CRÔNICA DO DIA : Caio Fernando Abreu


A sua, uma literatura que rugia subterrânea, errática. Uma literatura que perambulava pelos vetustos corredores do jornal onde trabalhamos juntos e que resistia à mediocridade do dia a dia , das intempéries, dos amores que submergiam. Uma vez você falou e até colocou na dedicatória de um livro para mim :
--- Dick, na lembrança dos corredores do jornal que lembram os de um hospital ...
Pois é . Eu tinha pra você o codinome de Dick e nossas esperanças não estavam na UTI. A gente até latia na calçada às vezes e fumava uns Marlboros de rótulos vermelhos achando que estávamos tragando as noites.
Me lembro de um incêndio que ocorreu no prédio onde eu morava, na Vila Mariana. Era uma época onde não haviam celulares, e-mails , apenas minha ex-mulher gritando aflita ao telefone de que o incêndio ocorria dois andares abaixo e subia . Eu sai correndo pra proteger a futura mãe do meu filho. Desesperado e impotente sai do Bairro do Limão, dirigindo como um louco varrido e estacionei diante da tragédia que parecia se avizinhar. Mas a tragédia por sorte não se consumou e quando vi boquiaberto que o incêndio havia terminado sinto o aperto solidário da sua mão no meu braço.Você havia me seguido em um táxi. Lembrei outro dia disso e nem lembrava se éramos ou se fomos um dia tão amigos. Creio que sim . Mas amigos de marés. Uns meses mais outros menos. Lembro de você também sorrindo pelos corredores da Tv Cultura , há vinte anos, quando o Metrópolis começava . Há uma foto de nós dois em preto e branco a fazer caretas. Eu envelheci e você está morto. O mundo anda torto e perde o colorido. Dolorido também estou . Mas também feliz como uma cotovia de antigo e piegas poema romântico quando percebo que Caio Fernando Abreu virou uma referência literária, um morto que vai virando ícone. Cultuado pelo que escreveu no passado quando as histórias de mofados morangos corriam boca a boca. A sua que nunca foi santa sempre se suplanta. Não mexerique tanto onde quer que você esteja . Você ,naja, já se transformou no milagre da multiplicação dos verbetes. Continuo gostando muito do que você escreve. Mas fico muito triste quanto te leio. Talvez eu tenha que evitar o sereno pleno.

Comentários

Dama de Cinzas disse…
Eu gosto muito de Caio Fernando Abreu! Interesante essa sua relação com ele!

Obrigada por visitar meu blog, vou te acompanhar! Bjs
Roseane, disse…
Vim te desejar um final de semana com sabor mangostão!!! Eh eh eh...
Cora disse…
E de saudade se faz uma crônica...
um beijo Ricardo
Cin disse…
Vc o conheceu então?
Puxa queria ter tido esse privilégio também.
Sou fã de carteirinha dele, adoro a intensidade que jorram de suas palavras.
Ah! e gostei mto do seu estilo de escrever, textos com fluidez, leitura que prende.
Voltarei!
Bjos!
Bianca Feijó disse…
Que coincidência enorme...estou lendo, agora, Fragmentos do Caio, e hoje peguei no sono lendo(não por ser chato, mas por estar cansada) e quando acordo vejo o seu convite ao post sobre Ele.

Fiquei emocionada ao ler, principalmente quanto ao trecho do incêndio...imagino a emoção para vc que escreveu!

Uma dúvida, ele já era tão conhecido e idolatrado quando era vivo, ou foi só após sua morte?

Engraçado,mas depois de ler seu texto irei ler Fragmentos com outros olhos, com um coração maior que já havia...

Obrigadíssima, este texto foi um presente para quem o lê!

B.E.I.J.O.S
Anônimo disse…
Oi Ricardo!

Obrigada por presentear-me com o Caio nesta madrugada... Ler seus textos foram um refrigério pra minha alma...

Obrigada e parabéns por tê-lo conhecido!

Beijooooo grandeeeeee!

Silvana Mansano
Olá Ricardo! Obrigada pela sua visita e pelo comentário!
Poxa, acho que cheguei num dia bom por aqui ... logo falando do Caio ... nossa, tenho uma puta admiração por ele... amo, venero...
amei a sua crônica... parabéns pelo blog, com certeza... voltarei mais vezes por aqui...
bjs
disse…
Que bonito isso que você escreveu para o Caio. Eu adoro a literatura de Caio, e acredito que no seu caso o sentimento é mais nobre, afinal, vocês foram amigos, e o tempo que a amizade durou não importa.

Pensar que fumavam as noites ficou demais.
Ele se sentiria orgulhoso ao ler seu texto.
Geraldo disse…
Sorte a sua de ter privado da companhia dele. Esse cara é um dos meus ícones e referências
Abraço
Stephanie disse…
Ricardo,

belíisima sua crônica sobre o Caio. Gosto muito da literatura dele, que apesar do tempo, para o bem e para o mal continua atualíssima pra quem se vê às voltas com a solidão, as esperanças e o autoconhecimento.

beijo
poetriz disse…
Eu fico feliz quando "me" leio nas palavras de Caio.
Imagino ele assim mesmo, um amigo de marés. O texto dele denuncia isso, que ele era uma pessoa que vivia numa montanha russa: ora pra baixo, ora pra cima.
Acho que isso explica tanta gente gostar dele. Porque no fundo, todos nós somos assim, só não sabemos como explicar isso em palavras como ele fazia tão bem.

Bjs
Jeanne Callegari disse…
Olá, Ricardo!

Que curioso deparar com seu post. Vim à procura de seu blog justamente para tratar de um assunto referente ao Caio. Vou publicr um pequeno perfil dele em breve e tenho comigo uma fotografia em que você aparece, segundo a R. Echeverria. Gostaria de falar contigo sobre isso. Podes me escrever, ou me passar seu e-mail, por favor?
jeannecallegari@gmail.com
Abraços,
dani cabrera disse…
Você conheceu Caio?
Meu Deus, que honra! Vc é uma ponte com a essência de um dos caras que mais admiro nesse planeta.

Outro dia estava pensando sobre a forma que os nossos poetas morriam, e como têm morrido de uns tempinhos pra cá. Antigamente era a tuberculose quem nos arrancava os grandes pensadores - os decifradores de nós mesmos. Hoje em dia é o HIV, a overdose, eles mesmos (suicídio)...

Em algumas coisas Caio se definia como componente da decadência, da melancolia, do improvável: uma tentativa. Cazuza dizia também que ser "marginal" era uma decisão poética. Sabe que eu acredito que na verdade, o certo (e seguro) seja não pensar em nada, não medir nada, ter a preferência pelo irracional. Acho que assim é que se sofre menos, assim é que não se conhece o famoso beco da decadência que Caio tanto andava. Acho que ele até gostava um pouco dessa vida sofrível que levava, hemorrágica. E na verdade, sou um tanto assim. Mas o que me salva é que eu acredito em sonhos realizados. O "buraco" nunca me segura por muito tempo.

Amo tudo que diz respeito à Caio, se tiver algo legal e puder me enviar... : )

Olha, agora quero te falar sobre uma moça chamada Natália Anson, de POA. Eu sei que talvez seja exagero eu assumir que a vejo hoje como uma máxima na expressão letrada, mas queria te convidar a conhecer as coisas dela. Aviso logo: é simples! Tem dois links dela no meu BLOG: Natália Anson e Persona Non Grata. Acho que você vai gostar. Leio todos os dias, a moça é apaixonante!

Obrigada pela visita!
Amei ter passado por aqui.
Estou te "linkando" no meu espaço...


Um grande abraço!!!
Beauvoir disse…
Não sabes o quantom me acalentaste (ou inquietaste. Já não sei...) com essa crônica sobre o Caio. Como tenho uma péssima memória, minha vida - e seus desencontros, é claro - é marcada, principalmente, pela literatura, pois ela me deixa um estigma e assinala um determinado período meu.
Como o momento que vivo é demasiado conturbado e estou lendo Morangos Mofados (coincidêndia? Talvez.), ele provavelmente será a cicatriz a qual me fará lembrar dessa fase.
Já não consigo ficar um dia sem o ler e, sempre que vou iniciar um de seus contos, primeiro leio "Os sobreviventes", haja vista que é o que mais traduz o meu momento e, conseqüentemente, com o qual mais me identifico: os personagens estão tão confusos e desesperançosos quanto eu.
Muito obrigada por essa dádiva que foi conhecer um amigo de Caio Fernando Abreu.
Beijos

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