O MERCADO , VERÍSSIMO E GARCIA LORCA

Às vezes sou dado a acreditar que os escritores valorizam muito o seu ofício. Mas quando me vejo diante de situações como a que vivenciei agora pouco volto a crer que os escritores tem mesmo é que valorizar seu ofício no que ele tem de poderoso, terno, revelador e sobretudo agregador de almas gêmeas no humanismo e no culto à beleza, sensibilidade e bom gosto.
Me explico : há pouco mais de um mês venho me dedicando tardiamente à leitura de "Solo de Clarineta" dois volumes de memórias de Érico Veríssimo conforme já disse nesse blog.
Tenho por ( mau ?) hábito ler mais de um livro ao mesmo tempo então paralelamente às mais de 700 páginas de Érico também lia o terror digestivo de Joe Hill ( A ESTRADA DA NOITE), um livro de crônicas e textos curtos (SOBRE PESSOAS) de Antônio Torres ,que me foi gentilmente presenteado pelo próprio autor, e ainda vários contos de literatura fantástica enfeixados numa saborosa antologia organizada por Flávio Moreira da Costa. Se digo isso não é para me ufanar de mim mesmo. Ao contrário. É para dizer que as leituras paralelas as vezes fazem com que diminuamos o entusiasmo com um dos livros que estamos lendo . Como se descansássemos de um livro lendo outro. Eu ainda tinha por ler pouco mais de 100 páginas do segundo volume de "solo de clarineta" mas desacelerei justamente ao chegar no fim das memórias que Érico contava de sua primeira viagem a Portugal em 1959, ano em que nasci. Era o último trecho que ele considerava pronto para ser impresso quando a morte o colheu em 1975. Dali para a frente as memórias não tinham a versão definitiva do autor mas um primeiro esboço que foi organizado pelo professor Flávio Loureiro Chaves com anuência da família do falecido . Iniciava-se com a viagem de Érico à Espanha naquele mesmo ano de 1959. Desanimei , mas hoje deitado à sombra de uma das árvores mais queridas aqui de casa avancei Espanha adentro e só interrompi a leitura ao chegar à Holanda para escrever esse post. E se o faço é porque fiquei impactado ( eita palavra pedante !)com o que li e que por consequência me provocou umas toscas reflexões.
Mesmo não considerando Érico que sua passagem pela Espanha estivesse na versão definitiva ,a beleza , a precisão e a acuidade com que nos revela desvãos de Sevilha e Granada é, como sempre, obra de mestre.Mas o que me impressionou mesmo nessa leitura vespertina ( uma surpresa que eu não teria se continuasse com preguiça de terminar o segundo volume das memórias) foi a saudável e poética obsessão da em achar o túmulo de Federico Garcia Lorca da qual Érico se ocupou desde que chegou em Granada, cidade onde o poeta foi assassinado. O nosso autor gaúcho não achou o túmulo de Lorca , covardemente executado pelos franquistas, mas foi parar em Fuentevaqueros, vilarejo onde o poeta nasceu , nas cercanias de Granada. Ali descobriu onde era a casa do poeta e foi ter com duas modestas costureiras que não eram parentes de Lorca mas sabiam de quem se tratava e foram buscar nas vizinhanças a babá do poeta e uma prima sua . Depois Veríssimo conversa com um velho ferreiro que mostra uma antiga foto de Lorca e pergunta a ele porque mataram o poeta . A resposta curta e grossa é tão poética quanto o relato de nosso autor gáucho : "Los poderosos tienen miedo a los que hablan la verdad". Quarenta e oito anos depois da cena, 31 anos depois da publicação de "Solo de Clarineta" eu leio e fico sabendo do lindo encontro entre Lorca e Veríssimo o que prova definitivamente que as leis do mercado ( e nesse caso do mercado editorial)são cruéis na medida em que sepultam e relegam ao esquecimento maravilhas como essas enquanto as revistas e jornais nos entopem de lançamentos todas as semanas. Ou seja, o que prevalece é a novidade não a perenidade. Como se tudo que fosse novo fosse bom. Essa perversidade faz com que compremos gatos por lebres e transformem livros excelentes lançados há uma década, cinco anos ou dois anos em velharias. Que dirá fósseis publicados em 1976. Não temos mais tempo de digerir nada. Nem a nossa ignorância. Eu que aprendi mais uma lição hoje de tarde jamais achei tão precisa aquela máxima que diz que quanto mais lemos mais nos sabemos ignorantes. Só me resta agora, na luz crepuscular, agradecer a Lorca e Veríssimo o momento tão bonito dando razão aos escritores que valorizam o seu ofício pois a palavra e todos os seus desvãos ainda é insubstituível na transmissão do conhecimento e da sensibilidade.

Comentários

andrea augusto disse…
Já anotei os títulos, Ricardo.
Só de ler suas impressões fiquei com vontade de ter uma árvore de emergência pra deitar a sombra e ler. ;)

abrs
Andrea
Kiara Guedes disse…
Ricardo, sei bem como é o (mau) hábito. Há também um outro que já deve te acontecido contigo: parar de ler um livro que está acabando, por mais ou menos uma semana, pra simlesmente não acabar, pq sabemos que vamos sentir saudade de seus personagens...rs. O hábito da leitura leva a mil outros hábitos, não é?...
Gosto de literatura fantástica, mas confesso(acho) que as pessoas têm uma certa resistência a elas, por acharem primeiro que são literatura juvenil. Bem, eu não acredito completamente nessa coisa de rotulos em literatura.
Fiquei fascinada pelo final de seu texto. De uma beleza e clareza irrevogável.
Bjs
Edna Federico disse…
Ricardo, também tenho por hábito ler 2 livros de uma vez, mas só consigo 2 mesmo, riso.
Delícia ler a sombra de uma árvore, hein?
Beijo
Blogildo disse…
Esse é o Verissimo que vale a pena!

Também leio algo entre três e quatro livros de uma só vez. E vc acaba de tirar um peso com esse argumento que passarei a usar: Descansar de um livro lendo outro.
Luciana G. disse…
Bem, eu sou devoradora de livros. Se faltar um, leio bula de remédio rsrsrs
De uns bons tempos pra cá, me dedico à releitura. Uma delícia. Ler um bom livro uma segunda vez é descobrir N aspectos antes ignorados (ou escondidinhos lá no cantinho do cérebro). É uma outra emoção.

Boas leituras!

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