TODOS OS POETAS DEVERIAM MORRER NO SÁBADO

 


eu, a Titina e o prezado Raul Christiano


TODOS OS POETAS DEVERIAM MORRER NO SÁBADO

  

Todos os poetas deveriam morrer no sábado. Homens ou mulheres porque não tolero esse termo “poetisa” que elitiza o encontro da mulher com a palavra , o verso, a epifania ,criando um abismo acadêmico e anacrônico que nada combina com poesia.

Dito isso, repito: todos os poetas deveriam morrer no sábado, especialmente no Brasil, onde o cheiro de feijoada ou churrasco traz à morte um tempero maroto , imemorial, cheiroso ,um ritual de muitos Quincas Berros d’água em busca de funerais alegres e destemperados, regados a acarajés, abarás, cervejas geladas.

Porque é sabado e no dia seguinte será domingo e a vida vem em ondas como o mar como dizia o poeta Vinicius hoje sem ver os bondes que andam nos trilhos de Santa Tereza e sem saber
que Nosso Senhor Jesus Cristo  morreu na cruz para nos salvar, mas foi na sexta- feira. Porque o sábado é dia da morte dos poetas e quando morre um deles não quero mais me entristecer e sim comemorar a poesia que desliza eterna entre golfadas imemoriais. Porque a poesia, mesmo a pior delas, tem um recado de otimismo e de confiança na melhora da humanidade mesmo que soturna como a de Augusto dos Anjos.

Hoje, na cidade de Niterói, bem ali de madrugadinha ainda , ao lado do Rio ,morreu uma poeta que eu chamava de Titina, mas que tinha o pomposo nome de Thereza Christina Rocque da Motta, de ascendência nobre e ideais poéticos mais nobres ainda. Desnecessário dizer das suas qualidades e virtudes como poeta e como editora. Mas necessário lembrar que dedicou mais de meio século dos seus 68 anos de vida ao fazer poético. Como poeta e como editora. Poucas vezes vi alguém tão dedicado a uma causa como ela. Uma causa poética que a fez viver, respirar, falar e sonhar poesia todos os dias com o perdão dos clichês que aqui embuto.

Eu perdi uma referência na minha trajetória de escriba por não poder mais trocar com ela tantas opiniões convergentes ou não sobre o tema “poesia”. E não acho que seja o caso aqui de ficar triste, sinceramente. “Hoje é sábado, amanhã é domingo. Não há nada como o tempo para passar.Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal”como dizia ainda o Vinicius . Poesia e poetas como a Titina nos livram do mal. Ao partirem deixam o mundo em pior estado. Mas no estado de graça por ter partido no sábado  é “impossível fugir a essa dura realidade. Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios. Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas.Todos os maridos estão funcionando regularmente.Todas as mulheres estão atentasPorque hoje é sábado”. E amanhã ,ali na esquina, será domingo com a Titina observando o alumbramento de sua passagem sobre a Terra.

 

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