Um poeta nudista e budista

 

O poeta Ferlinghetti morreu em 22/02/2021, quase aos 102 anos e depois da publicação dessa crônica no DOM TOTAL

UM POETA NUDISTA E BUDISTA

        Outro dia em uma raríssima reportagem possível de se ler na "Ilustrada", caderno de variedades da  Folha de S.Paulo, o poeta beatnik americano Lawrence Ferlinghetti aos 97 anos destilou seu veneno e acuidade  mental de fazer inveja em 8 a cada dez jovens brasileiros ou norte americanos.

          A tal reportagem - na verdade uma entrevista feita por telefone- vale muito mais por aquilo que Ferlinghetti responde do que por aquilo que lhe é perguntado; as obviedades de sempre. Pra começar o texto diz que o poeta é o "rei dos beats" título que ele jamais teve ou almejou, mas ao menos dá a pista da importância de sua obra e a contextualiza no tempo e espaço da cultura contemporânea.

         Sobrevivente das tropas que desembarcaram na Normandia no dia D ( 6 de junho de 1944) o poeta reúne histórias passadas incríveis de serem ouvidas mas tem os olhos - céticos- voltados para o futuro .  Diz estar quase cego, "esperando pelo blecaute final”, mas tem a clarividência de comparar Donald Trump com Hitler e Mussolini lamentando que os americanos não tivessem levado a sério uma ameaça tão grave quanto o empresário megalômano ser o presidente dos Estados Unidos.

         Ferlinghetti avisa que está escrevendo um livro parcialmente autobiográfico e adverte aos que ainda não entenderam que o anarquismo sempre foi um ideal e jamais uma ideologia como muitos desavisados pensam. Quase centenário seus pensamentos pessimistas, porém lúcidos, nunca pareceram tão precisos não só na América conservadora como no nosso Brasil devastado por uma tsunami de caretice e desinformação.

         Provocativo, audaz, dentro do dia e da noite veloz  como Ferreira Gullar jamais foi,  Ferlinghetti é aquilo que os pedantes da "Ilustrada" gostam de definir como "instigante". Gente como ele, poetas como ele, fazem uma tremenda falta no mundo e, ainda mais, no nosso país onde "poetastros" pontificam em antologias.  Na entrevista Ferlinghetti ironiza até seu contato com a filosofia oriental  dizendo : " Não sou budista, nem faço meditação. Na verdade, no inverno sou budista , e no verão eu sou nudista". Palmas para ele.

( Dom Total – 07/09/2016)     

           

           

           

 

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