DOMINGO DE MANHÃ

Não tem tensão nenhuma. Tem tesão de domingo de manhã com o sol entrando nas chanfras da janela e algum radinho de pilha ligado ao longe enquanto a toalha molhada se pendura no parapeito e um cheiro de pão dormido na chapa irradia a vontade de tomar café forte .
Aquele mix de shampoos deu uma coceira na cabeça e a cortininha do box com seus motivos de sapinhos está tão desgastada e velhota que mal protege o banho quente que vai inaugurar essa lida . O edredon laranja caiu no chão e nem se repara se a poeira é do bem ou do mal porque o calor matinal espantou as alergias e as rinites e os pássaros passaram adiante o serviço de despertador.
Dois ou três copos de vinho estão no assoalho. Meio bebidos , meio fumados, largados antiqüíssimos como os nacos de pizza em pratos mortos que não foram devorados na noite de sábado. As visitas foram sem se despedir ? quando é que se devolve o filme na locadora ?temos que gostar de Sally Field ?
Alongamento diante da janela ao lado da rede desbotada onde jaz o gato gordo que ri. A bicicleta está largada na sala pois na garagem os larápios levam os espelhos . Ontem várias pilastras ficaram marcadas do amarelo horrível do carro. Economizar pra funilaria pois se fosse no Rio seria lanternagem.
Há um estranho catálogo dentro do jornal dominical que anuncia as cidades exóticas do planeta. Dars El Salaam, essa é a escolha quando o avião passa no horizonte e um barulho de lata batida faz-se ouvir três andares abaixo.
Ainda há sono pelo apartamento e ninguém pensa na cozinha , na louça ou no que fazer para o almoço. Uma porção de imãs na geladeira anuncia que um bom yakisoba pode ser a solução dos problemas. Mas ninguém aqui gosta de repolho. Ah, mas tudo bem . Ninguém gosta de repolho, do sindico , do governador e todo mundo anda olhando torto pra o presidente. Nem por isso vamos deixar de esticar o corpo no sofá, olhar o cão gordo que mendiga o passeio e pedir pra ele dar um tempo que mais tarde quem sabe ganha uma volta no quarteirão. Sentem-se algumas gramas a mais se acomodando na cintura. É o peso do domingo que se encaixa enquanto uma nuvem de algodão desenha um naco da infância no olho dos adultos.

Ricardo Soares , madrugada de 13 de julho de 2008

Comentários

Olivia disse…
Que delícia começar o domingo com crônica tão bonita, com cheiro de pão na chapa, com gosto de café forte...
Bom-dia, Ricardo!
Olivia
Pinto disse…
Estás linda no autoretrato.
leve&solto disse…
Bom dia!

Melhor ainda com pãozinho na chapa...

bjs

Mara
leve&solto disse…
Nooossssa!!!!! Como sou lerda!!! rs
Agora que percebi que trocou o banner..rs

Quer saber? Respeito quem prefere não mostrar a "cara", mas prefiro saber pra quem deixo meus comentários.
Nada como olho no olho!

Boa escolha a mudança!

+ bj

Mara
Laércio Miranda disse…
No seu blog gostei também do que voce escreveu sobre o Bernardinho, mais adiante irei postar no meu o seu post sobre o mala oriental.
Também não vejo a hora de assisitir Colombianos, e espero que voce nos avise por aqui.
Abraços!
Flavia disse…
Tem dias que dá uma preguiça viver, não?

Bjs!
Anônimo disse…
Olá, tudo bem ?
Venho sempre ler o seu blog, mas hoje estou como anônima.
Venho fazer um desabafo no meio de tanta notícia importante que tem aqui.
Me especializei eu uma profissão que não dá pra sobreviver direito. Por isso estou procurando emprego em outra área, e a gente sempre de depara com as roubadas da vida. Hoje eu fui a uma Corretora de Imóveis (Moema Imóveis, situada na Av. República do Líbano, n° 2256 em São Paulo, capital). Eu já vira muitos anúncios do tipo, mas um em especial me chamou atenção e eu fui conferir. No anúncio, eles pediam pessoas de 25 a 50 anos com bom nível cultural para vender Imóveis em região nobre da cidade, com carro e disponibilidade imediata, com "possibilidade" de ganhos de R$ 2.600,00 por mês. "Laranja madura na beira da Estrada, tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé". Ok. Fui lá. Na entrevista, me disseram que não haveria ajuda de custo alguma, salário algum, registro algum, somente comissão de 2,4% sobre o total da venda. Enfim, enquanto você não vendesse algum imóvel, pagava para trabalhar. Gasolina do seu bolso, almoço do seu bolso, conta de celular do seu bolso. E isso de domingo a domingo, 3 domingos de folga (opcionais) por mês. Corretores de Imóveis, geralmente, precisam do CRECI (um registro) para trabalhar. Este não pedia nenhuma documentação, apenas documentos pessoais e, é claro, ficha de antecedentes criminais.
Todo o dia são divulgados dezenas de anúncios ultrajantes como este. Li “As Vinhas da Ira’’ do Steinbeck e me lembrei muito deste livro hoje.
Não é que eu não tenha estudo, eu o tenho. Não sou uma pobre coitada. Senti-me ultrajada e por isso venho fazer este desabafo, porque tentei denunciar no CRECI de São Paulo e liguei para Brasília no Ministério do Trabalho. No CRECI, o atentente da "ouvidoria" (!) já começou a ligação dizendo que não poderia fazer nada. Eu explicando e o sujeito nem esperava eu me explicar e já dizia que não podia fazer nada. No Ministério do Trabalho, em Brasília, não atenderam o telefone. Email nem vou passar porque não vale a pena, vão me mandar uma mensagem automática qualquer.
Sabe? Acham que eu não quero trabalhar, e não é verdade. Gostaria que empregos ultrajantes como estes não tivessem ampla divulgação e que a fiscalização do CRECI fosse eficiente, para que trouxas e desesperados não tenham que pagar para trabalhar.

Citando Paulinho da Viola:

“Que trabalho é esse
Que mandaram me chamar ?
Se for pra carregar pedra
Não adianta, eu não vou lá”


Obrigada.

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