Um poeta nudista e budista
O poeta Ferlinghetti morreu em 22/02/2021, quase aos 102 anos e depois da publicação dessa crônica no DOM TOTAL
UM POETA NUDISTA E BUDISTA
A tal reportagem - na verdade uma entrevista
feita por telefone- vale muito mais por aquilo que Ferlinghetti responde do que
por aquilo que lhe é perguntado; as obviedades de sempre. Pra começar o texto
diz que o poeta é o "rei dos beats" título que ele jamais teve ou
almejou, mas ao menos dá a pista da importância de sua obra e a contextualiza
no tempo e espaço da cultura contemporânea.
Sobrevivente
das tropas que desembarcaram na Normandia no dia D ( 6 de junho de 1944) o
poeta reúne histórias passadas incríveis de serem ouvidas mas tem os olhos -
céticos- voltados para o futuro . Diz
estar quase cego, "esperando pelo blecaute final”, mas tem a clarividência
de comparar Donald Trump com Hitler e Mussolini lamentando que os americanos
não tivessem levado a sério uma ameaça tão grave quanto o empresário megalômano
ser o presidente dos Estados Unidos.
Ferlinghetti
avisa que está escrevendo um livro parcialmente autobiográfico e adverte aos
que ainda não entenderam que o anarquismo sempre foi um ideal e jamais uma
ideologia como muitos desavisados pensam. Quase centenário seus pensamentos pessimistas,
porém lúcidos, nunca pareceram tão precisos não só na América conservadora como
no nosso Brasil devastado por uma tsunami de caretice e desinformação.
Provocativo, audaz, dentro do dia e da noite veloz como Ferreira Gullar jamais foi, Ferlinghetti é aquilo que os pedantes da "Ilustrada" gostam de definir como "instigante". Gente como ele, poetas como ele, fazem uma tremenda falta no mundo e, ainda mais, no nosso país onde "poetastros" pontificam em antologias. Na entrevista Ferlinghetti ironiza até seu contato com a filosofia oriental dizendo : " Não sou budista, nem faço meditação. Na verdade, no inverno sou budista , e no verão eu sou nudista". Palmas para ele.
( Dom Total – 07/09/2016)


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