Fazes falta Joel Silveira

Na mídia ninguém mais tira sarro dos ricos. Ninguém tira mais sarro da classe média que quer se parecer com os ricos. Ninguém tira sarro dos pobres que querem parecer classe média que querem parecer ricos. E ao ninguém tirar sarro de ninguém – ou tirar onda como preferem os cariocas – a nossa mídia, a nossa imprensa, vai ficando cada vez mais insípida , inodora, protocolar, formaloíde e politicamente correta . Não há mais textos ácidos e cheios de picardia. Não há mais a implacabilidade, o tom jocoso que deveria permear o raciocínio crítico de todos aqueles que gravitam ao redor do poder.
O poder existe para dele se aproveitar os poderosos e para dele rir os que não tem acesso. Levar a sério o poder e a riqueza é de uma miserabilidade intelectual total. Mas é o que faz em superlativa maioria a mídia globalizada achando que tudo e todos querem aderir ao mercado, às marcas , às grifes ao modus vivendi onde devemos encaixar nosso modelo de felicidade.
Nesse contexto faz muita falta o veterano repórter Joel Silveira ( foto) que faleceu em agosto do ano passado já entrado nos oitenta, muito alquebrado fisicamente mas intelectualmente vivo e bem disposto. Deixou uma obra vasta entre contos, crônicas muitas, muitas reportagens impecáveis e ácidas que lhe deram a fama e a alcunha de “víbora”. Tenho o privilégio de estar em fase final de roteiro de um documentário sobre Joel Silveira que deve ser exibido pela tv Cultura. Tenho bastante tempo de gravações inéditas com ele e espero que os amáveis leitores tenham a chance de assistir a esse trabalho pois aí entenderão porque lamento a ausência de tipos como Joel em nossa mídia. Não sei se haveria hoje espaço para alguém como ele. Mas será raro ter num só profissional a soma de um correspondente de guerra, um beberrão, um falastrão , um contador de causos, um polemista, um grande repórter e um texto impecável. Fazes falta Joel...

Comentários

Ana disse…
Também sinto falta dessas coisas... continuo acreditando que no Brasil, a ditadura deu certo!
Obrigada pela visita, muito bem vinda... grande beijo parceiro Peter! =*
ANGELO ALFONSIN disse…
Vou assistir de joelhos o documentário, Ricardo, como também fiquei muito comovido pela lembrança desse quase personagem.
Joel Silveira foi uma reserva moral da nação, o último grande homem brasileiro de imprensa.
Salve Joel.
Carol Rocha disse…
De Joel Silveira, li apenas "A milésima segunda noite da avenida paulista". Até então, não conhecia o trabalho dele.

Sobre o jornalismo mais "áspero", talvez estejamos com medo dos processos milionários. rs
Raras empresas bancam o trabalho do jornalista hoje em dia...
G disse…
Hoje, domingo, às 17 h. na TV Brasil foi ao ar o segundo programa da série Revista Brasil com minha direção (uma criação e supervisão do Ricardo Soares). Não posso deixar de dizer que o Ricardo não somente criou o programa como me ajudou demasiadamente (foi meu parceiro) a realizá-lo. Foram muitas discussões de criação, uma “faz e refaz” sem fim, mas o produto ficou pronto (e me sinto muito orgulhoso e tenho certeza de ele também).

Trata-se de um programa novo, moderno com enorme conteúdo e profundo senso de estética. Um programa sincero e, de certa forma, “sofrido” para encontrar um ponto de maturação. Foram noites insones, angústias e alegrias que percorremos todos: ele, Ricardo, eu e toda a minha equipe que comprou essa briga (se eu citar nomes, serei injusto com alguém por esquecimento). Ser novo e moderno não é muita coisa porque sempre existem pessoas boas criando coisas novas. Não. É importante porque é um produto completamente diferenciado do que se assiste na televisão e ele é próprio da Tv Brasil, uma TV Pública que nasce, apesar dos meios de comunicação e crítica não darem o valor, não anunciarem, não se manifestarem. Talvez a TV Pública não tenha ainda setores competentes para a divulgação, não sei. O tempo dirá.

Mas isso não vem ao caso. Um programa, se for de interesse público, se buscar sempre um viés de diferenciação, irá cativar as pessoas de uma maneira ou de outra, nem que seja no “boca a boca”. O barco foi lançado ao mar. As velas se enchem de vento e nos fazer singrar, ir adiante. O tesão é indescritível, desde o criador, Ricardo, até o mais novato estagiário. Estamos todos querendo fazer mais e melhor. As adversidades são enormes, indescritíveis, mas não creio que nos façam retroceder ou diminuir a vontade.

Vamos em frente!

Geraldo Iglesias
Davi Arloy disse…
Ah, as vezes eu sinto falta de uma boa e velha censura .. só as vezes.
Sir Fart disse…
Nome de respeito. Belíssima iniciativa!
Parabéns.
Paulinas disse…
Excelente, não vejo a hora!

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