AFINAÇÃO E ARTE DE FALAR SOZINHA

 

                      foto de Oleg Doroshenko

AFINAÇÃO E ARTE DE FALAR SOZINHA

         Na minha vida, por um destes insondáveis mistérios do destino, vi muita gente falar sozinha. Em ruas, praças, dentro de ônibus ou vagões de metrô. Aqui em São Paulo, por todo o Brasil e até fora do país.  Quando adolescente ficava fascinado pela figura de um senhor de longas barbas brancas, terno cinza e sandálias de couro que atravessava o dia inteiro de um lado para outro da estreita rua da Quitanda, no centro velho, falando sozinho.

         Vi gente conversando consigo mesma em lugares improváveis e em outros prováveis como o Manicômio Judiciário, o Juqueri ou a Colônia Juliano Moreira no Rio de Janeiro , habitat durante muitos anos do genial artista Arthur Bispo do Rosário.  Nesses lugares os rotulados “loucos” falavam sozinhos em forma de prece ou de lamúria. Debatiam acaloradamente com o vazio ou argumentavam pausadamente como em uma sala de aula.

         Vi sim tanta gente falar sozinha que passei a achar quase normal. Mas não haverá quem tenha me impressionado mais ao falar sozinho do que Índia, esta enigmática personagem que já cruzou meu caminho pelos lados da avenida Paulista, ao redor do Campo de Marte ou em plena rua Direita.

         Índia tem seus cabelos nos ombros caídos. Grisalhos como o luar que bate no mar de Alagoas às onze da noite. Sua idade é indefinida, suas roupas são surradas e suas mãos conservam uma juventude impressionante. Ela fala sozinha vorazmente. Tem fome da própria palavra e não se incomoda que ninguém a observe. Alguns dizem que ela é uma sobrevivente da Guerra do Paraguai. Outros que é filha da velha índia Lúcia raptada em Mato Grosso por um tropeiro de Rancharia.

         Como uma personagem de Pirandello  as moscas sobrevoam o mau de cheiro de Índia . Mas ela não se incomoda e nem as toca.  Não nota a presença das moscas nem o meu olhar indiscreto. Apenas recorda.  De quando  Maurício de Nassau  aportou em Pernambuco , de quando Jesus entrou em Jerusalém no Domingo de Ramos,  de quando os pracinhas da FEB voltaram da Itália . Lembra de quando atiraram em Carlos Lacerda na rua Toneleros, de quando Getúlio Vargas atirou no coração, de quando Lee Oswald atirou em Kennedy e Mark Chapman matou John Lennon.

         Índia lembra de Padre Cícero lendo cartas em Juazeiro do Norte, lembra dos aflitos olhos de Conselheiro à frente de Canudos , recorda das mãos queimadas de Clarice Lispector e das noites insones de Fernando Pessoa.  Quando fala sozinha não se esquece que o  pai lhe batia com vara de marmelo, vê Lampião iluminando a caatinga com seu ódio de fogo, lembra de São Francisco de Assis atolando suas toscas sandálias na lama .

         Índia fala e chora pelas sete chagas do Senhor , pela lepra do Aleijadinho, pelo câncer que matou Humprey Bogart,  pelas doenças que chegam e não se explicam , pela violência que invade os estádios , pela falta de carinho dentro dos hospitais , pelas alegrias artificiais , por bandeiras desfraldadas em vãos  e pelo tanto de comida que desperdiçam os restaurantes.

         Índia, falarás com os fantasmas em seus delírios?  Creio e não creio. Pois me parece às vezes que conversa com os extraterrestres que desceram em São Tomé das Letras. E não seria ilógico pensar que no fundo sabes qual é o terceiro segredo de Fátima ou  o final da novela das oito. Índia parece falar com os galãs já mortos e enterrados e com aqueles que morreram, mas não sabem.

         Pelos seus lábios doces, muito beijados pelos anos afora, passam frases que me fazem pensar que ela mantém contato com velhos amantes já esquecidos na poeira dos anos. Velhos coronéis do cacau, usineiros pernambucanos, políticos corruptos paraibanos, cantores de reggae jamaicanos.

         Estes mesmos lábios por vezes cantam sambas de Ciro Monteiro, Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa. Declama poemas de Neruda , Drummond , Bandeira, Rimbaud  e Torquato Neto .  Canta blues como Janis Joplin e melancólicas canções de Billie Holliday.  Índia carnavaliza até os seus delírios cantando as cores de Carmem Miranda.

            Índia, que por motivos que desconheço sempre encontro pela cidade, viajou de Zeppelin, naufragou com o Titanic, assistiu até Herodes perseguir os meninos em tempos bíblicos.   Pelo tanto que fala sozinha sua alma é um labirinto de Creta, uma paródia dos tempos modernos, um velho filme de Chaplin que perdeu o foco, um épico de John Ford no tempo em que as diligências eram flechadas. Índia não nega a raça e sai da crônica cantando uma guarânia.  Saudando o tacape, o cauim , o caldo de surubim as andanças dos irmãos Villas Boas e o regresso de Rondon. Afinal, Índia garante: o marechal voltará.

          27/09/95   -  23h 59 min.     

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