UM TELEX ANTIGO DO MESTRE ZU
Zuenir Ventura, foto de Leo Martins
UM TELEX ANTIGO DO MESTRE ZU
Como era de se prever enxurradas de
homenagens e textos laudatórios sobre ele foram escritos nas últimas horas até
por gente que pouco ou nada tinha a ver com o seu ideário e suas convicções.
Assim é com a chegada da morte. Todos pegam carona na celebridade do falecido e
, talvez, eu esteja aqui fazendo o mesmo. Me perdoe então Zuenir, mas me somo
ao coro dos contentes e peço licença para também escrever a seu respeito de um
modo infinitivamente pessoal.
Minha vida profissional se divide em
antes e depois de Zuenir Ventura. Dos 18 aos 24 anos me dividi entre o
jornalismo na área de transportes (trabalhando em revistas para caminhoneiros
como “O Carreteiro” e “Boléia”) e
reportagens sobre todo e qualquer tema como repórter e repórter especial de
revistas como “Manchete”, “Pais e Filhos”, “Ele&Ela”, “Diário do Grande Abc”
e a sucursal paulista do então renomado “Jornal do Brasil” onde entrei no segundo
semestre de 1983 e fui “descoberto” pelo Zuenir em meados de 1984. Me explico abaixo
:
Eu era repórter da sucursal e
também fazia algumas reportagens para o caderno B , então editado pelo Zuenir.
Botando reparo em mim o "mestre Zu" solicitou a chefia de São Paulo
que eu ficasse meio que exclusivo do caderno B, voltado a cultura, artes e espetáculos.
Até pouco tempo atrás eu ainda tinha a cópia de uma mensagem de telex que ele
enviou com esse pedido. E assim foi
feito. Por conta disso fiquei uns bons anos na função o que acabou me rendendo
convite posterior para ingressar na equipe inaugural do caderno2 do Estado de
S.Paulo e ir parar na apresentação e redação do Programa Metrópolis da tv
Cultura. Sentimentalóide ou não devo o clarão profissional na minha vida ao
Zuenir que fez o mesmo (revelar e turbinar jovens profissionais) com muita
gente como Joaquim Ferreira dos Santos, Artur Xexéo, o Alfredo Ribeiro (Tutty
Vasques) e tantos outros. Zuenir nutria e era nutrido pelos novos profissionais
que revelava, embora minha antipatia pelo termo “nutrir”.
Aqui
do lado do computador onde redijo estão 5 livros do Zuenir, todos eles com
carinhosas dedicatórias sempre celebrando nossos reencontros ao longo dos anos.
Não lembro quando nos conhecemos pessoalmente além dos telefonemas e mensagens
de telex que trocamos quando ele era meu chefe. Só sei que passei de subordinado
a seu entrevistador em muitas ocasiões, inclusive televisivas, quando me deu o privilégio
desses encontros.
Não vou
estragar a modesta crônica que finalizo com lugares comuns sobre a falta
que ele fará ainda mais nesse desolador cenário atual do jornalismo brasileiro.
No entanto desejo “herdar” dele um pouco mais de otimismo em relação a profissão
e aos “novos” talentos que ainda podem estar por vir. Mais do que um mestre partiu um brasileiro
que era pura gentileza. E como dizia o profeta, “gentileza gera gentileza” que
é artigo que estamos mais do que precisando.
Ricardo Soares, 23 de setembro de
2026, 9 e 14 min


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