CARTA ABERTA A CABRAL
CARTA ABERTA A CABRAL
Prezado Pedro Álvares : nós somos o
Brasil. O temível Brasil dos aborígenes , dos Boitatás e das mulatas
devoradoras de homens. Nós somos a pátria. A idolatrada, salve, salve. Somos o
feijão com arroz, o pudim de tapioca, a moqueca, o mingau e o pirão. Somos
ainda o país do futuro, mas já com um relativo passado.
Nós somos o país dos contrastes, dos
contrários e das contradições. Somos a mistura de sua lusitanidade com o
indigenismo que você começou a incomodar. Somos a África , Espanha, Itália,
Oriente Médio e Japão. Somos a Alemanha, a Rússia , Polônia, um enorme pedaço
ainda desconhecido no mapa do mundo.
Somos as baleias jubarte, as
tartarugas de alto mar, as onças
pintadas em extinção, as antas, capivaras, tucanos e marrecos. Somos os jacarés
do Pantanal, as sucuris, queixadas, cascáveis e corais. Somos as pacas, os
veados campeiros,os sacis- pererês, os bichos do mato que fogem da luz e os bichos urbanos que fazem a luz.
Somos uma terrível e bendita mistura.
Somos os ricos dos Jardins e da Barra da Tijuca, somos a favela Naval, a cidade
de Deus, somos a Rocinha, Alagados, o enorme bairro de Capão Redondo. Somos uma
locomotiva e um carro de boi, uma lamparina e um computador, bolsa de valores e
muitos valores perdidos.
A busca da identidade ainda nos
persegue. Já quebramos cristais e rompemos tabus mas ainda temos toscos
costumes. Comemos com o garfo e com a mão. Catamos lixo nas ruas e erguemos
palácios. Dividimos mal a terra e temos boas colheitas, avançamos na medicina
mas morremos de tuberculose. Somos um imenso corpo cheio de curvas lindas mas
com muitas feridas. Somos o alto e o baixo, o grosso e o fino.
Nós somos as cidades e as serras, as
praias e os borzeguins, os carnavais, a santidade e os botequins. Somos a terra
prometida e o quarteirão destruído, uma árvore plantada e dezenas destruídas.
Somos a cola e o fogo, a vela e o selo, somos o próprio apelo por dias melhores
que não sabemos se virão. Rezamos a Cristo e aos orixás, carregamos terços e
patuás. Somos crédulos e céticos, a morte absoluta e a eterna reencarnação.
Prezado Pedro Álvares. Somos a terra
que revelaste ao mundo português através da pena de Pero Vaz de Caminha. Mas é
bom que te lembremos que aqui já estávamos como a pacata Pindorama quando tuas
caravelas aportaram na Bahia. Entraste em nosso território. Violaste as nossas
entranhas mesmo que com o nosso tácito consentimento.
Hoje somos a pátria do cimento, do
algodão, soja, milho , cana e feijão. Somos uma família e uma desagregação. Um
cinzeiro sujo e uma cidadania em construção. Somos santos beatos e bandidos de
ocasião. Somos Padre Cícero e Lampião.
Somos o Mercado Modelo, a praia de Iracema, a ponte Hercílio Luz. Somos a Urca
e o Anhangabaú, o bondinho do Pão de Açúcar e as areias de Tambaú.
Somos senhoras beatas e virgens
crédulas. Somos devassas passistas e amantes completas. Somos as rodovias de
três pistas e a morte nas estradas. Somos florestas fechadas e curumins que se
banham ao sol. Nascente e poente, bússola ligeira, faca na cintura somos o
carcará e a fartura. Fumo de corda, carne de charque, jegue e avião. Somos a
droga e a cura.
Somos um país que se faz e quase
alcança meio milênio. Somos a esperança renovada e a que desaba do viaduto.
Somos dunas, baralhos, flechas e arcos, músculos e corações disparados. Somos o
pecado abaixo do Equador e os filhos mais diletos do senhor. E como devemos
tratá-lo Pedro Álvares ? Como pai ou padrasto, como protetor ou violador?
Há no país um cheiro bom de comida
feita em forno de lenha. Há comida pronta em forno de micro-ondas e há
fome. Há quem peça e quem tome. Há quem
construa e destrua. Somos pipoca, pamonha, curau e cauim. Somos tapetes puxados
entre o início e o fim , somos a légua tirana e o chá que quebra a pedra do rim
. Somos a diva despojada das vestes. A diva descoberta e desnuda. Somos aquele
riso mais aberto e aquela dor mais aguda.
(O Estado
de S.Paulo, 02/04/1998)


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