O AMOR COMEÇA





 











O amor começa. Dentro de um ônibus, por exemplo, numa quinta- feira de lua cheia, depois que um estudante saiu da faculdade e encontra com uma professora de português que lê poemas de Fernando Pessoa e Sá-Carneiro; começa quando ela passa as mãos nervosamente sobre as páginas percebendo que está sendo observada e que é tentada a observar. O amor começa quando ela desce do ônibus, muitos pontos antes dele, e lhe lança um olhar lânguido e fulminante; começa quando ele, aflito, quer descer do ônibus em movimento com medo de nunca mais a encontrar.
O amor começa. Dentro de um carro, quando uma estudante de arquitetura se dirige para a universidade e vê de longe, atlético e impávido sobre um telhado, um jovem musculoso e de calção que empina uma singela pipa colorida. Ele lança um olhar ao céu e outro para a estudante no carro e sabe que a partir daquele momento estará sujeito a todos os rodopios do amor. O carro parte e ele, aflito, não consegue descer do telhado, enquanto ela lhe lança um olhar insinuante pelo retrovisor.
     O amor começa. Dentro do ambiente de trabalho com uma pequena animosidade entre ela, resoluta e loira, e ele, seguro e moreno. Se desentendem , trocam farpas, depois insultos e meses depois resolvem marcar um café para apaziguar os ânimos, já que terão que conviver por ali juntos apesar das divergências, porque os dois precisam do emprego. Ele, arrimo de família e filho extremado, cuida da mãe cardíaca. Ela, generosa e paciente, sustenta os grandes vícios do pai alcoólatra e aposentado.
   O amor começa. Em uma festa dançante, quando eles se encontram carentes e suados no meio da pista de assoalhos marcados. Se esfregam ao ritmo dos sucessos dos anos 70 quando ainda não haviam nascido e descobrem preferências em comum por Abba, Santa Esmeralda e Village People. Trocam beijos e carícias, se embebedam, mas se perdem em meio à turba, aflitos porque não trocaram os números dos telefones.
    O amor começa. No verão, quando ela passeia com a avó na Vila Tupi e enxerga no calçadão perto da praia o seu eleito passeando arrogante com um pitt bull preso à coleira. O cão boçal assusta a avó , ela se irrita e ele se desculpa - mais cafajeste do que gentil. Pergunta se ela não vai pedir o número do telefone do cachorro. Os dois corações palpitam e eles trocam olhares, mas pelo resto do verão não vão se encontrar de novo.
    E o amor começa na observação comovida da lista dos aprovados no vestibular, no guichê de uma rodoviária, na fila do check-in do aeroporto, no esbarrão casual no supermercado. O amor começa casto ou com pecado, começa avisando que veio ou toma a gente desavisado. Começa na chuva , no sol, nas grandes alegrias e nas enormes privações. Começa o amor porque acaba. E por ter começo e fim motiva loucuras, paixões, as melhores letras das canções.

Comentários

renato disse…
Ricardão,
Gostei muito do seu Blog. Em especial dessa crônica, meio poema, talvez uma poenica ou uma croema, tanto faz. Muito de autobriográfica, um pouco do que eu também vivi a seu lado.
Enorme abraço.
Ricardo Soares disse…
Renatão... fico feliz que com tanto blog à disposição por aí vc tenha prestigiado e curtido esse meu cantinho. Volte sempre... recordar é viver como diria o clichê mais que óbvio porém necessário...abração
daniela disse…
eiii........
essa coisa que começa......e bem...
se sabe que quero sempre comece de novo apesar de tudo e sempre.
beijos, sorte!!!!!!!!!
Natalia Ramoss disse…
Querido Ricardo, adorei o seu blog, inteligente, de bom gosto e recheado de conteúdo.
Continue assim,pois estamos carentes de coisas boas.
Beijos da Nat
Anônimo disse…
o que eu estava procurando, obrigado
Claudia Kampf disse…
Rs. Desculpe jogar água fria, mas lendo o seu escrito só lembro que muitas grandes lojas, incluindo o Pão de Açúcar, faturam em paqueras em supermercados. Já ouviu falar disto? Em lojas que são abertas de madrugada eles colocam a disposição das fileiras, as músicas e toda uma estratégia para que paquerante e paquerado saiam com uma grande compra e não necessariamente o telefone do preterido(a).
Tentei achar um link, mas não achei nada.
nadia disse…
Ricardo
Teu texto muito lindo, me lembrou um do Paulo Mendes Campos - O amor acaba...http://ainagaki.sites.uol.com.br/textos/mendes.htm
Mas fico feliz que tu me leve a lembrar, nessa noite de quarta, que o AMOR COMEÇA.....quero só lembrar disso!
beijo grande - grata
ANA LÚCIA disse…
Encontros inesperados sempre deixam marcas profundas!!! Mais uma crônica inteligente e bem escrita!
Bjs,
Ana

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