Chico Mendes , Zuenir e o país que desconhecemos
Chico Mendes , Zuenir e o país que desconhecemos
Em
quase meio século de lida jornalística e mais de 25 como jipeiro aqui no Brasil
só não conheci o Acre e Rondônia. Em outras
palavras, a trabalho e a lazer, bati perna pelo país inteiro e só me faltaram
conhecer esses dois estados que, convenhamos, não tem a melhor das famas. Mesmo
assim, como não me fio muito em relatos alheios, queria ter ali colocado os pés
neles para tirar minhas próprias conclusões.
Aliás, minto, há relatos alheios nos
quais me fio e um deles são os do Zuenir Ventura, meu ex-chefe, magistral jornalista
recém falecido. Por tudo isso me debrucei tardiamente no seu “Chico Mendes-
Crime e Castigo” publicado em 2004 e que me foi ofertado por ele na Bienal do Livro de Sp em 24 de abril
daquele ano e que eu nunca tinha lido.
Falha minha e antes tarde do que nunca. Após sua morte juntei seus livros e vi
que esse me tinha escapado e nem sei exatamente o motivo. O que sei é que até
por não conhecer o Acre meu interesse no relato do Zuenir sobre vida e morte do
líder seringueiro Chico Mendes veio de novo à tona.
Perdi o sono, como agora, com tanto
detalhe de calor, desolação, barro, mosquitos, estradas ruins e uma trama que mais parece um romance
suarento de Paul Theroux passado num desolador canto do planeta como esse Acre
de Rio Branco, Xapuri , Brasileia e outros cantos remotos. Uma tragédia
ambiental, internacional, paradoxal que não perdeu sua atualidade mesmo depois
de tantos anos do crime perpetrado. O
livro do Zuenir reúne a cobertura sobre o assassinato do Chico Mendes, ocorrida
perto do Natal em 1988, e todos os seus desdobramentos durante os anos
posteriores e não perdeu um centímetro de atualidade. É uma visão crua de um país
que , infelizmente , não melhorou. Antes, o contrário.
“O Brasil não é para principiantes” ou
para amadores como diria o maestro Tom Jobim e a frase, manjada, vem à mente
quando a gente lê esse livraço do Zuenir . Curioso que um cavalheiro longevo, longilíneo,
elegante, quase a efígie de um dom Quixote de Ipanema nos revela um viés
drástico e contraditório desse Brasil profundo e nada glamourizado pelas “lentes
do amor”. Nele se misturam criminosos priápicos, delegados e “otoridades”
corruptas, sangue, seringais e mormaço e , lógico, a sombra de Chico Mendes que
até hoje paira sobre a floresta tropical.
Lendo o livro tardiamente me pergunto
se a luta do Chico foi em vão. Pelo sim,
pelo não fico com o talvez e me certifico que se não conheço nada do Acre (e de
Rondônia) a maioria de nós brasileiros nada conhece do Brasil que está muito
longe de apenas ser uma maçaroca de sertanejos balindo estultices musicais para
agroboys laçadores de novilhos que tentam fazer negócios com
banqueiros da Faria Lima. Desde a ida do Zuenir a essa Amazônia quente e
desigual poucos relatos com essa densidade e detalhes vieram à tona. Faltam
livros de reportagem sobre esse Brasil que não conhecemos, além dos destinos turísticos
e das paisagens instagramáveis. Faltam jornalistas como o Zuenir e sua eterna
curiosidade, seu olhar típico e necessário de eterno principiante. Não faça como eu. Vá ao Acre. Nem que seja esse Acre do Zuenir que do barro soprou
esperança de vida. Escrever com gula e
com fé é uma forma de se eternizar sim. Que o diga “Chico Mendes-Crime e Castigo”.
Ricardo Soares, 26 de setembro de 2026- 2 e 30 da matina.


Comentários