CARLOS HEITOR CONY

primeira cena- primeiro semestre de 1980
O jovem repórter que eu fui caminha no largo corredor de compridas tábuas de madeira na sede da MANCHETE , rua do Russel, Flamengo,Rio de Janeiro. Do meu lado direito, protegidos por uma parede de vidro que separava a redação de MANCHETE do corredor por onde eu andava vejo uma cena insólita e inesquecível . Adolpho Bloch, dono e fundador da Manchete, sentado ao lado de Carlos Heitor Cony dita ao escritor e jornalista as suas idéias que Cony vai transformando com paciência em "ADOLPHO BLOCH ESCREVE" ,uma seção de MANCHETE. Diante de Cony apenas uma máquina de escrever apoiada numa mesinha onde no canto direito equilibra-se uma bandeja de inox cheia de jabuticabas que Adolpho saboreia e oferece a um e outro que passa pela redação. Cony naquela ocasião era para mim um mito inatingível e Adolpho apenas o patrão que eu desprezava.No entanto eu intuía que ali , diante de mim , se desenrolava uma cena única, um registro da cumplicidade entre Cony e Adolpho que diz mais do que muitas palavras.
segunda cena - Memorial da América Latina ,sp,16/11/2007
Na sala de imprensa acaba de chegar Carlos Heitor Cony para a sua palestra no primeiro salão nacional do jornalista/escritor. Toco com cuidado seu ombro para que ele me veja e , simpático , ele me sorri e saúda. O homem de meia idade que agora sou , ainda o espírito de repórter a se debater dentro de mim, avisa a Carlos Heitor Cony que na sala ao lado a equipe da Tv Cultura que me acompanha está pronta para gravar o depoimento dele para um documentário de final de ano que preparo sobre o recem -falecido Joel Silveira, grande amigo de Cony. O escritor, apesar de sempre elegante, me parece abatido e uma onda de tristeza me invade. Cony que está doente e é pragmático com a questão se desvencilha de algumas pessoas que o assediam e se dirige à sala ao lado para dar seu comovido e belo depoimento sobre Joel Silveira. Por vezes chego a achar que sua voz se embarga mas não cafetino essas sensações espontâneas e não oriento meu colega Edgar Luchetta para que feche a zoom em Cony. Deixo a entrevista correr e ao final mais uma vez na vida nos apertamos as mãos.
Entre a primeira vez que vi Cony ao vivo em 1980 e esse encontro de ontem passaram-se mais de 27 anos. Minha vida profissional me proporcionou inúmeros encontros e prosas com ele e a que guardo com mais carinho foi em 1998 quando ele me deu a primeira entrevista do primeiro programa LITERATURA que foi exibido por oito temporadas na rede Sesc /Senac e várias outras emissoras. Ontem Cony me lembrou esse programa e disse que assistiu a reprise dele ainda outro dia.
A doença obrigou Cony a operar uma perna ano passado. Ele apóia o queixo na bela bengala que agora o acompanha e eu o ajudo a se levantar ao final da entrevista . Esse é um ato físico e não simbólico. Afinal Cony nunca caiu para que eu o levante. Aos nos desperdirmos ainda o observo subir a rampa que leva ao auditório do Memorial. Ao ver Cony acenando pra mim em despedida rindo do boné preto que eu tinha na cabeça(segundo ele me deixou com cara de jogador de beisebol)fiquei com a sensação de estar diante de uma "quase memória" de tantos fatos idos e vividos na trajetória desse escritor que tanto admiro.

Comentários

Luciana Carvalho disse…
Ricardo, Ricardo, Ricardo... Deus queira que vc esteja errado. Seu texto emociona.

Bjs
Edna Federico disse…
Ricardo, deve ser muito bom ter uma profissão que nos aproxima de pessoas que admiramos.
Beijo
Ricardo: desculpe-me, mas tenho tentado te enviar o texto do meu romance "Traições", na íntegra, por e-mail, mas não consigo, recebo uma mensagem de erro. Dá pra você dar uma olhadinha na mensagem que eu deixei no post "Semana de Arte Moderna da Periferia"? Porfavorzinho?
Obrigada pela atenção, desculpe-me pela amolação, e um beijo!
Analú
Fernando disse…
Queria muito ter ido ouvir o Cony, pena que o trabalho não deixou. Tenho certeza que a emoção das palavras dele sobre Joel Silveira dispensa o recurso do zoom (que por aí é utilizado exaustivamente).

Que o Cony continue nos emocionando. E que esse documentário fique pronto logo!

Abraços,

Fernando
Anônimo disse…
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