MAIS CINEMA, DIRETO DO FESTIVAL DO RIO


por Tania Celidônio

Passei o final de semana passado mergulhada no escurinho. Um destaque para ser lembrado: CEM PREGOS(foto acima), DE ERMANNO OLMI, aquele da ARVORE DOS TAMANCOS... Pois o danado, aos 76 anos, conseguiu fazer um filme estranho, em que um intelectual violenta um de seus bens mais preciosos: o livro.Como se não bastasse, o intelectual professor abandona todos os bens materiais e vai viver pertinho da natureza. Uma natureza que já está perdendo espaço para a destruição que chega junto com o chamado progresso. O ex-professor é praticamente adotado pela comunidade de um vilarejo às margens do rio Pó. Pessoas simples, boas, ingênuas como quase não se vê mais por aí, cada uma com suas idiossincrasias mas essencialmente solidárias.
O personagem do professor, um ator israelense que se parece muito com Jesus Cristo (aquele que a gente aprendeu a conhecer nas fotos e pinturas), acaba sendo tratado como o dito cujo pelos habitantes do vilarejo. E meio que incorpora algumas atitudes do "salvador dos homens". Um filme diferente, um olhar estranho sobre a religião e sobre os seres humanos.Um filme que trata com carinho o comportamento exótico e fora de lugar nos padrões consumistas e moralistas do mundo de hoje. Um olhar de mestre, eu diria.

OS INVISÍVEIS APARECEM
Também gostei muito de um documentário dirigido a cinco mãos por cineastas de vários países do mundo, INVISÍVEIS. O filme é um lançamento da ong MÉDICO SEM FRONTEIRAS, a produção executiva é do talentoso espanhol Javier Bardem e entre os cineastas destaco o episódio dirigido por Wim Wenders.
O alemão leva ao pé da letra a palavra invisível e ela toma corpo na tela, num belíssimo trabalho de edição. Você sai do cinema com gosto amargo na boca. Porque além dos nossos invisíveis brasileiros entramos em contato com os invisíveis da Africa, da Colombia, da Bolívia.... São relatos duros e contundentes de mulheres do Congo estupradas por soldados e homens em geral, crianças de Uganda sequestradas por exércitos rebeldes, a população da República Central Africana que morre por falta de medicação para a "doença do sono", bolivianos que não resistem à doença de Chagas e sucumbem por falta de remédio. É isso mesmo:os laboratórios pararam de investir no tratamento dessa doença de gente pobre. E ainda temos um belo relato sobre "los desplazados" colombianos. Pessoas que passaram boa parte de suas vidas sendo desapropriadas e expulsas de suas terras. Gente que se reuniu num centro humanitário criado por ongs como o Médico Sem fronteiras e que hoje trabalham para reconquistar o direito de voltar para o que é seu. Um importante, triste e belo registro dos esquecidos, dos segregados, dos marginalizados.
Outro dia, lendo um comentário de um documentarista negro americano, que veio para o Festival do Rio, pensei em tudo o que estamos vivendo nesta terra carioca, linda e violenta. Pensei nos gritos histéricos das platéias que aplaudem a tortura de bandidos capturados pela polícia. O cineasta, chamado Stanley Nelson, diz que estamos nos habituando a culpar as vítimas da sociedade pela sua própria miséria. Deslocamos o nosso olhar e não estamos dispostos a abrir mão de nada para ajudar a acabar com essa miséria exposta. Uma frase tão simples, uma verdade tão transparente. Um beijo para todos.

Comentários

Ricardo Soares disse…
Vi em julho na cinemateca de Bogotá esse documentário ao qual a Tania se refere e concordo com ela que o mais tocante é o segmento dirigido pelo Wim Wenders muito embora tenha gostado muito da parte que mostra o drama dos desabrigados pela guerra interna da Colômbia talvez pelo meu envolvimento pessoal com o tema.
Cah Menegocci disse…
pois é.. temos um gosto muito parecido também!

a fazendo Ipanema vai bem...
se eu não me engano, uma parte dela foi comprada ou doada para a UFSCAR, e agora tem um campus lá!

mas continua linda!
sim... é lindo...
volta mais vezes pra cá e pro meu blog tb!


eu volto.. pode me esperar
=)


um beijooo
Rafael Carlini disse…
a você e sua amiga tania um bom fim de semana... wim wenders nunca deixa de me surpreender... será que esse filme vai passar no circuito normal ou só em festivais??? abraço
rafael

Postagens mais visitadas