ausência de silêncio


      Há muito tempo penso a respeito mas nunca escrevi sobre o assunto. É impressionante como o homem moderno tem dificuldade de conviver com o silêncio. Qualquer praia deserta, qualquer recanto campestre, qualquer lugar onde se pode entrar em rápida comunhão com a natureza tem sua harmonia interrompida por um carro que abre as portas e despeja seu som sobre nós sem que fossemos consultados. Isso é um hábito repulsivo vigente em todo o país mas ocorre com maior frequência no Nordeste e em especial no Ceará onde as praias e bares de Fortaleza se transformam em competição de boçalidade para ver quem coloca o som mais alto e perturbador. Geralmente breganojo, pagodé ou axé . Essa é uma praga urbana ( e rural) que ocorre mais acentuadamente nessa época de fim de ano e férias. Some -se a isso a insistente mania que os seres humanos modernos tem de soltar rojões por horas a fio em ocasiões como natal e ano novo como se quisessem avisar a humanidade a cada instante do quanto estão felizes. É a boçalidade da alegria , transformada em competição e conspiração para perfuração dos nossos tímpanos e apavoramento dos cachorros que sofrem com a barulheira. Os seres humanos não conseguem conviver com seus silêncios internos e exorcizam os vazios interiores transformando essa época do ano em ocasião propícia para disseminar os seus barulhos que na verdade são a derivação dos seus vazios ... moraram na filosofia ???

Comentários

leve&solto disse…
Adoro meu silëncio... e convivo extremamente bem com os silencios externos...

(saco, computador alheio, não acho acento nem nada no teclado!!!rs)

Morro de dó dos meus gatos e cadela com a ignorancia dos fogos nas mais diversas datas, jogos de futebol e etc. Eu, particularmente, também odeio!

Onde moro também existem os sem educacao que acham que temos que ouvir suas músicas de gosto duvidoso... Total falta de "simancol", abrindo os carros na porta dos bares e colocando o volume acima do limite do suportável..

Bjo

Mara
K. disse…
Por causa da barulheira das festas, todo ano tenho que dar um porre de chá de camomila e erva-cidreira para minha lhasa apso. A coitada fica até zonza..... mas, não tem jeito. Ela morre de medo dos fogos.

O apelido dela é Penélope Canabrava..rs..rs.rs...rs.

..

quanto ao "silêncio", o ser humano não consegue conviver só com o seu silêncio. Ultimamente, não consegue conviver nem com ele mesmo próprio. Fico vendo as pessoas que moram (como eu) sozinhas. Buscam desesperadamente fora coisas que preencham esses vazios. Cada um tem sua maneira.

..

sobre vc ter visto o show de Oscar Peterson: inveja, profunda inveja.

sem mais o que dizer..rs.

beijos,
Blogildo disse…
Esse texto me lembrou o Clube Silencio daquele filme do David Lynch, Muholland Drive.
Me sinto estranho no silêncio.
Silvana Tavano disse…
É mais ou menos assim: quanto maior o volume do ruído externo, menor é o risco de ouvir o ruído interno --pra muita gente, esse é o barulho insuportável. E assim caminha a humanidade, no escuro, no automático e fazendo muito barulho...
Falando em silêncio, tô esperando suas respostas!
beijo, Silvana
rm disse…
Sei lá porque, seu texto me fez lembrar de um causo que o (maestro) Jobim contava sobre o maestro Villa-Lobos.

Contava o genial inventor da bossa, que em visita ao velho Villa, espantou-se com sua capacidade de escrever música sob intenso barulho de carros na rua, netos na sala, mulheres na cozinha, etc.

Teria dito o autor de todas as bachianas que havia dois ouvidos: o "de fora" servia para para aqueles sons ou ruídos descritos; o "de dentro" para música...


PS: já que parece dominar a arte do silêncio premeditado poderia me explicar por que a sensualíssima blogueira K não comenta comentários aos seus não-silêncios?
Luis Eduardo Matta disse…
Olá, Ricardo.

Muito pertinente o seu post. O silêncio e as dificuldades que as pessoas têm, hoje em dia, em conviver com ele é, realmente, um tema interessante e que merece nossa reflexão.

Um livro muito bom de ensaios a esse respeito foi publicado há alguns anos. Chama-se 'O Silêncio Primordial' e, em 2004, escrevi algumas linhas sobre ele no Digestivo Cultural. Se tiver interesse, basta acessar o link: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1448

Abraços,
Luis Eduardo
barb michelen disse…
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Edna Federico disse…
Feliz 2008, muita saúde e energias boas!
Beijos
isabel victor disse…
Faça-se "um minuto de silêncio" pelo silêncio que morreu afogado em ruído !


Como continuará a existir a musica sem o silêncio ?

E as palavras recortadas do silêncio, o que lhes acontecerá?

Faça-se já um minuto de silêncio !

Abraço

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