TODO PROSA

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Escritor, jornalista, roteirista, diretor de tv. Dirigi, apresentei e escrevi para a  TV Cultura, CNT/GAZETA, BANDEIRANTES, MANCHETE,  Rede SESC/Senac,TV Brasil, TV Pública de Angola, TVT-TV DOS TRABALHADORES, GNT entre outras. Editei as revistas RAIZ, TRIP e HV e fui conselheiro editorial da Rolling Stone e um dos criadores do programa METRÓPOLIS da Tv Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Fui repórter do Caderno B do JB e tomei parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão. No mesmo jornal fui cronista de 1993 a 1998. De 98 a 2001 fui cronista do Jornal da Tarde.  De 1998 a 2005 dirigi, escrevi e apresentei "Literatura" e "Mundo da Literatura" exibido em várias emissoras abertas e fechadas. Sou co-autor das peças "Olho da Rua" e "Quatro Estações". Autor de sete livros publicados como CINEVERTIGEM (ed. Record) e os infanto-juvenis VALENTÃO, O BRASIL É FEITO POR NÓS ?, DIA DE SUBMARINO e FALTA DE AR. Co-autor de outros tantos. Dirigi mais de uma dúzia de documentários e séries documentais para várias emissoras de tv. Publiquei todos os dias durante um ano em www.revistapessoa.com o 365- Diário do Anonimato do Mundo. Uma história por dia. Cada dia um lugar do mundo. Escrevo duas vezes por semana para a revista digital  Dom Total em www.domtotal.com . Entusiasta da comunicação pública também fui gerente de produção da TV Brasil e diretor de conteúdo e programação da EBC.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A LITERATURA DOS FRANGOS DE GRANJA

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   Ontem, quando essa crônica abaixo saiu no DOM TOTAL (Clique aqui) me encontrei com uma querida editora que já publicou meus livros infanto-juvenis. Ela foi mais uma a me dar um triste panorama do mercado editorial brasileiro. Uma das mazelas é justamente a falta de leitores para a literatura nativa contemporânea como bem apontou num texto para a "Folha" o jovem escritor Santiago Nazarian. Mas o que ele esquece  de se perguntar é se a fuga do "leitorado" também não tem a ver com a má literatura feita pelos frangos de granja da atualidade. Pelo sim, pelo não, republico o texto aqui para reflexão de quem interessar possa...

A LITERATURA DOS FRANGOS DE GRANJA

Por Ricardo Soares*
O país amanheceu pegando fogo e diante do incêndio o prezado leitor pode me perguntar porque vou me ocupar da literatura brasileira contemporânea já que existem tantos temas candentes. Justamente porque a literatura nativa atual não é um tema candente e pouca gente opina, escreve e reflete a respeito.
Diante disso é mais do que bem vindo o artigo ou pensata publicada ontem no caderno “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo onde o jovem escritor Santiago Nazarian reflete acerca dos “animais raros”, ou seja, os poucos leitores da literatura nacional que não querem virar escritores. No artigo (que o jovem escritor chama equivocadamente de “ensaio”)  ele diz que “no meio literário, mantém-se o palpite (nem tão sarcástico) de que o número total de leitores de literatura brasileira contemporânea seja o mesmo da média das tiragens: 3000. Desses, a imensa maioria é formada pelos próprios autores, por editores e jornalistas”. Mais de uma vez escrevi a respeito disso inclusive comparando esse quadro, digamos esquizofrênico, com o do audiovisual brasileiro que nos entope de realizações muitas vezes vistas apenas pelos realizadores.
Evidente que a literatura brasileira atual tem nuances bem distintas do nosso audiovisual. E Nazarian aponta com acerto que mesmo a comunidade acadêmica conhece pouco ou mal a produção contemporânea . Nas faculdades de letras do país não se conhece quase nada da literatura brasileira contemporânea, salvo raras exceções ou salvo raros professores que se debruçam com afinco sobre o assunto.  Assim muitos deles acabam por incorrer nos mesmos erros que alguns autores nacionais. E aí, ironia do destino, autores como Nazarian são  um belo exemplo disso  por inferir que a literatura brasileira contemporânea é ele e mais meia dúzia de “coleguinhas” de confraria que se confraternizam e tecem loas uns aos outros.Tanto o professor mal informado quanto o Nazarian aparentemente bem intencionado precisam abrir as lentes e enxergar mais longe, enxergar ao redor. A literatura brasileira não é aquela feita ao redor das mesas de uma mercearia paulistana nem a partir de tragos e feijoadas na casa de escritoras amigas como imaginam os “Nazarians”. Chega a  estarrecer a afirmação do jovem autor que ao partilhar uma foto da “turminha” na sua rede social sugere que se no carnaval passado envenenassem aquela feijoada “acabavam com a literatura brasileira”. Ou é um chiste que não entendi ou é  presunção em escala terminal pois tirando uns dois ou três talentosos que aparecem na foto o resto deixa muito a desejar. Mas gosto é gosto e ele se discute.
Antes que me tomem como injusto quero dizer que não conheço a literatura de Nazarian. E , confesso, que ele me perdoe, que é por puro preconceito pois me parece que o moço está muito mais preocupado em estruturar uma “persona” de escritor do que ser de fato um escritor. Sabe muito de auto-promoção, saber estar nas festas certas e nas entrevistas corretas mas adoraria saber se o resultado do seu trabalho é tão reluzente quanto sua eloqüência. Prometo que vou conferir muito embora algumas referências que tenham me passado dão conta que o moço precisa comer muito feijão para estar à altura do que imagina ser. Mas isso, convenhamos, não é privilégio só dele mas de boa parte dos “coleguinhas” que aparecem na foto da feijoada do carnaval passado.
Nazarian está corretíssimo quando diz que os leitores de literatura brasileira atual são animais raros. Mas eu diria que hoje em dia no Brasil os escritores de verdade também são animais raros. Não falo desses frangos de granja, criados com hormônios e ração transgênica mas escritores e escritoras criados no terreiro sujo das palavras, gente que cisca a arte, que cavouca e revolve a terra, que sai da granja e dá caldo grosso. Gente que viceja fora da mídia, que não troca favores com curadores e pseudo-críticos para poder voar para as feiras daqui e de além mar. Em tempo, a literatura brasileira hoje só dá espaço a “bons moços” e “boas moças”. Gente que não desafina o coro dos contentes.
Mas o que pretendo com tudo isso? Desancar a literatura nativa? Muito ao contrário até porque sempre fui entusiasta dela e posso fazer uma longa lista de autores atuais que considero muito bons e não estão na lista do Nazarian. Sem querer ser elitista mas se os escritores brasileiros de hoje debatessem mais entre si, conversassem mais sobre o oficio e parassem de festejar aquilo que não produzem todos pudessem chegar a melhores portos. Se seguir assim, prezado Nazarian, qualquer leitor achará que de fato pode ser escritor porque muitos deles , acredite, estão fazendo melhor figura do que alguns “personagens escritores” mais preocupados com marketing, performance e quejandos do que com as palavras. Desejo que a literatura brasileira saia da granja e pare de discutir migalhas.
Ricardo Soares é escritor, roteirista, diretor de tv e jornalista. Publicou 7 livros, entre os quais o romance “Cinevertigem” ( editora Record, 2005). De 1998 a 2005 dirigiu e apresentou os programas “Literatura”e “Mundo da Literatura” que foram exibidos em várias emissoras abertas e fechadas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Debaixo de uma parede cinza

         
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    No começo achei que era só jogada de efeito, factoide barato ao estilo César Maia ou (o pai de todos) Jânio Quadros . Mas não. Joãzinho Dória, o herói de nossa gente, parece mesmo ter eleito o "combate" às pichações e ao grafite como o estandarte da sua gestão até agora inócua. Dirão seus eleitores que ainda é muito cedo para avaliar o janotinha mas quem espera de fato que ele vá fazer a diferença que se manifeste.
       A novidade bélica do janotinha é agora dificultar a compra da tinta spray para (imagine!)  coibir as "pichações". Ou seja , ao invés de priorizar temas que fariam a diferença como , por exemplo, a educação para discernir entre "pixo" e grafite, o nosso neo-Jânio seguirá adiante na sua cruzadinha fajuta que só terá como resposta o "revide" dos artistas de rua. 
      Muitos apostaram que eleger um "gestor" ( na verdade um lobista) seria a saída para São Paulo. Mas, como já se vê, para a cidade , com Joãzinho, a saída só será o atraso em todos os sentidos. Ele não sabe mesmo que debaixo de uma parede cinza sempre ficará a poesia. 


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Canção do exílio revisitada




Minha terra tem olheiras, 
Onde canta o Jucá; 
As aves, que aqui assaltam, 
também roubam
 como lá.

Nosso céu tem mais ladrões, 
Nossas várzeas mais poltrões, 
Nossos bosques mais comissões, 
Nossa vida mais horrores.

Em  cismar, sozinho, à noite, 
nenhum alento encontro cá; 
Minha terra tem olheiras, 
Onde canta o Jucá.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Imprensa desrespeitada: de quem é a culpa ?

   
Resultado de imagem para jornalistas agredidos pela população

    Independente da posição canalha ou venal de seus patrões é sabido que os jornalistas - os que ainda vão para as ruas em busca de notícias - na maioria das vezes não pensam como os que lhe pagam os maus salários. Isso posto já é absurdo que apanhem, levem pedradas ou insultos por posições que não defendem. 
    Faço a consideração porque me parece que nunca foi tão arriscado ser repórter de rua no Brasil como hoje em dia. Não pelos perigos da violência urbana - também por ela - mas pela escalada absurda de intolerância em relação a imprensa fomentada especialmente por radicais de vários matizes ideológicos. Da extrema direita à extrema esquerda aí incluso a fascistada policial que veste farda.
   Não há uma semana que não tenhamos notícia de repórteres agredidos, insultados, vilipendiados. Sou de um tempo que acima de tudo o trabalho da imprensa nas ruas era respeitado, talvez porque as pessoas viam o que praticávamos como exercício da verdade, ou proximidade a ela e não esse festival de mentiras que pululam na mídia nativa. Mas nada justifica a porradaria contra os jornalistas no atacado e no varejo como vimos acontecer inclusive com estrelas do ramo como o Caco Barcellos. Ah, sim, hoje também é comum assaltaram equipes de reportagem para levar câmeras, equipamentos e até a viatura de serviço. Ou seja. A imprensa faz tempo não se faz respeitar. Culpa dela mesmo ?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

POEMA NUBLADO

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POEMA NUBLADO

Nublou agora pouco
Como nublou na minha infância
No momento em que não me soube mais menino
E percebi que a dor do crescimento
É dolorida, jamais alento

Tinha receios  e muitos medos
E nada sabia sobre inocência do amor
E suas adagas pontiagudas
No entanto já exalava sofrimento
E me inebriava com um certo cheiro de canela

Os anos passaram e a musa perfumada perdeu o viço
Perdida entre imorredouras mágoas
Olhando velhas cartas amarradas com fitas vermelhas

Não tenho como segurar o passado entre meus dedos
E sei que as cartas enfim morrerão
Pois foram escritas para não serem lidas

Eu as seguro nas mãos, titubeante, pois nelas vou me encontrar comigo mesmo 
e , lentamente, volto ao que nublou o começo do poema...
na verdade são o correr dos anos
são as ameaças à saúde 
e as utopias resistentes que brotam de novo
emergindo de uma brisa que ficou entre dunas 
e entra  por  janelas abertas
Daí  me escondo pois 
o que antes me refrescava agora me adoece

Envelheço e ponto.
Nublo a narrativa
Pois estou tonto

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dei de venerar meus dedos

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DEI DE VENERAR MEUS DEDOS

Estes mesmos que ajudaram

a escrever tantas tolices

E também, sem pressa, dei de olhar para o céu
Sem me redimir dos meus pecados

Dei para gostar de sentir
o cheiro de lenha molhada
que precede a fogueira
e que ainda verde vira fumaça a se somar a esse céu com nuvens
Onde menino supus que meus avós mortos se escondiam

Dei de esquecer o que são versos de pé quebrado
E as lições de francês que aprendi no passado

Dei de esquecer que escrevi bilhetes antigos
E que peguei resfriado por andar sem agasalho
Quando minha mãe clamava pelo contrário

Dei de esquecer que esqueci caminhos de ouro em Minas Gerais
Caminhos em curvas na estrada de Santos
Caminhos acidentados na Transamazônica
E compridos, retos e quentíssimos caminhos
na Belém Brasília

Dei de esquecer o esquecimento
Os antigos jogos do Santos
Os impedimentos nos jogos de várzea
Os poemas sujos feitos na ditadura
As declarações de amor feitas a musas
As rapaduras da amargura
Os vinhos doces em garrafão barato
As batatas doces assadas nas brasas
Os quentões de estourar cabeças
As dores de ouvido, de dente, do peito

Dei de esquecer inclusive
Do arrebatamento
de andar com as emoções cansadas
Exausto de repetir os mesmos erros
E de cometer poemas para o esquecimento...

sábado, 28 de janeiro de 2017

O retorno às neves do Kilimanjaro e da poesia

  Resultado de imagem para neves derretidas do kilimanjaro

 Escrevi mais cedo na minha "rede social" que acho que não precisava de justificativa. Mas justifico. Depois de mais de 30 anos vou voltar a publicar poesia. O que o mundo ganha com isso ? Provavelmente nada. Mas eu tudo... só o alento poético, inclusive o meu próprio, para poder atravessar o mar encrespado desses dias. Por isso, sorry, vocês vão ter que me aturar. Não creio que seja um exercício assim tão insuportável na medida em que andamos infestados de má poesia...mas para mim é paliativo...inclusive vem livro em breve. Depois de tantos anos.Bom sábado a todos e vai aí uma amostra grátis para saber se eu paro ou continuo...


À NOITE DORMIMOS 

nas velhas encostas derretidas
do Kilimanjaro

nos barcos sobre o velho 
e quente Amazonas

nos leitos de vida
de antigos hospitais japoneses

nas redes emprestadas
por fiéis fregueses
nos tatames rituais chineses

e dormimos tantas vezes
para nos sentirmos acordados
que esquecemos de por vezes despertarmos

aí sim a vida fica com sono
e acordar ao invés de ser uma saída
passa a ser tão só despedida

da vida que ao deixar de ser sonhada
não alvorece, é apenas madrugada...



                                                                9/01/2008

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Cinza?!!! não! cor na cara dessa gente!



         Acabo de voltar de um cartório. Móveis cinza, balcão cinza, pessoas cinza. O Citibank tem móveis cinza e seu atendimento é cinza também assim como todas as redações se transformaram em ambientes cinzas, descoloridos, anódinos e acéfalos.  Cinza não é apenas uma ausência de cor. É um horror , um estado de espírito, uma conduta. Não é a toa que tantos carros são cinza em São Paulo. Em que pese ser um factoide o que esse prefeitinho Dóriana está fazendo acerca do embate com grafiteiros e pichadores é revelador o apreço que ele tem ao cinza. O que essa gente tem contra o colorido, as camisas de Bali ( ou de Jorge Amado ou de Roberto Drummond) , as estampas africanas, as cores de Miró, Dali, Gauguin , Antonio Henrique do Amaral e por aí vai ? Não basta um país acinzentado com temerário Temer, com o carola Alckmin e ainda vamos descolorir São Paulo ? a bandeira do Brasil ? cor na cara dessa gente ! 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O último pôr de sol de Jericoacoara

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    A triste e cretina tecnocracia vigente no país desde sempre, que anda de braços dados com o tal "desenvolvimentismo", não ergue, mas sempre destrói coisas belas com uma voracidade impressionante. Isso faz com que se reduzam os paraísos tropicais brasileiros, porque com a desculpa de que eles devem ser acessado por muitos, na verdade leia-se "destruído" por muitos.
Um dos exemplos mais notáveis disso é o ex-paraíso de Jericoacoara, Ceará, quase inacessível há trinta anos e que agora vai ter aeroporto aberto para despejar hordas de turistas predatórios em vôos charters. Estou generalizando? então esperem para ver. O que tem sido lamentado por muitos é festejado, obviamente, pelo senhor André Facó, secretário da Infraestrutura do Ceará. Não passa pela cabeça dessa gente preservar um paraíso como aquele de maneira sustentável. O "negócio" é encher, transbordar, faturar.
Conheci Jeri há sei lá quantos anos. Logo após uma das visitas cometi uma crônica para o jornal O Estado de S. Paulo,  há vinte anos, onde louvava, entre outras coisas, o famoso pôr de sol de Jericoacoara. Evidente que ele vai seguir, mas certamente contemplado por um tipo de turista mais interessado em barulho e balbúrdia do que contemplação. Por que nossa noção de progresso é tão atrasada? Como nada podemos fazer me resta então um saudosismo barato reproduzindo abaixo um trecho daquela antiga crônica:
"Estou no alto da duna mais alta daqui. Enxergo, de longe, na linha do horizonte, o que penso que já esqueci. É certo que vivo a  buscar, correndo contra o tempo. Pode crer que são piegas as grandes coisas da vida. Este pôr de sol aqui é inenarrável. E no imenso mar, que um dia foi português, os raios vermelhos do sol refletidos na água se constituem em uma visão tão bela que juro que jamais serei o mesmo. São piegas as boas coisas da vida.
Estou no alto da duna mais alta daqui e descarto os dias inúteis, rodo as horas para trás e tento ajeitar o meu caminho para encostar no de quem interessa. Subo na duna com um sentimento de paz e arrependimento. Amo a todos que estão lá embaixo embutido que estou de uma paz imensa. Amo os meninos que correm atrás de uma bola furada, amo o burrico que transporta cocos verdes, amo os namorados que passeiam de buggy e as estrelas que despontam. Amo o estresse que deixei para trás, as pechinchas de amor, o peixe grelhado que comi, o cobertor curto que não esconde os pés nas noites de frio.
Estou no alto da duna mais alta daqui e me lembro que em muitas situações da vida acabei saindo, a contragosto, pela porta de trás.  Deixei casas vazias de sentimentos, enchi ambientes tristes com falsas alegrias, funguei, reclamei, expus minhas dores de dentes a um coro de descontentes. Li muito buscando saída em outras biografias para a minha própria vida difusa. Fui muitas vezes um chá que ferveu com várias ervas. Bebi de muitas infusões e dei de beber aos outros destas mesmas poções. Daí, me desculpe a rima barata, vieram as confusões.
A duna é a mais alta daqui e eu não subestimo mais nenhuma fração. Fração de segundo, minuto. Agora é hora. De esfarrapar, costurar, cerzir. É hora de saber para onde ir porque, olhando do alto da duna, descubro que acabamos não indo a lugar nenhum. Às vezes, por medo do bolo, a gente deixa a fatia mais doce sobre a mesa. Aí vem o gato e come. Às vezes a gente adormece e alguém mais desperto leva o doce no bucho.
Do alto da duna vejo os barcos voltando, as velas se recolhendo e eu fico tecendo um lençol imenso onde está estampada minha auto- estima. Nunca auto - piedade. Os barcos voltam, sargaços estão nas redes misturados aos peixes miúdos quando crianças descobrem uma arraia graúda. Surpresa. A vida é piegas porque ao contrário de Deus, como disse o poeta uruguaio El Sabalero, os homens, na sua existência, tem muitos primeiros dias.
Do alto desta duna tenho mais um primeiro dia. Uma nova descoberta. Descubro que não adianta a gente querer para dar certo. A vida é feita de desvios, muitos grãos de areia que entram nos olhos. E quando coçamos forte demais choramos. E quando choramos nos envergonhamos de nossas fraquezas.
Nesta minha pobreza de homem comum encosto as costas na areia quente e olho para o céu. Não vejo o Cristo Redentor nem anjos que tocam trombetas. Esse céu, cearense e globalizado, só dá espaço a um Boeing de destino incerto. Minha vista se nubla pois não sei para onde ele vai mas suponho ter ele destino certo ao contrário de nossos caminhos. Nunca um Boeing foi tão lindo com o sol em cima.
Minha embarcação perdeu o lastro para ir muito longe. Preciso ancorar um tempo justo em algum porto e me reabastecer. Aqui eu não bebo, não fumo, respiro fundo e me despoluo. Do alto desta duna - a mais alta daqui - quero aprender a pensar devagar, quero reaprender tabuadas que esqueci, quero enxergar Peri correndo atrás de Ceci e sentir que vivo numa terra com palmeiras onde canta o sabiá. Este pôr de sol em Jericoacoara é minha modesta canção do exílio. Um consolo para quem sabe que vai voltar a enxergar o sol se pondo, torto e sem jeito, por trás de todos aqueles prédios da avenida Paulista".
Publicado originalmente no DOM TOTAL. (Clique aqui)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O joio e o trigo da literatura brasileira

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    Durante oito anos e oito temporadas escrevi, dirigi e apresentei os programas “Literatura” e “Mundo da Literatura” originalmente produzidos para a então rede Sesc/Senac de Televisão e veiculados por outras emissoras educativas em canais abertos e fechados Brasil afora. O programa me deu a rara chance de mapear a produção literária nacional conversando com quase todos os autores nacionais consagrados, os então emergentes e os injustiçados.
   Procurei pautar a busca pelos autores pelo critério vago e subjetivo do que considerava boa literatura e não pelo mercado. Isso não quer dizer que não levei ao programa autores do mercado mas não deixei que critérios puramente comerciais pautassem a linha do programa que contava, aliás, com uma equipe eficiente a quem sou grato até hoje.
   E por que faço um balanço tardio de um programa que teve sua derradeira temporada em 2005? Justamente por constatar o quão dinâmico é o tal mercado e quanto ele nos joga goela abaixo tanta “novidade” literária que não é novidade alguma. Se me ressinto da ausência dos programas que fazia a essa altura não é por vaidade e sim porque fiquei distante justamente desse movimento editorial que lança joio e lança trigo com uma velocidade insana que mal dá tempo para a assimilação , digamos, dos “novos valores”. Assim sendo nada sei sobre autores – como Julian Fuks e Noemi Jaffe – que surgiram após o fim do programa. Por isso toda vez que não quero dar bola fora a respeito peço consultoria a gente mais antenada com as novas freqüências como a prezada Mirna Queiroz da revista Pessoa.
    Diante desse panorama visto da ponte muita coisa pode então ter me passado desapercebida e posso ter cometido erros em meu juízo de valor sobre a recente produção literária nacional. Mas algumas de minhas impressões – hoje de um observador mais desatento se comparado com o profissional que fazia os programas de literatura - são corroboradas por outros autores mais atentos do que eu ao atual panorama. Dia desses, por exemplo, encontrei com o escritor Ronaldo Cagiano em uma livraria em São Paulo e ele concorda comigo que continua a vigorar a lei do mercado nas relações entre autor-editora-mídia e que muito joio é vendido como trigo num universo onde a pretensão dá o tom. Ou seja, não estou sozinho em minhas “incautas” e atuais percepções. Outros autores como Ademir Assunção, Márcia Denser, Roniwalter Jatobá, Nelson de Oliveira e André Sant’Anna pensam parecido embora eu não tenha procuração para falar em nome deles.

    Volto a esse tema especialmente por suas questões que me causam grande perplexidade: quem lê tanta “novidade” em país de baixas tiragens? O que de fato tem relevância já que na minha modestíssima opinião muito do que de melhor foi e é produzido anda não só fora do catálogo como não tem a devida divulgação. Cito nomes a esmo que vão dos esquecidos e talentosos Ricardo Guilherme Dicke, Campos de Carvalho a Samuel Rawet passando por Vicente Cecim , os próprios já citados Roniwalter, Ademir Assunção e Márcia Denser a Oswaldo França Jr. , Roberto Drummond , Julio César Monteiro Martins, Joaquim Nogueira, Marco Antonio Lacerda e muitos mais. Repito que lancei nomes a esmo e me desculpo por omissões porque a lista, infelizmente, é grande e como lembrou Cagiano em nosso encontro boa parte dos autores aqui citados sequer foi lida ou assimilada pelos que agora são vendidos como “novidades”.

   Criticar as “novidades” não é um gesto rancoroso, pois são elas, afinal, que dão alento ao mercado que precisa ter o que vender. O que me incomoda é que a “novidade pela novidade” seja um critério de excelência quando na verdade é apenas um critério de precedência. Sobretudo porque na maioria das vezes vende-se o tal joio como fino trigo. O pior é não sobrar espaço algum para a reflexão, a leitura atenta e digestão de tantas publicações para tão poucos leitores.O resultado disso tudo no entanto parece não incomodar grande parte desses “novos” autores que (ao contrário de veteranos escaldados) ostentam seus galardões de “escritores” sem o menor constrangimento e sem ler, sem sequer reconhecer que não inventaram a roda agora e que não deveriam vender como novidade o que é apenas reciclagem. A literatura brasileira contemporânea, por sorte, não começou com eles como querem fazer supor.
    Espero que em algum momento exista pois a tal reflexão sobre que tipo de ficção o Brasil está produzindo porque a essa altura- gostaria de estar equivocado – parece que o que anda sendo publicado é bem pior do que o período entre 1998 a 2005 quando eu fazia programas de literatura para a televisão.
(publicado originalmente no DOM TOTAL. (clique aqui)

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