A COLÔMBIA E A CABEÇA DE LAMPIÃO

Quando a mídia colombiana exibiu com visível satisfação o corpo ensanguentado de Raul Reyes fazendo-o perder toda a dignidade ( se é que a morte empresta alguma dignidade a alguém) imediatamente me lembrei da cena das cabeças cortadas de Lampião e seus cangaceiros exibidas pelo governo de Getúlio Vargas logo após a chacina do bando em 1938. O mesmo pensamento teve a jornalista e blogueira paranaense Juliana Cavassin que frequenta esse blog e me honrou com um texto ( enviado por e-mail) onde menciona as multiplas possibilidades que permitem os blogs nessa nova era da comunicação. Juliana é a titular do blog Aujourd' hui, que está na minha lista de links.
Tanto Juliana como outros colegas como Marcelo Tas ao falar de mim em seu blog (Clique aqui) me fazem não desanimar com a aparente má vontade que alguns demonstram com alguns textos onde tento elucidar sem distorções o que se passa na Colômbia.
A morte de Reyes é um ato terrorista igual aos que Uribe condena pois violou a soberania de um país vizinho , desrespeitou qualquer preceito humanitário ou possibilidade de diálogo que parecia estar em curso. Informes dão conta que Reyes estava empenhado em viabilizar um encontro com Sarkozy com vistas à libertação de INGRID BETANCOURT. Posso até imaginar agora a cara de desespero de sua mãe, Yolanda Pulecio, que entrevistei em junho de 2007 na zona norte de Bogotá. Yolanda não tem a menor simpatia por Uribe e sua politica belicosa, guiada por Washington. Pedia naquela ocasião a interferência do governo Lula pra mediar a questão e temia que uma ação violenta de Uribe tirasse as chances de libertação de sua filha. Dona Yolanda estava certa. Uribe tem as mãos sujas de sangue. As Farc tem as mãos sujas de sangue. Os paramilitares tem as mãos encharcadas de sangue. Agora, por que militares, politicos e congressistas à direita na Colômbia aplaudem ato tão selvagem e bárbaro ? desde quando assassinatos vis devem ser comemorados ? e desde quando achamos isso normal?? Desde quando é natural que o limitrofe George Bush venha a publico parabenizar seu colega colombiano por uma violação de soberania ? Oportunismo de Chavez ou não fato é que deveriam sim reverberar mundo afora protestos contra o ato insano perpetrado pelo governo colombiano com a ajuda de satélites americanos , segundo me revelaram minhas fontes...afinal quem esteve tanto tempo mergulhado na Colômbia também tem fontes quentes lá né não?? Oportunismo de Rafael Correa ou não o presidente do Equador está no direito em espernear pela violação do seu território e em chamar de "canalha" o governo de Uribe. Agora, polêmicas a parte, reflexo de um mundo doente é comemorar com sorrisos e festas , é exibir como troféu de hipica o corpo sujo, lacerado e maltrapilho de Reyes. A morte perde sua dignidade e os homens não se dão ao respeito. Sintoma de que a Colômbia pode ter entrado numa guerra sem fim. E isso, prezados leitores, não é ( repito mais uma vez) sinal de simpatia pelas Farc mas sim sinal de que fica dificil crer na humanidade quando a barbárie vira artigo para ser consumido durante as refeições. Acho que uma guerra entre os países envolvidos é improvável. Mas as fissuras provocadas por esse ato insano podem ser incontornáveis. A síndrome da cabeça de Lampião se materializou na Colômbia.

Comentários

rm disse…
Ricardo,

belo texto, no qual você deixa mais claras suas opiniões. Acho que contribui também para a conversa e o debate.

Concordo com o sentido geral e com a maioria dos seus argumentos. Digamos que estou muito mais próximo das posições que você defende do que o contrário.

Mas não posso deixar de fazer um reparo. Apesar da aridez impiedosa, em todos os sentidos, do sertão nordestino (no passado, hoje e sempre) - Lampião e seu bando nunca foram propriamente heróis.

A exemplo de outros bandoleiros, estiveram a serviço das piores causas, muitas vezes se associando (ou sendo pagos pelos) com os opressores "coronéis" da época.

Apesar da imagem romântica que o cinema e a literatura lhe emprestaram, Lampião era um bandido, dos mais cruéis.
Marcio Gaspar disse…
concordo 100% com suas palavras, ricardo; e acho que cabe também um elogio ao posicionamento, até aqui maduro e sereno, do governo brasileiro. e rm: em nenhum momento, o ricardo fez juizo de valor sobre lampião e seu bando. bandidos ou não, heróis ou assassinos, a exposição macabra de suas cabeças não se justifica. e antes de rotular pura e simplesmente, é preciso uma analise cuidadosa da epoca e da situação social, moral, politica e economica do nordeste brasileiro - e de como lampião se inseria nessa realidade.
rm disse…
É verdade, Márcio.

O Ricardo Soares não defendeu Lampião e seu bando. Nem eu disse que o tenha feito. Apenas não resisti à analogia possível: tanto num caso como no outro, na minha opinião, trata-se da exposição macabra da morte de criminosos comuns, mitos sem méritos.

Que não me alegra tanto quanto à você e ao Ricardo. Mas o destino dessa figura (independente do mau-gosto da exposição) também não me entristece.

No mais, fecho com o sentido geral das posições do Ricardo.
Karla Nazareth disse…
essa história toda é um dejà vu dos maiores. apoio dos eua, ações bélicas, desrespeito a soberania, luta contra o terror e por ai vai.
Alemão disse…
Com certeza, Karla. Um roteiro que se repete como aqueles de Hollywood. Ora bandidos árabes, ora latinoamericanos sanguinários e idiotas. E o público a esperar pelo resgate heróico da democracia pela mão dos americanos, os verdadeiros escolhidos.

Ricardo, parabéns pelo blog.
Ju disse…
Obrigada pelas referências, Ricardo! tb quero aproveitar e deixar um recado para o "RM"; sua posição nesse debate muito contribui. não trata-se de concordar ou discordar do ponto de vista do Ricardo (que ao meu ver é bem claro em não ser a favor das FARC, mas sim de uma ética na exposição das questões por parte das mídias). as divergências ou dúvidas têm colocado cada vez mais informações a disposição dos blogueiros para constituirem opinião própria sobre o assunto, o que reintero, as mídias padrão não executam. a opinião da Colombiana, por exemplo, achei bárbara, pois ela é um ponto de vista de história viva, presente. isso é democracia.
quanto à Lampião e seu bando eu havia citado ontem aqui no blog e hj me supreendi com a foto aí presente. mais uma vez, a analogia não para a defesa ou não dos cangaceiros, mas sim para relembrar que tal como as FARC, o grupo surgiu como reação à outras formas de opressão, "oficiais" eu arriscaria. lembro de uma citação do Brecht, q gosto muito: "Do rio que tudo arrasta se diz violento. mas ninguém diz violenta as margens que o comprimem".
Já aproveito a deixa sobre Lampião e os últimos comentários e pergunto: qual é a do Brasil nesse caldeirão todo?
beijosBEIJOS.
disse…
Ao ler seu texto que cita Lampião, lembrei que desde criança eu o admirei. Algo estranho para uma criança. Na TV Cultura houve uma época em que exibiram filmes baseados nas ações do bando, eu não devia ter mais de cinco anos, mesmo assim, gostava do Lampião, e olha que o filme era tendencioso. Esse fascínio é um mistério pra mim, ainda hoje. Contudo, lido bem com isso, e continuo gostando do Lampião.
Pablo Pamplona disse…
Estou adorando esses posts! Essa sua "cobertura" vai muito além do que os jornais pseudo-imparciais vêm falando e repetindo todo dia. (E os comentários também são extremamente úteis à discussão)
Quanto às cabeças dos cangaceiros e guerrilheiros, uma violência cruel, banalizada e desnecessária. Infelizmente, tudo o que todos querem ver.
Abs!
Anônimo disse…
Ricardo, cenário sangrento, cheira a passado, algo semelhante com o nazismo. O pior é o discurso falso, "em nome da democracia". O que é isso??? Bem, nos falamos. Benvenuta
rm disse…
Ricardo e Ju,

não sei se a pergunta foi pra mim; por excesso de cara-de-pau respondo assim mesmo.

A diplomacia brasileira, desde os tempos do Barão do Rio Branco, sempre soube se equilibrar muito bem nas disputas entre seus vizinhos e a eterna vigilância norte-americana. Cumpriu papel mediador em inúmeros casos.

A política externa do governo Lula infletiu um pouco esta tradição, tornando-a algo mais agressiva e menos discreta. Mas não se mudam tradição e centenas de diplomatas numa tacada.

A impressão que tenho é a de que o Brasil repetirá seu papel mediador, reforçando as posições de bom-senso das presidentes da Argentina e Chile, a bem da verdade, opinião de quem realmente interessa na América do Sul.


Quanto à manifestação anônima, imediatamente anterior à minha, prova, mais uma vez, que o espaço que o Ricardo está criando, será realmente muito democrático, permitindo que se pronunciem até pessoas que não se dignam a indentificarem-se.

Ou a pessoa se chama Benvenuta? Se for, peço desculpas pelo comentário.
prabens pelo blog e pela cobertura Ricardo

então, no calor de uma discussão proposta, e pautada pela "midia pseudo imparcial", como diria meu colega de blog Pablo Pamplona, tendo a corcordar com o rm sobre o destino do nº 2 das FARC. concordo que não se deve banalizar a violência, como se tem feito a todo instante, mas tenho posição que em alguns casos ela é necessária (vai dizer que se o bush e o ozama morrerem a galera toda não vai ter um momento de alívio). repetindo, não estou defendendo a invasão territorial nem os meios colombianos.
o fato é que estou muito preocupado com o que disse o Alemão sobre a salvação feita pela democracia estadunidense.
E continuo me perguntando, Ricardo: soberania... será que esse direito resiste ainda muito tempo?
A história é cíclica...
E quando você fala sobre o Chavez, me ocorre que o Bush foi um tremendo oportunista ao vir a público comemorar a morte do cara das Farc. Inclusive por que, como você lembra bem em um comentário do outro texto, os americanos são os maiores consumidores da cocaína da Colômbia.
Na minha humilde opinião, tratam a coisa sob a perspectiva de um cenário meio "domingo maior". Esses latinos 'sujos e fedorentos' se engalfinhando, até a chegada triunfal do Bruce Willis... que salva a mocinha branca, e volta como herói.
O problema é - e mais uma vez você destaca bem: será que vai dar tempo de salvar a mocinha?
Abração
PS: Continuo me interessando pelo posicionamento de povos que, apesar de pequenos, se agigantam moralmente, quando não abrem as pernas para o frenesi consumista e idiota da norte-americanada... São esses que me interessam.. Por que continuo achando escola mais importante que DVD e hospital mais importante que carro do ano..

Abração
Alice disse…
Encontrei seu blog e ao ler seu texto vi a realidade. E na casa de minha sogra, esse assunto virou discussão trivial na hora do almoço. Todo mundo lá falando em Lula e sua "estratégia" para lidar com os colombianos e a força totalitária de Chaves em segurar seu país simplório em meio a outras potências do mundo. Fico pasma quando a morte se torna trivial - seja de quem for e pasmo ainda mais, quando vejo pessoas comuns realçar tal assunto com salada e frango empanado.

Um prazer ler a sua visão.
Letícia
Ju disse…
RM: obrigada pelas explicações!
Ricardo: retribui a citação no novo post do meu blog!!!
;-)
beijos!
Ricardo Soares disse…
rm... seu último comentário sobre diplomacia é muito pertinente e concordo integralmente com ele... quanto a benvenuta é uma querida amiga que assina por codinome... trabalha numa revista de mulheres chics talvez por isso assine com a alcunha que eu próprio inventei pra ela visto que é uma legitima filha de família italiana tradicional...

marcinho...bem lembrado de que eu não tenha feito juizo de valor do lampião, esse personagem que acabou virando até icone da nossa cultura pop

karla...concordo com vc... tudo isso é um enorme deja vu...bj

alemão... obrigado pela visita e elogio...volte sempre...

ju... bem lembradíssima essa citação do brecht a propósito das questões colombianas discutidas no blog ... "Do rio que tudo arrasta se diz violento. mas ninguém diz violenta as margens que o comprimem". beijo e obrigado pela citação no seu blog...

Lê... como eu disse acima Lampião virou mesmo um icone da cultura pop e povoa muito imaginário infantil...prova disso foi o que vc contou... bj

pablo e marcelo freitas, meninos do blog incendiário chamado "Incêndio Acidental"... vindo de vcs que fazem um blog inventivo e provocador fico feliz com os elogios e com a citação que a mim fizeram lá no blog...já tinha deixado recado ao Marcelo que estão agora devidamente linkados...abs

alice... fico feliz que vc tenha aqui chegado... volte sempre e que bom se de alguma forma eu consegui trazer luz sobre o assunto no seu debate familiar...bj

professor marcelo henrique...um professor que duvida sempre merece meu respeito...quisera todos os professores fossem assim! todas as questões referentes a esse tema se inscrevem no mesmo funil... o mundo via estados unidos se transformando num grande conglomerado de consumidores e nao de cidadãos...a hegemonia do imperio em primeiro lugar... e no fundo meu caro não acho que tenha relevância nisso se o eleito for a bolachuda Hillary, o "negro comportado" Obama ou o excremento Mc Cain...seja quem for vão continuar com as garras sobre todos... abs
Edna Federico disse…
Você tem razão, também acho que não há motivos para comemoração.
Nessa guerra, não há vencedores, todos perdem.
Beijo
Concordo contigo com relação a eleição dos Estados Unidos, Ricardo.
Estava conversando isso outro dia mesmo, com um amigo.
Aliás, já reparou na semelhança... Obama e Osama?.. Isso dá samba... samba do americano doido..
Abração

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