VOCAÇÃO TARDIA
VOCAÇÃO TARDIA
A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha acabado de
ser bombardeada e o Cristo Redentor adernou para o lado direito, partido,
expelindo pedras e fosseis antigos e fenícios. O mar não avançou , mas a lagoa
Rodrigo de Freitas começou a ferver devolvendo os cocos que jaziam depositados
no seu fundo.
São seis horas da manhã e mais dezesseis minutos e as velhinhas
de Copacabana não saíram para comprar pão enquanto eu perdia a hora da missa. Na
orla corpos boiavam à beira mar enquanto os aviões em fuga brilhavam no céu
carioca. Era o apocalipse sem cara de apocalipse e o cheiro de querosene de aviação
se fazia sentir do Leme ao Pontal.
E, por falar em avião, o aeroporto Santos Dumont deixara de existir,
fenda aberta em meio ao mar que já avançava, quase grudando na rodovia
presidente Dutra que não mais trazia caminhões vindos de São Paulo.
Que forças complacentes eram essas que não combatiam o invasor
e nem protestavam nesse raiar de dia tão fumegante e nada altaneiro? Acordo nesse dia desesperado e vejo o meu Rio
de Janeiro bombardeado, Sambódromo e arcos da Lapa destruídos, mistério das
poesias reviradas, farmácias diluídas, rios de esperma e de sangue canalizados,
tanta literatura barata jogada fora em meio a chope choco e mulheres erradias.
Descubro minha vocação tardia de contador de histórias e na
varanda suja do pequeno apartamento de Laranjeiras eu rabisco a narrativa sem
esperança de dias melhores que virão. O apocalipse, de novo ele, é motorizado e
as pranchas de surfe estão todas estacionadas no Arpoador que hoje amanhece
diferente, pouco literário e mais nefasto.
Um indigente perde o dente e faço a linguagem dos sinais
para ser entendido. Que fio de puxa dentro de mim? Que liturgia se processa na
palavra pouco divina? Na sinagoga da esquina ?
De repente a maresia perde o cheiro e o tambor do revólver trava. Agora
tem tanta coisa para contar e o verbo cessa. Quem iria imaginar isso? O morro
da Urca desmanchando? a ponte Rio-Niterói colapsando?
Apesar da tragédia nunca me senti tão carioca , tão bom a
beça, tão jogador de futevôlei , tão garota de Ipanema. Aí está o problema. Pois
passei a fundir o Meier com Bangu, vila Isabel com largo da Carioca, Tijuca com
Belfort Roxo, toda a geografia bagunçada e fragmentada. Um Rio do avesso, do
começo sem um fim, um vinde a mim os alquimistas e cafajestes, pastores de maus
rebanhos. E agora, com a cidade bombardeada, a quem se reza se até o Cristo
está capenga?


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