URROS DENTRO DE UM CONTAINER
URROS
DENTRO DE UM CONTAINER
Dentro
de mim mora um banjo
Vertigem
visionária
No
rumo inverso da dor
No
calor do fogão a lenha
Cozinham
meu tropical estupor
Vejo
soltar dos ossos
As
carnes da minha geração
Levo
a mão à boca e peço:
Deixem-me
ficar por favor
Mas
meu tempo passou
Minha
unha ficou dura
Não
acredito mais em tradição
E
muito menos ruptura
Há
goteiras nos telhados
Há
fissuras na estrutura
O
dado e não emprestado
Agora
cobra o preço da fatura
Rios
de rugas contemplam faces
Rio
delas e prescrevo lavandas
Bandas
vieram, bandas passaram
Acreditam
nelas e nos encantaram
Muito
há de novo
Sob
a luz e me projeto nela
Já
com a pele cansada
Vou
do ABC a Roraima
Já
não procuro quase nada
Subo
num burrico
O
burrico sobe num elevado
Nas
frestas dele brotam crisântemos
E
um trio elétrico
Dá
choque nos passantes
Sob
o signo de virgem
Erro
outra vez nos detalhes
Tenho
gases e suores
Minhas
mãos bicharam
E
não alcanço meus confrades
Esqueci
preços
Não
lembro do que minha mãe morreu
E
aqui o que era doce acabou
Na
rima pobre de pai que não ressuscitou
Ando
vendo como terminam
Meus
amigos e amigas
Não
entendendo como eu
O
senso de humor dos tempos novos
Por
isso tento, faço esforços e testes
Me
atualizo sobre novas pestes
Decoro
o diâmetro de fronteiras e barracas de praia
Sente-se,
pois, na cadeira de vime
Pois
o poema será longo
E
os versos estufados como varizes
Temos
coceiras divinas e noturnas
Fogos
fátuos contam uma vez mais
As
nossas dúvidas maduras
Não
posso com açúcar
Quero
muito afeto
Há
cachoeiras de lama
Vindo
atrás de mim
Há
abismos, grotões, sacos sem fundo
Hastes
quebradas, pães mal dormidos
Por
fim há muitos urros dentro de um container
Que
parte para um porto indeterminado num ponto distante
Pois
se fosse perto não seria uma saga interessante
***
10/2/2022


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