LEITURAS COM A LUA EM CÂNCER



   Talvez seja a lua em câncer,dizem as mulheres sensíveis com viés de entendidas em astrologia.Mas há um pedaço de mim dado ao saudosismo,lirismo,as nem sempre doces recordações de tempos d'antanho.Há amigos que dizem que vivo nostalgias de tempos que não vivi.
   Pode ser tudo isso misturado mas sou mesmo dado a apreciar escritos que tenham como mote matéria de memória.Seja ela inventada ou não.Por isso sempre adorei Rubem Braga, Paulo Mendes Campos,Joel Silveira, Manuel Bandeira, até a "densa" Clarice Lispector ou o bom e velho Machado de Assis. Entre os gringos essa tendência me faz feliz em Paul Auster,Philiph Roth ou mesmo nas doces recordações de lugares visitados e passados que traz Paul Theroux.Tudo isso para dizer que quase fecho o ano sem conseguir transpor a marca dos 20 livros lidos o que para mim é frustrante na medida em que recordo a velha frase de Schopenhauer que diz que "seria bom que quando comprássemos livros também comprássemos o tempo para lê-los".
     Sem querer ser afetado digo pois que 20 livros, um pouco mais, um pouco menos é pouco para quem ainda tem uma grande biblioteca para "consumir". Como diz meu amigo publicitário Fernando Costa "não vai dar tempo". Mas fiz o possível nesse desgastante 2018. Vou poupá-los da minha lista mas fica o registro feliz de ter conseguido ao menos ler lido títulos há muito acalentados mas nunca enfrentados como o magnífico "Nada de novo no front" de Eric Maria Remarque ou o clássico "A Carne" de Júlio Ribeiro que por seu conteúdo "carnal" tanto furor causou no fim do século 19.
      Mas o livrinho que motivou esse post , o sensível, o lírico, o poético livrinho que fez evocar a minha tal lua em câncer foi o mais fininho que li esse ano.Chama-se "Por parte de pai" de Bartolomeu Campos Queirós autor mineiro já falecido e dotado de superlativo lirismo na maioria dos seus escritos. Lamento não tê-lo conhecido ou entrevistado quando fazia programas de literatura para televisão. Mas também seria preciso mais tempo que as 8 temporadas dos programas para poder falar de tantos autores relevantes. Arrisco até a dizer que Bartolomeu devia ser mais falado, mais lembrado nesse país que paparica tantos falsos brilhantes literários. 
   "Por parte de pai" é uma pequena joia que me foi presenteada natal passado pelo jovem amigo Gabriel José e aproveito essas mal traçadas linhas para agradecer mais uma vez o presente e a dedicatória do Gabriel porque esse belo livrinho (e o diminutivo empregado é francamente carinhoso) chacoalhou mesmo esse meu coração com a lua em câncer. Viver pode ser muito perigoso escreveu outro mineiro, o Guimarães Rosa.Mas ler a vida faz tudo muito mais gostoso. Lamento quem não aprender esse doce deleite. 

ps. ao agradecimento do presente útil do Gabriel soma-se outro à sobrinha Manuela que me deu um singelo passaporte de leitura- também no Natal passado-onde pude registrar as minhas leituras do ano o que eu tinha como hábito fazer em tempos remotos e em toscos caderninhos improvisados. Não é que às vezes a envelhescência abraça novos velhos hábitos da adolescência ? E boa leitura a todos é o que peço sempre...

Comentários

Unknown disse…
Muito gratificante ler estas linhas, uma vez que fiz parte do texto, poder contribuir para acalentar esse coração inquieto e essa mente insaciável me fez dar-lhe esse humilde mas muito simbólico presente!
Alves disse…
Bartolomeu, é um autor maravilhoso!
Ricardo Soares disse…
Gabriel, suponho que vc tenha feito o modesto comentário de contribuir para acalentar...sou grato...abs... Tiago : Bartolomeu é mesmo um autor maravilhoso...devia ser mais reconhecido.

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