que publiquei poesia e eles também.
De repente nossos filhos cresceram, agora esbarramos os 60 anos, os cabelos rarearam ou embranqueceram e olhamos para trás sempre com a eterna cumplicidade de amigos na chuva. Como eu, eles também colocaram muitos sonhos de moço nos embornais. São felizes diante das circunstâncias e hoje em dia me ajudam a ser feliz, pois ao estar com eles ponho para fora o que há de melhor em mim.
Quase nunca nossas mulheres estão conosco nesses encontros. Vai ver porque sabem da velha cumplicidade, vai ver porque sejam desimportantes no contextos desses encontros, visto que diz uma máxima que amores passam e os amigos ficam.
Sempre achei, eles também sempre acharam, que toda nossa história de juventude daria um livro curioso. E se um dia ele fosse escrito teria que ser por mim, decidiram eles. Justo eu que hoje me considero um enfadonho escritor bissexto que sempre justificou sua indisciplina, medos e falta de métodos com um "torvelinho" de desculpas.
Vai ver eu devo mesmo desculpas a esses meus amigos porque, pensando bem, nossa história daria um livro bacana. Datado, mas bacana. Mas, perdoem meus amigos, não sou capaz de escrevê-lo. Ando tão saturado de mim mesmo, tão enroscado no cordame do convés que tenho medo de que se for lançar uma âncora em direção aos mares profundos desse livro eu acabo por afundar junto.
Na verdade me vejo diante dos planos do passado como um absoluto fracassado. A literatura nunca se despregou de mim, mas eu nunca a abracei de verdade como ela merecia. Ela foi sempre a "regra três", um hobby mal largado, um estepe, uma espécie de confortável pano de chão para o qual eu corria e corro toda vez que sinto o meu coração e os meus pés muito frios. Ela foi uma espécie de amante antiga, com quem a gente sequer transa mais, mas sempre está ali para acolher e ouvir as nossas mazelas.
Nunca imaginei poder viver de literatura em um país onde quase ninguém vive de ficção. Mas imaginei que pudesse ter sido mais focado, disciplinado, mais regrado para tal mister. No entanto, estou aqui apenas esboçando uma crônica sobre a amizade. Talvez para dizer de outra forma para esses dois amigos que eu os amo mais do que qualquer livro que escrevi. E que, infelizmente, não tenho competência para escrever um romance sobre a nossa juventude. Contentem-se pois com o meu açúcar de diabético e com as mal traçadas linhas desse relato que se encerra com o mais fraterno dos fraternos abraços que eu possa lhes dar.

domingo, 24 de julho de 2016

AMPARADO POR UM TERÇO

  
praia de Hermenegildo...extremo sul do Rio Grande do Sul. Foto : Ricardo Soares
  Replico aqui a crônica da última quinta feira no DOM TOTAL... (leia aqui). Porque não custa nada imaginar que ainda possamos fazer coisas grandes...

        AMPARADO POR UM TERÇO

    Era um naufrago , estava na praia, mas não se sabia um naufragado porque não lembrava de um naufrágio. Lembrava sim de um mar raivoso,um mar sem fim, um mar sacudido e um barco talvez a deriva com um tosco capitão de longo percurso conduzindo aflito a embarcação encardida no meio de ondas altíssimas e mexidas.
   Agora uma longa praia, uma longa faixa de areia, longos sargaços, alguns cães vadios a lhe lamber a areia seca no rosto e a sensação de estar embutido em outra vida que não a sua. Dizer que a praia era deserta seria pouco. Era uma praia deserta, erma, superlativamente iluminada por um sol de inverno que não esquentava as juntas frias do seu corpo.
   Diante disso tudo levantou quase ligeiro, sentiu tontura, pôs as mãos diante dos olhos porque a luz feria e olhou para o norte, para o sul, para onde mais desse. Longe, mas muito longe mesmo, pareceu enxergar um farol. Seria uma clássica miragem ou ele sinalizava uma direção a ser seguida? Não custava tentar chegar mais perto.
   A vida é breve e as dimensões e segredos da América Latina vive num mosaico de histórias, fatos, mitos, homens e mulheres que se engalfinham desde tempos imemoriais de disputas entre portugueses e espanhóis. Pensou nisso porque àquela altura já nem sabia que idioma ele falava e a qual Deus deveria rogar. Virgen de los remédios ou Nossa Senhora Aparecida? Por via das dúvidas se amparou num terço pendurado sempre no pescoço.
    Não tinha sede mas tinha fome e queria poder ter o dinheiro da venda de uma cidade sagrada para comer tanto pão com peixe frito e vinho fosse possível . Mas nada tinha. Nem moedas, nem cantil, nem um embornal onde pudesse ter guardado um pedaço de carne seca. Era tudo um começo de começo.
    Foi assim que chegou a pensar que poderia fazer uma coisa grande. Uma coisa que faria bem a ele mesmo e que servisse para consolá-lo durante muitos anos quando estivesse na varanda envidraçada de um retiro para idosos contemplando cartas surradas de baralho e um gramado queimado pelo frio. Mas diante de tão pequenas possibilidades, solto ali na praia, acabou por resignar-se.
   Não deu mais do que cem passos quando viu um filhote de foca morto em sua frente. O bicho tinha os olhos tão abertos que parecia estar a enxergar o outro lado da vida marinha em oceanos nunca dantes navegados. A cor de seu pelo era curiosa. Um cinza esmaecido, quase ficando branco. Era um animal que não cheirava mal e estava plácido diante da morte prematura. Ele tocou a foquinha com seu pé direito descalço e sentiu a frieza salgada. Seguiu adiante e não viu mais o que parecia ser um farol. O que via agora parecia ser um velho e enorme navio encalhado numa curva da praia que dava a impressão de formar uma enseada. Podia notar que havia sim uma esfarrapada bandeira tremulando em algo que parecia um convés. Mas não sabia de que país vinha a gigantesca lata velha.
   Súbito se cansou , passou a mão no rosto e percebeu que tinha uma barba bem crescida o que dava conta de que era um naufrago de muitos dias. Passou incontáveis vezes a mão na barba e procurou sentir o cheiro. Cheirava a peixe fresco, azeitonas, talvez até um pouco de cravo da Índia, noz moscada e outras especiarias. Por onde teria passado até ser um naufragado?
   Suas largas calças brancas de algodão cru estavam estranhamente limpas para um homem que acordara na praia. Resolveu sujá-las e sentou-se na areia molhada a contemplar o horizonte que não se dobrava. De frente para o mar. À esquerda, à distância , o navio encarquilhado.À direita nada vezes nada. Súbito, também do nada, lembrou-se do seu nome, filiação, do seu emprego, das suas mulheres. Nada digno de nota. Assim deixou-se ficar. Esperando o dia acabar para viver a sensação inigualável de um pôr de sol num lugar nunca dantes imaginado.

*Ricardo Soares é escritor,diretor de tv e jornalista. Autor de sete livros , dirigiu 12 documentários, muitos programas de televisão e escreve às segundas e quintas no DOM

sexta-feira, 22 de julho de 2016

VIAJAR É DESAPARECER NO URUGUAI

foto de própria lavra
    Replico aqui crônica da última segunda-feira no DOM TOTAL (veja aqui). A reflexão se dá por conta não só de lugares plácidos desse mundo mas  de como são aborrecidos os tais tradicionais relatos de viagens que existem por aí...


                                          
VIAJAR É DESAPARECER NO URUGUAI


     Fechamos os olhos e nos vemos. A cruzar novas fronteiras, buscar novos caminhos. Cada viagem é, na verdade, uma busca de si próprio, ainda mais quando as bússolas envergam e o GPS não tem a menor serventia. Às vezes, quase sempre, traçamos planos de voo que não podem ser cumpridos e as pistas de pouso que durante muito tempo pareceram seguras estão completamente esburacadas. Assim sendo, nem é preciso dizer que "viagem" não tem nada a ver com turismo. Muito menos com o tal "turismo camisinha" onde o "viajante" se protege de todo o universo a sua volta como se fosse contagioso.
   Minha curta e proveitosa atual viagem durou 19 dias e percorreu exatos 5.697 quilômetros a bordo de um Troller vermelho, uma média diária de 300 quilômetros rumo ao sul. Fui de São Paulo ao Rio Grande do Sul, entrando no Uruguai via Santana do Livramento-Rivera, cortando o país de Mujica e depois voltando pela fronteira do Chuí um arroio maltratado numa cidade de fronteira muito feia.
   Mas aqui não falarei das raras feiuras desse caminho idílico percorrido junto com a Tania Celidonio, minha fraterna amiga há quase 40 anos. Fomos em busca de novos descansos para nossas retinas, corações e mentes, cada qual por certo com seus motivos, mas com sensações em comum. Visitamos um casal de amigos (Saulo e Bia) em Cruz Alta (RS), terra de Érico Veríssimo, e, em Punta Gorda (Nueva Palmira, Uruguai), um amigo dela (Tomás), tradutor em tempo integral que se tornou, de imediato, meu camarada também. 
   Poderia repetir aqui que o surradíssimo clichê de que a vida é a arte do encontro, mas não o farei. Porque os encontros são mais do que arte. São a própria síntese do sentido da vida e suas invenções de surpresas que se embutem superlativamente nas viagens. Se você deixar a "viagem" fluir em você. Se você deixar todas as suas convicções e costumes em casa e se deixar levar pela onda de conhecer o que é novo e não levar velhos hábitos dentro das malas.
     O escritor e veterano viajante Paul Theroux diz que "viajar é um ato de desaparecimento", o que é uma verdade se evidentemente você se deixar desaparecer, o que é bem difícil nesse nosso mundo virtual e plugado. Viajar é assim, hoje em dia, um exercício e tanto que nada tem a ver com turismo, repito. Aliás, os livros de turismo são aborrecidos pois descrevem preços, tarifas, dicas, ofertas e até informações, mas desconhecem as sensações e sentidos que são o epicentro de qualquer viagem. Assim, um livro de viagem tende a ser uma coisa chata, escrita por outro chato, direcionado a leitores chatos e regrados e esse meu raciocínio é também diretamente inspirado numa pensata do Theroux, um escritor de "viagens sensações" como Ryszard Kapuscinski.
   Viajar para ver as mesmas coisas só não é mais aborrecido quando você vê essas mesmas coisas pelos olhos dos outros. Porque você pode ter evidentemente sua própria visão da torre Eiffel, que independe da visão alheia. Viagem tem a ver, literalmente, com movimento, experimentação e doses de risco. Aí sim tem graça contar o que foi visto. No mais, se não for para isso, é melhor ver Discovery Channel, já que a televisão tirou muito o prazer de visitar pontos turísticos. Eu, por exemplo, jamais pus os meus pés na Times Square em Nova York, mas parece que já a visitei mil vezes. Sacaram a lógica da coisa?
   Para mim, "viajante" que não suja as unhas no destino visitado deveria era ficar em casa. Não sei se nessa curta viagem ao Uruguai eu consegui fazer isso, mas tentei. Para chegar à conclusão de que o país que já conhecia um pouco de visitas anteriores (1997 e 2014) continua tudo de bom, mas torço para que continue preservado da deseducação dos turistas brasileiros e alguns argentinos. Queria o Uruguai pra mim, mas prefiro que continue deles, pois acho que nem eu nem os brasileiros merecemos. Não sei se o país ficou ainda melhor por conta de Pepe Mujica e Tabaré Vasquez, mas se converteu num país muito melhor que o nosso para se viver. Uma das sensações mais caras é por lá passar com a saudável sensação de poder dormir de porta aberta e deixar o carro na rua sem ter medo de que o levem em 15 minutos. O Uruguai, do tamanho do nosso Paraná, só tem a nos ensinar. Pena que não queiramos aprender a começar da profusão de impecáveis escolas rurais espalhadas pelo país. Como lembra o camarada Tomás "O clima geral do Uruguai não é devido somente ao Mujica e ao Tabaré. Este foi o primeiro país católico das Américas a aprovar o divórcio, o primeiro das Américas (e um dos primeiros do mundo) a aprovar plenos direitos de voto para as mulheres, em 1917 (três anos antes dos EUA) e a saúde pública funciona tão bem que os planos de saúde não conseguem prosperar". Quanto à segurança, o mesmo Tomás lembra que quem realmente sofre com isso são, como sempre, os pobres, a periferia, a favela. A diferença é que lá não existem Datenas, como ele mesmo diz. Mas viver em Montevidéu tem lá seus pontos de insegurança, é bom lembrar.
     Tenho até medo de propagandear o Uruguai aqui para minha modesta, porém seleta audiência, porque o país, como já disse, é para quem o merece. Mas confesso que lá no fundo alimento a partir de agora o sonho de envelhecer num país como esse, onde a gentileza parece gerar a gentileza, especialmente nos períodos fora da temporada de verão. Eu queria de verdade desaparecer em um Uruguai sossegado, onde os pesadelos da deseducação e incivilidade cabocla ficassem bem longe. Mas temo que até o nosso pessimismo possa contagiar os uruguaios que operam uma lógica muito diversa da nossa. A lógica de um país pouco populoso, onde as pessoas não se amontoam umas sobre as outras tentando sempre sobrepor o seu espaço ao espaço do outro. Enfim, viajar e desaparecer num país civilizado como o Uruguai é mais que um sonho de consumo. É uma necessidade espiritual. Que os bons fluidos do Universo preservem as ótimas energias eólicas do Uruguai e que seus ventos soprem um pouco sobre nós.

terça-feira, 19 de julho de 2016

A ESPERA DE NOVAS COLHEITAS


A ESPERA DE NOVAS COLHEITAS



Me lembrando de uma vez que escorreguei barranco abaixo e sua mão estava lá para me amparar.
Hoje se falamos de mãos a nos amparar aparecem muxoxos em volta como se todos pensassem : “ Xi, lá vem papo de auto-ajuda”.

No entanto mãos que amparam são bem vindas.
Mãos que são anteparos são bem vindas.
Mãos “calientes”a nos envolver os rostos rotos são bem vindas.
A lembrança da mão paterna ou materna a nos afagar acalenta.
A lembrança de nossas mãos agradando nossos filhos ou cães reconforta.
Para que escrever então se não sei quem está do outro lado da porta ?
Escrevo sim também para acalentar e ser acalentado.
Escrevo para que o sol entre por frestas , escrevo para continuar cultuando todos os lugares comuns que nos fazem felizes.
Escrevo porque preciso, escrevo porque marejo, escrevo porque manejo as palavras como sei fazer e ninguém tem nada com isso ou tem tudo com isso na medida em que o texto lhe serve ou não.
Escrevo porque não sou Borges, não sou Eça, não sou Henry Miller e nem Salinger, não sou Gabo, não sou Rulfo, sequer vivo do que escrevo no meu país sem leitura. Escrevo pra fugir deles e suas opressoras influências e talentos.
Escrevo porque andei errado , escrevo porque acertei, escrevo porque sou tentado, porque vivo zonzo , porque não sei que desafios procurar aos 57 anos.
Então me lembro que sua mão às vezes estava lá para me amparar. E não estou falando de auto-piedade, estou falando de precisão. Porque preciso da sua mão, preciso de mão dupla, de muitas segundas vias, de pistas com seguros acostamentos.
Percorri muito mas olho pra trás e não vejo muita coisa.De que valeu ? Filhos criados,efêmeras vitórias e elogios numa carreira que não interrompi por opção e sim por circunstâncias ?
Diante de mim um velho postal me mostra “soldados do Everest”, homens que subiram , perderam e ganharam batalhas contra o maior pico do mundo. Sou mais modesto. Encararia se pudesse o pico da Neblina ou até subiria ao alto do Jaraguá, aqui em São Paulo, se não temesse os bandidos do caminho. O que valem são os desafios ...e onde eles estão ? por que apunhalam assim minha geração ? 
Estico sua mão e espero receber a sua. Quiçá dê para a gente remar junto. Se não estou a deriva parece que estou perto disso. Aquilo tudo que eu acreditava não mais existe.É um mundo morto e paralelo. Não me acho entre os escombros e tenho até receio de confessar que tenho medo pois ter medo não nos é permitido. Nem mesmo o elogio da tristeza porque a tristeza não faz saldo médio em banco chic, não paga contas , não é produtiva num país desgovernado por um arrivista com cara plastificada.
Minhas mãos puxam as suas para um abraço. O abraço é o caminho mais curto para a tal comunhão solidária. Afinal somos ou não sobreviventes ? estamos ou não no mesmo barco ? Espero que sua mão esteja lá quando eu escorregar no barranco . Em troca eu também ofereço a minha mão, envergonhado porque ela é macia diante de lidas leves se comparadas àqueles que labutam na enxada. Mas como a gente do mato eu lavro, ou tento lavrar. Esperando por outras e melhores colheitas...


Ricardo Soares, 19 de julho de 2016, 13 e 10, Granja Viana.

Meus livros

Meus livros
CINEVERTIGEM

O BRASIL É FEITO POR NÓS ?

VALENTÃO

FRANGUINHO SEBASTIÃO

DIA DE SUBMARINO

DIA DE SUBMARINO
DIA DE SUBMARINO

FALTA DE AR

FALTA DE AR
FALTA DE AR
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Arquivo do blog

Seguidores