UM TELEX ANTIGO DO MESTRE ZU

           

Zuenir Ventura, foto de Leo Martins

UM TELEX ANTIGO DO MESTRE ZU

 No momento em que escrevo essas mal traçadas linhas o corpo de mestre Zu está sendo velado na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, vetusta entidade que pouco ou nada tem a ver com ele até onde se sabe. No entanto se é academia e é de letras o jornalista e escritor Zuenir Ventura, falecido aos 95 anos, estava e está, hoje,  no lugar certo.

         Como era de se prever enxurradas de homenagens e textos laudatórios sobre ele foram escritos nas últimas horas até por gente que pouco ou nada tinha a ver com o seu ideário e suas convicções. Assim é com a chegada da morte. Todos pegam carona na celebridade do falecido e , talvez, eu esteja aqui fazendo o mesmo. Me perdoe então Zuenir, mas me somo ao coro dos contentes e peço licença para também escrever a seu respeito de um modo infinitivamente pessoal.

         Minha vida profissional se divide em antes e depois de Zuenir Ventura. Dos 18 aos 24 anos me dividi entre o jornalismo na área de transportes (trabalhando em revistas para caminhoneiros como “O Carreteiro” e “Boléia”)  e reportagens sobre todo e qualquer tema como repórter e repórter especial de revistas como “Manchete”, “Pais e Filhos”, “Ele&Ela”, “Diário do Grande Abc” e a sucursal paulista do então renomado “Jornal do Brasil” onde entrei no segundo semestre de 1983 e fui “descoberto” pelo Zuenir em meados de 1984. Me explico abaixo :

         Eu era repórter da sucursal  e também fazia algumas reportagens para o caderno B , então editado pelo Zuenir. Botando reparo em mim o "mestre Zu" solicitou a chefia de São Paulo que eu ficasse meio que exclusivo do caderno B, voltado a cultura, artes e espetáculos. Até pouco tempo atrás eu ainda tinha a cópia de uma mensagem de telex que ele enviou  com esse pedido. E assim foi feito. Por conta disso fiquei uns bons anos na função o que acabou me rendendo convite posterior para ingressar na equipe inaugural do caderno2 do Estado de S.Paulo e ir parar na apresentação e redação do Programa Metrópolis da tv Cultura. Sentimentalóide ou não devo o clarão profissional na minha vida ao Zuenir que fez o mesmo (revelar e turbinar jovens profissionais) com muita gente como Joaquim Ferreira dos Santos, Artur Xexéo, o Alfredo Ribeiro (Tutty Vasques) e tantos outros. Zuenir nutria e era nutrido pelos novos profissionais que revelava, embora minha antipatia pelo termo “nutrir”.

         Aqui do lado do computador onde redijo estão 5 livros do Zuenir, todos eles com carinhosas dedicatórias sempre celebrando nossos reencontros ao longo dos anos. Não lembro quando nos conhecemos pessoalmente além dos telefonemas e mensagens de telex que trocamos quando ele era meu chefe. Só sei que passei de subordinado a seu entrevistador em muitas ocasiões, inclusive televisivas, quando me deu o privilégio desses encontros.

         Não vou  estragar a modesta crônica que finalizo com lugares comuns sobre a falta que ele fará ainda mais nesse desolador cenário atual do jornalismo brasileiro. No entanto desejo “herdar” dele um pouco mais de otimismo em relação a profissão e aos “novos” talentos que ainda podem estar por vir.  Mais do que um mestre partiu um brasileiro que era pura gentileza. E como dizia o profeta, “gentileza gera gentileza” que é artigo que estamos mais do que precisando.

Ricardo Soares, 23 de setembro de 2026, 9 e 14 min

 

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