DIRETO DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DO RIO -2


por Tania Celidônio
Noite chuvosa aqui na cidade maravilhosa e uma fila enorme às seis da tarde no Estação Botafogo, nessa segunda-feira. Todo mundo querendo ver A CULPA É DO FIDEL, filme dirigido pela filha de Constantin Costa Gravas, Julie Gravas.Sou da geração que curtiu o escurinho proibido sob a batuta do pai, gostem dele ou não.E acho muito interessante a filha ter dirigido um filme que nos leva até os anos de chumbo da América Latina sem perder a ternura, sob o olhar de Ana, uma garota de 9 anos que é obrigada a dividir suas fantasias de criança com a realidade vivida pelos pais. E pais em plena crise existencial, numa época em que ainda se questionava a existência pequeno burguesa, hehehehe!
Um casal de classe média francês abraça a causa da libertação chilena e do aborto em plena campanha (vitoriosa) de Salvador Allende.
Julie, a diretora, consegue uma coisa incrível, pelo menos foi assim que aconteceu comigo: de repente você volta pra sua infância e revê aquele filminho maluco de quando ouvia discussões, acusações e ponderações vindas diretamente do mundo dos adultos,lembra? Toda uma série de "ões" que não faziam o menor sentido e que nos deixavam profundamente inseguros. Pois é esse processo de contato com a dura realidade dos adultos - que em muitas circunstâncias não conseguem proteger seus filhos porque ser gente grande pode ser também muito difícil - que Julie administra e dirige com maestria. Somos jogados num turbilhão de sensações vividas por Ana que tenta desesperadamente entender o que está mudando na vida dos seus pais e no mundo. E sentimos a angústia que ela sente quando se dá conta de que o Chile, a América Latina, o aborto e depois o fim do sonho alteraram para sempre o fluxo, até então tranquilo, de sua infância. Mas Ana não perde completamente a inocência e uma brincadeira de roda pode fazê-la esquecer, por alguns distantes, a tristeza de ver os pais arrasados com o assassinato do presidente chileno.Sensacional.

Nem ia comentar o outro filme pra nào escrever demais mas acho que vale a pena sublinhar, aqui, que MUNDO LIVRE OU IT'S A FREE WORLD, de Ken Loach, só me faz admirar cada vez mais esse militante do cinema político e engajado. Uso engajado aqui de forma elogiosa, ok?

Loach foi buscar nas profundezas da mesquinharia globalizada o tema para o seu filme mais recente: os imigrantes ilegais que chegam aos montes à Inglaterra da rainha Elizabeth e da princesa Diana. Todos em busca de uma vida melhor. E mostra como o tal mundo livre perdeu completamente a compostura. Ou seja, fica difícil encontrar traços de humanidade em seres humanos acostumados com o desrespeito no dia-a-dia. E estou descrevendo aqui uma inglesa de 33 anos que de tanto ser assediada e desrespeitada no trabalho passa a acreditar no "vale tudo por dinheiro e danem-se todos desde que eu me dê bem".
Um filme que você começa a assistir sem achar que a barra vai pesar. E quando pesa faz com que o espectador cruze e descruze as pernas com desconforto, inúmeras vezes.
Acho muito interessante que o Loach tenha ido buscar no pai da inglesa de 33 anos algum resquício de solidariedade com a galera indesejada pero necessária do terceiro mundo que, neste filme, engloba (uops) de Brasil à Polônia, passando pelo Irã. Mas a distância entre o mundo do pai, que está no mesmo emprego há 30 anos, e o da filha, que já passou por 30 empregos diferentes em poucos anos, é instransponível. E la nave va. Obrigatório, minha gente!

Comentários

Leitora assídua disse…
Ricardo,
Mais uma vez devo ressaltar a complexidade do seu espaço (blog)...
Fico ansiosa pra saber qual será o próximo assunto.. ou a sua criatividade a quantas anda.... rs
Super informações... grande credibilidade!
Estou encantada com a Tânia (suas dicas e explicações tão minuciosas).. Ela deve ser uma pessoa especial, além de antenadíssima!
Beijo pra ela e outro "procê"!

Postagens mais visitadas