ARMANDO NOGUEIRISMO

Devia deixar o assunto quieto , eu sei. Mas talvez eu tenha uma tendência a colocar a mão nos formigueiros onde ninguém mexe pois não me conformo com "consensos" que não são consensuais. Um deles é muita gente afirmar aos quatro ventos -mesmo sem conhecer- que o jornalista Armando Nogueira é um grande texto. Outro é de que a cultura brasileira tem a tendência de santificar todo velhinho. Como se os cabelos brancos tornassem a pessoa melhor . Tanto isso é verdade que muitos criminosos mais velhos são inimputáveis ou tratados com deferência como o Lalau , aquele juiz criminoso e velhinho que levou uma grana preta na construção do prédio do Tribunal Regional do Trabalho em Sp.

Mas eu estou fugindo do assunto que na verdade é Armando Nogueira sempre tratado com deferência e respeito de professor de texto quando na minha modesta concepção é um dos artifices que confundiram corações e mentes ao não saberem distinguir um bom texto - com ritmo, harmonia, elegância - de um texto eivado de choromelôs, água com açúcar, clichês rodeados de penduricalhos e emoções baratas, essa sim a especialidade de Armando Nogueira que faria o poeta romântico J.G de Araújo Jorge parecer tão cerebral quanto João Cabral de Mello Neto. E olha que nem estou falando do jornalista Armando Nogueira que comandou o jornalismo da rede Globo em conivência estreita com interesses estratégicos de militares e afins que escondiam surtos de meningite, manifestações pelas diretas , dianteira de Brizola nas eleições. Ou seja, para mim e muitos de minha geração, Armando Nogueira não é modelo a ser seguido, é anti- exemplo. Seja pelo texto seja por sua facilidade em ser cooptado. A idade pois não o santifica.

Agora, a conclusão . Escrevo tudo isso pois a administração do Maracanã colocou uma placa no estádio com uma horrorosa poesia de Armando também chamada "Maracanã". Ele disse que vai doar os direitos da poesia ao estádio e me pergunto quem pagaria alguma coisa por ela.Talvez até paguem seguindo o raciocínio de que consideram Armando um grande texto. O "Armando Nogueirismo" segue firme e forte todos os dias nos textos de alguns repórteres globais e mesmo em algumas cabeças lidas por apresentadores. O mau gosto e o choromelô acima de qualquer senso de bom gosto. Não seria o caso de se perguntar por que uma placa para o Armando e não para o Antonio Maria, o Nelson Rodrigues ou mesmo o jornalista gaúcho Ruy Carlos Osterman ? Por que homenagear um pseudo- consenso ? ou Armando é consenso?

Toda essa efeméride da placa foi registrada com destaque pelo jornal " O Globo" na segunda feira. Um texto interno no caderno de esportes de tom bajulativo elevou Nogueira às alturas com o título "Palmas ao craque dos gols de letra". Agora finalizo com o trecho da própria poesia Maracanã e vocês julgam se isso é bom ou não . Para mim é porcaria superlativa de um gênio da pieguice :

"És Garrincha, que dobrava as esquinas da área driblando Deus-e-o -mundo com a bola jovial da nossa infância / Quanta saudade daquele drible pela direita que alegrava as minhas jovens tardes de domingo/És, enfim , a vitória e a derrota, caprichosa imitação de minha vida/ E porque és uma parte da minha memória, seguirei cantando, comigo, a melodia de teu doce nome : Maracanã, Maracanã"

Comentários

Marcio Gaspar disse…
HAHAHA, assino embaixo Ricardo! O cara é um puta chato, piegas e rei do chavão melodramático e chinfrim. Mas ao mesmo tempo, dá pra entender que ele seja endeusado por aqueles que são maioria e que por isso, fazem com que o jornalismo esportivo nacional seja um tenebroso deserto.
Anônimo disse…
Sem ainda ter usado o deus google não tenho certeza se realmente sei quem ele é. Estou com a imagem de um velhinho cronista na caixola, mas posso estar confundindo com outros. De qualquer forma, com a minha total e irrestrita incapacidade de escrever bem não me permito julgar as qualidades literárias dos outros no que se toque a estética. Normalmente confio na minha Dama para não me deixar falar muitas besteiras.

Mas este comentário era mais para concordar com a mania que se tem de endeusar os mais velhos, lhes tirando todos os pecados antes cometidos. Parece até a legislação de um dos povos andinos pré-colombianos que quase todos os crimes eram punidos com morte ou pelo menos amputação (tinham que achar candidados para os sacrifícios) e quando você chegava a uma tal idade avançada para aquela época, nada mais era crime.
Bob disse…
Ops o comentário anterior é meu.
Franklin disse…
Ricardo. Você tem a capacidade de escrever às vezes o que eu gostaria. Esse Armando Nogueira é um charlatão do jornalismo pátrio com textos horríveis que dizem ser bons. Uma vez ouvi um texto dele sobre a Hortência que era de lascar. Sou jornalista também, mais novo que você e muito desesperançado com a profissão. Esses textos melados que o Nogueira inventou são copiados por uma porção de alunos dele como o Pedro Bial, Neide Duarte, Beatriz Tillman e outras chorões. Eu não aprendi na minha escola que é assim que se escreve bem .Ou será que não sei de nada. Abraços do seu admirador, Franklin
Cassionei Petry disse…
Não leio o texto dele, mas mesmo quem não lê o considera o máximo. Tenho na lembrança a participação dele na Band, na copa de 98, junto Paulo Fique-rico-com-a-universal Amorim. Os dois esbanjavam, ou melhor, esnobavam sabedoria sobre Paris e nós pobretões olhando...Não sei porque isso me lebrou Lima Barreto e sua críticas a literatura "sorriso da sociedade"
Maira Parula disse…
"quanta saudade daquele drible pela direita que alegrava minhas jovens tardes de domingo", alguma mensagem subliminar aí? :)
Concordo plenamente, acertou em cheio e com coragem. Nogueira é unanimidade e toda unanimidade...

superabraço
Ricardo, quando vi a notícia da homenagem feita a essa figura, outro dia, no intervalo de um jogo de futebol na Globo, pensei várias coisas das que você colocou. Fiquei até impressionado aqui.. penso a mesmíssima coisa em relação aos textos do Armando Nogueira. Poesia sentimentalóide do Paraguai, que não diz nada além de melodramas banais. Os globais o tratam como um "gênio", talvez por que, pra quem não conhece nada, o pouco vira muito.. Nelson Rodrigues, João Saldanha.. todos que fizeram, na crônica esportiva, uma poesia verdadeira, certamente vão visitar o Maracanã com menos frequência.. Muito boa a lembrança desse assunto.
Abração

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