Ignácio de Loyola Brandão


     É efeméride , eu sei. Mas relevem pois é uma efeméride literária e o "homenageado" merece. Hoje Ignácio de Loyola Brandão, prolifico escritor brasileiro, nascido em Araraquara(SP), completa 90 anos. Não pretendo aqui fazer nenhum compêndio sobre a vida e obra do autor de "Não Verás País Nenhum" e muitos outros livros. Pretendo , isso sim, louvar lhe a paciência e generosidade que desde sempre teve comigo e (suponho) com outros jovens pretensos escritores.

    Não lembro quando o conheci e nem quando fiz a primeira de muitas entrevistas com ele seja para jornais, tv ou revistas. O que sei é que durante muito tempo me correspondi com ele . Antes, durante e depois de sua passagem pela Alemanha como bolsista literário  entre março de 1982 e agosto de 1983. Ele morou em Berlim Ocidental , a convite do Programa de Artistas Visitantes do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).

     A carta acima, com belo logotipo de seu nome ( nunca perguntei quem fez) é datada de 6 de novembro de 1981 e sempre generosa e espessa tem paciência em trocar comigo impressões sobre o fazer literário quando, por exemplo , me responde :  "Você fala em disciplina. Para mim (outros acham que não; respeito, mas não concordo), disciplina é essencial. Se você dá ao patrão oito a dez horas diárias, tem que dar a tua literatura algum tempo, com igual dedicação. Porque a literatura é a tua verdade, o que te leva; e o patrão é o patrão, mera sobrevivência..."     E por aí ele foi, com sábios conselhos que nunca ouvi. Ou melhor, nunca apliquei. Talvez isso explique porque Loyola é dos principais autores brasileiros vivos( segue ativíssimo) e eu sigo sendo um mero aprendiz de feiticeiro.

    Perdi a conta de quantas cartas trocamos em tantos anos numa época que cartas eram fundamentais e não esses rudimentos de escrita entre as pessoas e autores que são as redes sociais, os "zaps" e os e-mails. Essas cartas todas estão perdidas entre os monturos de papel que se acumulam aqui em casa e tenho conseguido resgatar algumas delas para meu deleite. Eu tinha vinte e poucos anos. O Loyola menos de 50. Guardo e lembro com carinho disso tudo no dia dos 90 anos dele. 

    Há pouco tempo o encontrei num restaurante de uma sobrinha dele na vila Madalena. Apoiado numa bengala, mas bem disposto e risonho, lembramos cenas idas e vividas. Das muitas que ele acumulou na vida como autor generoso com os mais jovens e os pouco conhecidos. Jovem já não sou, pouco conhecido sigo sendo. E que bom que ele segue jovem e muito conhecido transpondo a barreira dos 90 com disposição e talento. Aquele abraço generoso Ignácio de Loyola Brandão ! 

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