FRADIQUE COUTINHO
rua Fradique Coutinho,vila Madalena Sp, em 1953
FRADIQUE COUTINHO
Fradique
Coutinho é o nome de uma rua na cidade de São Paulo. No bairro de Pinheiros/ Vila Madalena.
Nada sei sobre o sujeito que dá nome à rua. E nem quero saber. Ele não serve a
essa história. A não ser pelo fato de que é a rua onde morava o Marcelo quando
morreu depois de me apresentar Sandor Marai, o autor húngaro.
Há
amigos que insistem em não morrer, mesmo que mortos estejam. Marcelo é um
deles, talvez o maior. Mesmo morto segue vivo e eu converso com ele. E
bastante. Tomamos negronis, falamos
sobre livros e arquitetura porque Marcelo foi e é arquiteto. Assim como o
Cláudio, dono de uma pousada em Cunha, é o amigo morto mais vivo com seus olhos
baços e seus dedos manchados de nicotina.
Agora,
em junho passado, completei a idade que o Marcelo tinha quando morreu. De tanto
fumar eu creio. Eu não estava em São Paulo quando ele faleceu, mas soube que
serviram uísque do bom no seu velório atendendo a um pedido que ele fez por
escrito quando soube que não ia sobreviver ao câncer.
Conheci
Marcelo porque ele namorou um tempo com a Lia, uma velha conhecida e acabei por
me tornar mais próximo dele do que dela. Nossa amizade sobreviveu bem e se
solidificou mesmo após o rompimento dele com a Lia.
Em
algum lugar entre os guardados dele ficaram as plantas arquitetônicas da minha casa
que com a sua morte estão para sempre
perdidas. Ele as teria guardado? Os filhos
do Marcelo jogaram fora? Agora não importa mesmo que essas plantas servissem de
guias para os labirintos ocultos e aparentes da minha casa. Onde, por exemplo,
foram parar aquele chapéu Panamá ou um agasalho
esportivo do time olímpico de Cuba que me foi presenteado em 1995 em Mar
del Plata?
As
plantas arquitetônicas do Marcelo poderiam desvendar esses mistérios, mas eles
não tem mais importância agora que o Marcelo apesar de vivo segue morto.
Durante a pandemia ele quis me visitar, mas eu, temeroso, não o recebi e menti
quando disse que não estava em casa quando ele passou aqui perto. Fiquei com
medo do contágio embora o Marcelo não estivesse doente e eu nem sei agora se eu
o receberia mesmo sabendo que seria o nosso derradeiro encontro.
Aliás
não lembro claramente de nossa última conversa ao vivo. Se foi antes ou depois
da pandemia, esta terrível linha demarcatória que seccionou nossas vidas e roubou
nossos meses e anos. Portanto lembro dos drinques no apê dele na Fradique Coutinho
, mas não lembro exatamente quando foram.
Só
sei que bebíamos um pouco , no horário do almoço e depois íamos procurar um restaurante
nas redondezas e ele sempre tinha ótimas opções visto que, excelente
cozinheiro, tinha especial critério para suas escolhas. Até por conta disso eu
me intimidava em cozinhar perto dele na medida em que me viro com o trivial
simples e ele é, sempre foi, um verdadeiro chef.
Dizer que essas mal traçadas linhas são uma homenagem ao Marcelo é tolice,
mas foi por pensar nele com carinho que me inspirei em fazê-lo. Sentindo o
aroma da divina comida que ele fazia.
Por
que entre tantos amigos escolhi o Marcelo para protagonizar essa narrativa? Talvez porque assim como o Cláudio de Cunha ele
seja o amigo morto mais vivo que eu
tenha. Seu sorriso de soquinhos e sua voz rouca de fumante continua a me
divertir com seu peculiar e muitas vezes ríspido senso de humor.
Eu
o sigo caminhando pelas ruas de Pinheiros , ele ofegando mas parecendo saudável
embora a doença já o comesse. Estranhei muito quando trocou sua caminhonete
Nissan de caçamba longa por um diminuto carrinho italiano mais afeito a arquitetos pedantes que aparecem em
revistas de decoração.
Marcelo
que sempre me chamou de caminhoneiro era, também, esteticamente, um arquiteto
caminhoneiro embora fosse muito elegante. Me faço entender? Talvez não. Mas,
por falar em entendimento, eu mesmo me pergunto porque escrevo sobre o Marcelo
e não sobre tantos amigos vivos ou mortos.
Talvez, redundo aqui, por ele ser o mais vivo dos meus amigos mortos
tirando o Cláudio de Cunha e sua pousada cercada de cachoeiras.
Numa
longa caminhada com o Marcelo e outros amigos e amigas pela serra da Bocaina,
em tempos idos e vividos, nunca poderíamos imaginar, entre chistes e risos que
um dia , numa madrugada fria, eu estaria aqui deitado na cama rabiscando essas
lembranças num caderno velho que me foi presenteado certa feita por uma ex-companheira que apesar
de viva para mim está morta enquanto o Marcelo morto para mim está vivo.
Essa ex-companheira muitas vezes esteve aqui ao meu lado , nessa mesma cama, testemunha de minha faina noturna rabiscando em cadernos escritos que jamais iria publicar. O tempo é mesmo um vácuo, um desvio, uma ausência de lógica onde as lembranças se fundem , respiram juntas ou separadas e agora nem mais me lembro se o Marcelo chegou a conviver ou conhecer essa ex-companheira que segue morta estando viva enquanto ele morto está muito vivo e presente a me provocar sorrisos de boas lembranças. Agora me coloco como derrotado, mas quando eu era vitorioso não sabia que era. O Marcelo sabia.


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