UM DIA TEREI SAUDADES

        


Um dia terei saudades

 

 

Um dia terei saudades de você, miúdo, me levando café e presente de dia dos pais na cama/ terei saudades dos postais que enviei e recebi/ das cartas que não respondi/das coisas que deixei para amanhã

Um dia terei saudades do dia amanhecendo e eu diante da Baia de Guanabara/entupido de chocolate e melodrama/ vida tóxica num solar fim de semana

Terei saudades das paisagens que vi pela janela do jipe/na caatinga/ no cerrado/ na chapada Diamantina/ num atoleiro no Jalapão

Um dia terei saudades do derradeiro abraço do meu pai/do intermediário choro de mãe/ das brigas de amor que resultaram em nada / daquilo que na infância eu escondia debaixo da escada

Terei saudades da primeira vez que li Pessoa/ ou entendi o começo, o meio e o fim dos sertões do Rosa/ da primeira vez que misturei poesia com prosa/ que vi que diário de viagem podia ser algo muito mais além que bugigangas

Um dia terei saudades das minhas vontades modernistas/dos meus primeiros sonhos hedonistas/ das coxas morenas que não toquei/ da gaita que cobicei, mas não assoprei

Um dia terei saudades dos tempos que queria latir na calçada/ dos meus tempos de gato de botas/dos meus devaneios anarquistas/das minhas conquistas obtusas/das minhas expedições amazônicas/dos meus volteios colombianos inclusive diante das muralhas de Cartagena

Um dia terei saudades das minhas lembranças/das minhas noites brancas/ de vinhos ruins bem degustados/dos cigarros que fumei singrando mares tóxicos/de cozidos portugueses/ cartas de paciência tiradas pelo avô/ missas que não fui apesar de convidado

Terei saudades do poeta 1, circunspecto e calado/ do poeta 2 delirante e irado/ do poeta 3, psicólogo alado/ do poeta 4, de verso curto e confuso/ terei saudade do que aprendi sobre mamelucos e cafuzos/ japoneses e italianos imigrantes

Um dia terei saudades do jovem que fui/ da criança que deixei partir/ do jovem marido ressentido/ do infiel desmedido/ do mistério que tem no coração todo bandido

Terei saudades dos vazamentos de torneiras que nunca evitei/ das inconsistências que não parei/dos textos que produzi para salvar o mundo e que não resultaram em nada

Um dia terei saudades das minhas saudades/de vontades que não pude saciar/ do seu sorriso glacial/ seu grito parado no ar/ um dia terei saudades das saudades que não posso contar...

 

Ricardo Soares/ 17 de maio de 2026- 3 h 55 min

 

 

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