O AMOR É UMA POMBA GORDA

 

(mais uma crônica das antigas...essa de 23/11/1998)

O AMOR É UMA POMBA GORDA                                                             

          Voa a pomba imunda , vagabunda . Voa a pomba bruta quando descendo a ladeira de asfalto quente  um carro vermelho quase a atropela. Suas penas carregam doenças , piolhos , machucados resultantes de restos de clipes com os quais constrói seu ninho . A pomba imunda, senhora absoluta da sujeira urbana. Ave daninha à busca de lixo ou de restos de vômitos para levar aos filhotes horrendos.

         Sei eu que a pomba imunda e absoluta é esta ave feia de olhos miúdos que pode ser a mais fiel tradução destes amores que tanto pedem e cobram entre os desencontros de horários, faróis vermelhos e congestionamentos. Amores feitos de recuos e avanços minguados. Amores que deixam recados em impessoais secretárias eletrônicas entre a chegada da rua e a saída no dia seguinte.

         Então nos vemos entre teu exame de Papanicolau e o meu teste na esteira ergométrica. Então nos vemos entre infartos e hipertensões. Nos vemos entre o raio- x e o cateterismo , entre o vídeo que você alugou mas não viu  ou então depois daquela pizza que eu pedi ao telefone e comi fria porque morria de preguiça de sair de casa para enfrentar o trânsito noturno , os assaltantes e os guardadores de carros.

         Então vamos trepar aqui mesmo, dentro do carro, logo depois que você sai do serviço. Ali na rua meio deserta, correndo todos os riscos, porque se formos trepar em casa você vai querer dormir ao meu lado e eu nunca sei se durmo com uma estranha ou se te conheço além dos meses de convivência. Porque se você dormir vai querer usar minha escova de dentes no dia seguinte, não vai achar muita graça na minha pasta de dentes sabor de menta e vai implicar com o sabor canela do meu antisséptico bucal.  Se dormir ao meu lado vai ter que acordar mais cedo e vai cismar de me dar um beijo matinal com bafo de vinho e cigarro.  E vai acordar alegre, solar, fugidia, enquanto eu , animal noturno, quero a máscara de sono para continuar sonhando . E se acordar do meu lado vai querer olhar minha bunda e minha cueca branca velha e deprimente ,aquela com o elástico bambo que faz a alegria de minhas bolas murchas e confortáveis. Vai acordar cedo e vai querer tomar um copo de água em jejum - eu que adoro Coca- Cola quando levanto - e fazer chá de camomila sem açúcar para me levar na cama. Eu que adoro chá preto e melado.  E vai deixar sobre a mesa bagunçada de minha cozinha biscoitos de aveia e mel.Eu que adoro cream craker com salame napolitano .  Eis o que é a intimidade. Uma promiscuidade que pode gerar filhos e problemas. Por isso somos esta pomba urbana, imunda e gorda . Avezonas egoístas.

         Sim, são adoráveis tuas saias curtas que revelam as coxas duras e brancas. Coxas que recebem as minhas mãos com caridade e as conduzem ao caminho de uma xoxotinha deliciosamente úmida e inchada que me lambuza os dedos e implora a penetração.  Mas se te ponho de lado no banco do carro e te finco fundo o meu pinto carente gozando pouco depois é porque mesmo você teme um amor mais folgado entre lençóis macios e cheirosos que prenunciam um sono pós coito que vai gerar um despertar constrangedor. Se contar que vai adorar ainda assim estará mentindo pois nós, as pombas, temos medo dos ninhos confortáveis. E se sonhar acordar vestindo um velho camisão meu e indo descalça para a cozinha - onde vai me preparar torradas de pão velho e café solúvel forte - digo que isto pode ser bom, mas é miragem.

         E quanto à sede que sentimos, os corações que disparam dentro do peito -o seu comprimido pelo sutiã preto dois números menor - aquela falta de ar são sequelas de amores antigos, provavelmente não correspondidos.  Por isso amo odiar as tuas unhas, teus pés mal feitos como gárgulas que se projetam no topo de igrejas medievais. Por isso abomino tuas roupas sóbrias, tuas sombras, batons, o rímel que despenca.  Por isso gosto de teu cheiro apenas nas duas primeiras horas depois que te vejo. Por isso amo amar minha privacidade, minhas partidas de videogame, minhas enormes e contemplativas masturbações que visam a vizinha solteira do apartamento de cima. Por isso odeio você odiar a palavra “punheta”.

         Sei que de madrugada você vai querer acordar para beber tônica com gelo e limão e vai fazer xixi de porta aberta como se tivesse prazer que eu escutasse sua urina sonora me ardendo nos ouvidos.  O amor não resiste a mais de dois banhos juntos no mesmo box com resquícios da vodka passada nas tuas olheiras. E não adianta me dizer que a vodka te explode a libido pois não quero sempre o teu beijo de hi-fi.

         Provavelmente você goste de violão e eu gosto de blues ao piano. Provavelmente você ame musicais e Ginger Rogers e Fred Astaire. Eu abomino todas as escolas de sereias e só penso em Esther Williams dando pra mim na beira da piscina.  Provavelmente você venha um dia querer uma viagem a dois aos Alpes suíços e eu prefiro o rebuliço do nado dentro do apartamento. Provavelmente você aguarde um grande acontecimento, uma secreta mirada, um mirante nordestino de onde se enxergue uma praia tropical. Eu adoro o ócio, o vício e o carnaval pela televisão.  E é quase certo que você venha a ser tomada de enorme ternura pelas pombas que eu considero ratos alados propícios para a morte. Que sorte que em meio a tantos desencontros nós não nos encontramos.  

    23/11/98- 18h58 min           

 

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