TODOS TEM PRESSA DEMAIS


De certa forma era um desafio. Escrever sobre um doloroso assunto depois que muitos haviam escrito. Preferi parar, tentar olhar em volta. E sem muito esforço a gente percebe que tudo, quase tudo de ruim, tem a ver com a cultura da pressa como o trágico acidente da TAM em 17 de julho de 2007. O texto abaixo está publicado na edição desse mês da revista Rolling Stone brasileira. Essa que tem o Caetano na capa.



O IMPONDERÁVEL FAZ SURPRESAS

Chove muito em São Paulo e estamos atrasados. O trânsito está caótico, os pulsos estão a mil , as ansiedades proliferam e os compromissos se encavalam pois estamos atrasados. As avenidas e ruas estão escorregadias ,os motoristas apressadinhos cometem múltiplas infrações, ultrapassam pela direita, desrespeitam semáforos, xingam-se uns aos outros . Estamos todos atrasados entre os que se irritam agora na avenida 23 de maio. Eu, o taxista que me leva, o motoboy, o caminhão de entrega das casas Bahia e o motorista do rabecão do Instituto Médico Legal . Esse último vai parar logo ali na frente quando a 23 de maio se transforma em Washington Luís . Vai estacionar defronte ao edifício ainda fumegante da Tan Express, cenário do mais terrível acidente da história da aviação brasileira onde mais de 200 seres humanos perderam as vidas e deixaram perplexos e atordoados milhões de paulistanos e brasileiros atrasados como eu e você.
Seria simplista dizer que a cultura da pressa fez essa porção de vitimas. Mas é o que me resta pensar quando vejo o motorista do IML seguir apressado para o lugar do sinistro enquanto eu apresso o taxista para que ele se apresse pois apesar dos aviões atrasados no aeroporto de Congonhas eu tenho que ir depressa a Brasília onde apressados me esperam para resolver um problema urgente.
No momento em que escrevo essas mal traçadas estou numa das salas de espera do aeroporto quatro dias depois do acidente fingindo como todos os outros apressados que estou encarando com a maior naturalidade pegar um avião e chegar ao meu destino. Mas o problema do destino é que ele não prevê o imponderável e o imponderável faz surpresas. E quando elas são desagradáveis como a que ocorreu no vôo 3054 da Tam que vinha de Porto Alegre no começo da noite de 17 de julho de 2007 ficamos todos atônitos, cabisbaixos, pensativos e esquecemos – depressa, bem depressa – de que somos todos apressados.
Quatro dias depois da tragédia é difícil viajar de avião. Todos nos olhamos meio cúmplices mas fazemos de conta que não acusamos o golpe. Fazemos de conta que somos fortes, que a luta continua, que o show da pressa não pode parar e que essa é a lei da vida .
Apressados buscamos , todos, explicações, analises, especulações pois é flagrantemente humano buscar responsáveis e apontá-los ao apedrejamento público. Por mais condenáveis que sejam , por mais infelizes que pareçam queremos porque queremos que nos sejam oferecidas teorias plausíveis, explicações que nos dêem conta dos motivos que fizeram um AirBus da TAM não parar na pista e ir se chocar a 175 km/h na avenida abaixo contra um prédio da mesma companhia matando passageiros, tripulantes, transeuntes e funcionários do prédio atingido.
Apressados contamos os corpos dos inocentes e queremos achar os culpados. A pista reformada foi entregue indevidamente e sem ser concluída a contento sem as ranhuras necessárias para o escoamento da água da chuva ? o tráfego aéreo em Congonhas é intolerável ? o reverso da turbina direita estava quebrado e foi fundamental para a tragédia ? o avião podia voar com o reverso com defeito ou isso não compremeteria sua segurança conforme disse o vice- presidente da Tam ? houve negligência, houve leviandade , irresponsabilidade , descaso ? Apressados queremos respostas mas as respostas não chegam na velocidade que queremos. Muitas delas estão encerradas nas caixas pretas que no momento em que escrevo ainda estão em Washington esperando para serem decifradas por especialistas.
Bem aqui do lado da sala de embarque enxergamos a fumaça que sobe dos escombros. Um sinal sinistro que nos evoca o 11 de setembro de 2001 e as torres destroçadas do World Trade Center, triste marco do início do século 21. Esses sinais estão tatuados no inconsciente coletivo e fazem com que nos lembremos depressa, sempre depressa, de como somos frágeis , como somos mortais , como somos efêmeros e presunçosos a ponto de nossos egos muitas vezes não caberem nem mesmo dentro de aviões muito grandes.
Mas a pressa não permite filosofar e é preciso encarar a realidade de que daqui há alguns minutos todos nós nessa sala de embarque entraremos num avião igual ao acidentado e da mesma companhia num vôo rumo a Brasília onde apressados políticos de todos os matizes ideológicos estão ligeirinhos apontando os culpados e derramando declarações levianas sobre o acidente em desrespeito flagrante às famílias das vítimas. É nesse momento que a pressa é mesmo a inimiga da perfeição e da ponderação e os opositores de Lula põe suas fichas no desgaste do governo como fez o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) que divulgou entre os jornalistas que fazem a cobertura do Congresso Nacional trechos do relatório parcial da CPI do Apagão Aéreo , datados de 4 de julho , onde se fazia um alerta sobre a precariedade dos aeroportos brasileiros sobretudo no que tange à necessidade de modernização dos equipamentos responsáveis pela aproximação , pouso e decolagem dos aviões. Parte da oposição achou bem depressa o culpado pela tragédia o que explica mas não justifica o lamentável gesto de Marco Aurélio Garcia , assessor para assuntos internacionais de Lula, que fez um top top top com as mãos quando o Jornal Nacional divulgou a história do reverso com defeito o que transferiria a culpa do governo para a TAM .
Rapidamente a comédia de erros seguiu em frente com outros senhores políticos pegando uma carona nos minutos fáceis dos telejornais da tv pra esculhambar o gesto de Marco Aurélio como se ele o tivesse feito em público e não em recinto fechado com imagens tomadas de maneira eticamente questionável. Mas ninguém colocou isso em questão o que também não exime o governo brasileiro de suas culpas ao colocar civis ligados ao PT para administrar a Agência Nacional de Aviação Civil ( Anac) que substitui o antigo DAC, gerido pela Aeronáutica. Ou ao não intervir com força quando a Infraero gasta mais nas reformas das instalações dos aeroportos do que na segurança das pistas de pouso. Agem como se estivessem construindo shopping centers e não aeroportos levando ao ápice a cultura da pressa e do consumismo em contraposição à segurança.
Temos todos muita pressa quatro dias depois da queda do Air Bus. Temos pressa em fugir do local da tragédia em que pese isso ser um paradoxo pois queremos ir embora , queremos voar mas com muito medo de voar. Sentamos nervosos , disfarçamos os risos amarelos e evitamos comentar o acidente logo ali ao nosso lado. Temos pressa de esquecer,a pressa que não teve o presidente da República em se pronunciar sobre o acidente ainda que fosse para dar os protocolares pêsames às famílias das vitimas. Lula ,mais uma vez , demorou demais.
As turbinas do AirBus são ligadas. O atraso nesse vôo não chega a ser tão grande quanto nos fazia prever o caos do transporte aéreo que vive o Brasil. Quando o avião começa a taxiar todos procuram instintivamente olhar para o local do acidente. A chuva cessou um pouco e não há quem não se coloque aqui e agora no lugar daqueles que se foram quatro dias antes. Eu que nunca tive medo de voar estou preocupado e evito pensar no assunto mas o assunto está bem ali na minha frente. O avião decola e não olho pra baixo . Não quero ver o destroçado prédio da Tan Express nem quero ouvir os inúmeros sinônimos para a palavra desculpa . Imagino então o que sentem os amigos e familiares daqueles que ainda estão sob os escombros.
Nos jornais do dia vou lendo o nome das vítimas. Que desejos se escondiam por trás do sorriso bonito da advogada Priscila Bertoldi Silva ? no que pensava Suely Fonseca, uma aposentada gaúcha de 75 anos ? o que desejava ver em São Paulo ( cidade que não conhecia) a adolescente gremista Rebecca Haddad ? Por que tão atrasado insistiu em pegar o vôo o funcionário da Tam Diogo Casagrande Salcedo de apenas 25 anos ? que recordações das férias gaúchas trazia na bagagem a família dizimada do potiguar Ivanaldo Arruda da Cunha ? Impossível ser impessoal ao sabermos de histórias assim . Impossível não se comover mesmo em meio ao pragmatismo noticioso que tenta manter o racionalismo em meio a tanta dor .
“Somos seres humanos e nos comovemos também” revela uma repórter global em meio a tragédia já que horas antes havia buscado sua filha e mãe no aeroporto de Congonhas e se enxergou plenamente na dor de seus entrevistados . Essa dor sae no jornal, entra nas revistas, repete-se inúmeras vezes no rádio e na tv mas não nos ajuda a entender a tragédia que temos pressa de entender. A soma de todos os nossos medos quando um conjunto de erros aponta para um desfecho terrível;pesadelo que ninguém quer viver mas que está logo ali, materializado em nossa frente.
De uma maneira quase ingênua eu e meu companheiro de assento, solidários no medo de voar, repartimos as mesmas impressões apesar de termos profissões tão diferentes e vidas tão distantes. Mas perguntamos um ao outro : como é possível que interesses econômicos estejam sempre acima de tudo ? se sobreponham a segurança, à ética , ao respeito ao ser humano? Como , enfim é possível um aeroporto como Congonhas encravado no meio de uma das maiores cidades do mundo não ser uma aberração aos olhos de todos ? como nos acostumamos com o que não devíamos nos acostumar ?
Com expressões de pontos de interrogação em nossos rostos descemos correndo no aeroporto de Brasília sem nenhuma resposta. E mesmo que algumas das perguntas já tenham sido respondidas no momento em que vocês estiverem lendo essas linhas a essência não será resolvida pois eu , tu, eles continuamos com muita pressa. Atenção senhores passageiros para a última chamada . Corram , corram, corram...

***
Ricardo Soares é diretor de tv, escritor e jornalista. Dirige documentários para a Tv Cultura( Sp) , faz parte do conselho editorial de Rolling Stone e publicou , entre outros, o romance Cinevertigem (ed. Record, 2005)

Comentários

Anônimo disse…
Olá,
Achei de bom gosto o tom q. vc. deu a tragédia da TAM, pois a dor nos anestesiou e ver o fato c/ inteligência ameniza o medo e o pânico q. nos assombra.
No mundo revirado de hj, tudo se tornou perigoso, até viagens e passeios tem um tom de terror.
Vc. é um ótimo jornalista e sem dúvida e associou o lamentável episódio c/ o caos urbano de maneira brilhante. Valeu!
Picutta.c
Carlos Castelo disse…
Oi Ricardo.
Parabéns pelo novo espaço, prometo freqüentar.
Outro dia falei com o Franca Cruz lá da Rolling. Mandei um texto que fiz, mas acho que me expressei mal ao telefone. Ele julgou que eu estava propondo uma coluna fixa, mas era apenas uma crônica grande. Vc teria interesse em ver esse material? Abraços.
(albicastro@uol.com.br)
Blogildo disse…
Eu li esse artigo na RS! Confesso que gostei do tom do artigo. Creio também que a "cultura da pressa" não está nos levando a lugar algum.
Ainda assim, acredito piamente na culpa do governo. Primeiro, pq o atual presidente já falava de problemas na aviação muito tempo antes de assumir a presidência e nada fez nesse sentido além de criar a ANAC. Uma instituição com o óbvio objetivo de aparelhar o estado.
Segundo, pq o aeroporto de Congonhas sempre foi problemático e sempre se fez vista grossa a isso. Por sinal, vc enfatiza correta e apropriadamente isso no seu artigo.
Terceiro, pq o caos aéreo só foi assumido (parcialmente, diga-se) como um caos após a morte de cerca de duas centenas de pessoas. Será que o governo só age na base do sacrificío humano?

Abraço!
Onildo
Ricardo Soares disse…
Blogildo ...infelizmente parece que só se tocaram mesmo que havia um caos aéreo depois que morreram 200 pessoas...isso sem contar aqueles que se foram no ainda nebuloso desastre da Gol no ano passado. Parece que como vc lembra só agem ( e olhe lá)quando há sacrificio de vidas humanas. É a banalizaçao da displicência. Obrigado pela força e por me add ao seu blog...

Castelo...obrigado pela força aqui nesse meu modesto blog que está começando. Me mande o material que vc enviou ao ricardinho e eu vou tentar esclarecer o mal entendido..

Picutta .c... a cultura da pressa vai continuar ceifando vidas enquanto ficarmos devagar só olhando...nesse caso que deviamos ter pressa somos lesmas... thanks pela força

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