ÀS VOLTAS COM O DRAGÃO

Adormeci e despertei impregnado do “Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” filme de Glauber Rocha que reassisti em cópia restaurada na noite passada em concorrida noite de relançamento no Unibanco Artplex da Praia de Botafogo. Como ando há tempos em fase de “ermitonismo” explícito evitando "sociais" e badalações confesso que a principio compareci ao evento por cortesia a Sarinha Rocha , neta de Glauber e minha colega de trabalho na Tv Brasil , uma jovem profissional da maior competência , vivacidade e muita iniciativa.

Mas se a principio fui por Sara diria que também compareci pela memória de seu avô nesses tempos em que ele faz uma falta danada nessa assepsia mercadológica de filmes feitos para seguirem tendências de mercado e faturarem grana e muitas fotos e fatos nas revistecas de celebridades.

A vida e obra de Glauber é definida por muitas frases clichês, citações pedantes e teses mal escritas o que talvez faça dele hoje um cineasta muito mais citado do que assistido. Reassistir a “Dragão” foi por isso muito legal e devo essa à Sara . Eu tinha assistido o filme na minha adolescência em copia precária provavelmente no falecido cine Bijou em São Paulo. Não era o filme glauberiano que me causara o maior impacto embora tenha levado a Palma de Ouro em Cannes em 1969. Era e ainda sou mais fã de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

No entanto assistir ontem ao “Dragão” em outra cópia, outro contexto, outra época e outras companhias provocou em mim um efeito de revisão total sobre essa obra de Glauber. Primeiro porque me impregnei da atmosfera da realização do filme pois ali estavam presentes o magistral Othon Bastos e Odete Lara que compõe o elenco. Estavam também os produtores originais como Zelito Viana e Luis Carlos Barreto e boa parte da equipe técnica do filme rodado em Milagres, sertão baiano, em 1968. Aliás mais um presente que nos chega desde 1968.Não bastasse isso Sarinha me apresenta dentro da livraria do Artplex a dona Lucia Rocha ,sua bisavó e mãe de Glauber essa lendária e obstinada mulher que durante anos a fio vem batalhando a preservação da vida e obra do seu filho.

Mergulho pois na sala de projeção diante desse clima e vejo desfilar na tela toda a violência estilizada, a poesia visual, a catarse e o delírio glauberiano e me dou conta de que todos os clichês que se inventaram sobre ele foram uma maneira tosca de definir o indefinível. Glauber trabalhava aguçando todos os nossos sentidos ao mesmo tempo. O que você via não era o que você escutava. O que você escutava não era o que você pensava, o que você pensava não era o que você intuía. Glauber era um artista e a definição pode parecer simples demais. Não é num tempo em que os cineastas não fazem arte mas mercado. Não é num tempo em que cada cena rodada tem sobre si o cálculo de quanto reverterá em lucro. Sucede que arte também pode dar lucro . Tanto que esse filme se pagou quatro vezes como garante Zelito Viana.
Sai da projeção fazendo as pazes com meu próprio passado pois em dias vividos eu achava Glauber uma pedra fundamental da brasilidade, um esteta da poesia. Com o tempo fui achando que lhe atribuíam uma importância que não tinha. Queimei a língua. Glauber não faz falta apenas como um polemista ou um anarquista. Faz falta pra desafinar a canalha, o coro dos contentes, para colocar um muito de pimenta baiana e dendê em overdoses que desarranjem os intestinos presos da cultura nacional.

Comentários

Mr. Fart disse…
Nada a ver com esta postagem, Ricardo, mas esta notícia, devido ao seu Troller (roubado ou furtado?), pareceu-me poder ter interesse. Não estudei a lei ainda, pelo que não sei se tem efeito retroativo (não é o efeito normal das leis, ok?). Em todo o caso, como cautela e canja de galinha... &c:

"Devolução de IPVA para dono de carro roubado é aprovada
Caso o carro seja recuperado, condutor terá 30 dias para pagar o imposto.
Para valer, nova regra precisa ser sancionada pelo governador José Serra.

Os motoristas que tiverem o carro furtado ou roubado no estado de São Paulo poderão receber a restituição do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). O projeto de lei que estipula a regra foi aprovado na terça-feira (27/5), pela Assembléia Legislativa de São Paulo. Para valer, ele precisa passar pela sanção do governador José Serra.

O projeto de lei 1.393/2007 prevê o ressarcimento proporcional do IPVA a partir do mês seguinte ao furto – ou roubo – do veículo. Caso o carro seja recuperado, o condutor terá um prazo de 30 dias para pagar o imposto. Está prevista também a dispensa do pagamento do imposto em caso de perda total do veículo decorrente de furto ou roubo fora do estado de São Paulo."

E o melhor de tudo: não precisa de aaarghvogado.
Abraços
leve&solto disse…
Fart e Ricardo,

O duro é que ultimamente o Serra demora ou esquece de sancionar alguns projetos de lei que os deputados aprovam...

Digo isso por conhecimento!

De qualquer forma, me parece que o tal projeto de lei não foi elaborado por nenhum inimigo político... Estou torcendo!!!

bjs pros dois

Mara
ANGELO ALFONSIN disse…
Glauber deve estar dando gargalhadas com o que chamam de cinema brasileiro, hoje, melhor seria cineminha brasileiro.
Das comédias com artistas de novela do Daniel Filho ao estilo ppp, pó, puta e polícia é tudo muito ruim.
A Globo não bastasse as novelas na tv, agora levou-as para o cinema.
Glauber sempre esteve à frente do seu tempo, pagou caro pela ousadia
de subverter a linguagem início, meio e fim.
Hoje não se tem sequer um artista que polemize como ele, ou faça um filme em que as preocupações artísticas sobrepõem às comerciais.
toda pura disse…
Olha, perdão, vou escrever muito mais em resposta ao Alfonsin do que ao Ricardo.
Tanto quanto dizer que "Glauber é uma merda", é estúpido dizer que "o cinema nacional é uma merda, que não polemiza tanto quanto Glauber" e que tais.
Isso é, a meu pobre e tosco entender, uma obrigação de uma pseudo inteligência tupiniquim que acha que cinema, ou as artes em geral, têm que ser revolucionárias, polêmicas, engajadas (ai, essa palavra é tão pedante!).
Francamente!
Discurso antigo, chato e careta.
Glauber estava dentro de um contexto (outra palavrinha pedante!), de uma experiência, de uma tentativa de linguagem, ela mesma igual a tantas outras já experimentadas no cinema europeu. O que ele fez, com maestria, foi trazê-la para a realidade brasileira sertaneja, louca, surreal. E que, concordo com Ricardo,tem em "Deus e Diabo..." seu expoente maior.
Mas, gracias, o cinema brasileiro não parou por aí e produziu pérolas como "Toda Nudez...", "Vera", "A Hora da Estrela", e, ouso contrariar a "inteligência", "Cidade de Deus" e "O Cheiro do Ralo"(é esse o nome certo?), entre outros.
Fala-se tanto em "produzir para o mercado"...E daí? Tudo tem que ser para o mercado mesmo, se não a arte fica presa nos muros dos museus, restrita às cinematecas, herméticas e enclausuradas nos mosteiros dos "inteligentes", guetificadas.
Não dá para reduzir o cinema brasileiro à Globo. Não dá para reduzir nada a nada.
Imagino que Alfonsin odeie "Quanto mais quente, melhor", um filminho de quinta cujo objetivo maior era o de simplesmente fazer rir e que eu, mui humildemente, ADORO!
Êta povinho que acha que tudo que não é arquitetato pelo discurso udigrudi é ruim, sô.
Não se toca que esse é exatamente o objetivo da grande e obscura "força oculta"...
Abaixo as fronteiras estéticas!
Abaixo os discursos pequeno burgueses!
Abaixo tudo!
Viva a liberdade!
Marcio Gaspar disse…
muito bom o post e permita-me, ricardo, muito melhor ainda o comentário da toda pura. assino embaixo!!
Ricardo Soares disse…
é isso mesmo ! viva a liberdade dona toda pura e seu alfonsin ! inclusive a liberdade de escrever sobre outro assunto num post sobre glauber como o fizeram mr.fart e a mara... aliás , grato pelas informações burocráticas...

quanto ao post em si eu acredito sim na livre circulação de idéias de todos os matizes... e tanto quanto acho que o discurso udigrudi não deve estigmatizar os que fazem cinema de mercado o cinema de mercado não pode estigmatizar o udigrudi...e , agora perdão dona toda pura ! mas quem leva biscoito fino para as massas não é o cineminha de mercado não mas aquele que propõe novos ângulos e novas dimensões... cineminha que dilui comédia romântica e reproduz timing de novela subestima e mediocriza o espectador... o atrito é que gera eletricidade! por isso glauber foi importante... mesmo tendo falado ou feito merdas...

marcinho... fique a vontade para elogiar os cometaristas desse blog... não tenho o menor ciúme... abração pra vc
leve&solto disse…
Ric, sorry...

Entrei, como todos os dias, pra saber o assunto... e acabei não resistindo!

De qualquer forma, tenho certeza que vc é light pra esse tipo de situação que o querido Fart começou e eu continuei...rs

Ahh, Glauber é tudo!!!!! rs

Bjs

Mara
Ricardo Soares disse…
mara... não te puxei a orelha não! vc e o fart podem comentar quando quiser e o que quiser... foi isso que eu disse. Aqui tem espaço até pra me esculhambar
beijo
bernard n. shull disse…
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leve&solto disse…
Pra esculhambar também??? rs

Tô pensando, pensando, pensando.... ok, por enquanto só elogios, mesmo sabendo que a qualquer momento vc poderá ficar altamente cítrico e crítico!!! rs

Sei que não foi puxão de orelha... é que sou educadinha (com quem merece)...rs

bj

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