o banzo da ponte-aérea

ou quando a prancha fica fincada na areiaO assunto do post do dia seria outro, bem outro. Mas o banzo de mais um vôo da Ponte-Aérea, o calor, o formigamento dos pés, o mal estar provocado pelo entra e sai de ar condicionado gélido para a rua quente me fez filosofar à la botequim sobre os nossos começos, os nossos meios e nossos fins. A onda bate forte contra a prancha e às vezes quase nos derruba. A metáfora é surfistica mas a sensação é real. Tem hora que a gente tem vontade de deixar a prancha na areia, fincada de pé e deixar tudo pra trás. Só a prancha apodrecendo ao vento pra provar que um dia naquela praia estivemos. Mas a praia mudou e onde antes havia um riacho hoje existe é um córrego sujo que traz esgoto. Onde antes haviam casas de pescadores hoje existem condomínios solares que vendem conforto , cimento, piscina, necas de árvores e muito baticum na vizinhança. De preferência funk metelão ou axé imbecil. Onde antes haviam trilhas bucólicas existem agora todas as especulações , inclusive imobiliárias. Decolo do Rio com calor mas sinto frio no avião. Depois muito calor de novo. Que sensação é essa que me abafa quando olho de cima as ilhas Cagarras e no instante seguinte, abrindo a janelinha, vejo a Rodovia dos Imigrantes chegando a São Paulo ? Onde é que foi que a represa de Guarapiranga se fundiu com o visual do Arpoador ? Onde estão os mendigos que assaltam na avenida Princesa Isabel em Copacabana se agora , em sua miséria suja , Copacabana se funde a Diadema ? ontem nublou o tempo no Rio e eu me entoquei. Fugi da praia. Hoje , tempo luminoso, eu é que me nublo quando saio do Leme e encontro meu destino no táxi ao lado. Ou será que ele foi para a região dos Lagos ? ou será que ele nasceu em Campo Grande, passou por Sepetiba e desfila com a escola de samba de Vila Isabel ? Meu destino creio estar com problemas nos rins e tem medo até de urinar. Eu transpiro por mim, pelos nossos destinos, pelas nossas inseguranças pois gatunos estupram e matam em Santa Tereza e o prefeito carioca quer "limpar" a Rocinha . E o que é limpar a Rocinha seu prefeito ? O "seu prefeito" está com defeito ? Nossa indecisão vai parar na televisão ? Realmente defeco e caminho para os bairrismos pueris. Não sou mais carioca, não sou mais paulista , nem chato pernambucano. Sou uma baita geografia invertida, avesso do ponto cardeal de mim mesmo. Nenhum GPS me guia e hoje saia leitor da minha companhia. Os males do banzo são inexplicáveis...

a propósito : na informalidade diz-se que a palavra "Banzo é usada quando a pessoa está triste, pensativa, melancólica. É termo da região nordeste do Rio Grande do Sul. Mas já ouvi banzo sendo dita como aquele movimento que os barcos fazem nos rios da Amazônia, chacoalhando pra lá e pra cá. No caso do texto acima as duas definições são cabíveis.

Comentários

angelo alfonsin disse…
Caro Ricardo, quando aqui no Rio Grande chove, faz frio e o Minuano vindo da Argentina queima orelhas e racha beiços, o banzo nosso de cada dia vai para chocadeira e gera filhotes para o inverno todo.
Só um texto inspirado como este é capaz de modificar meu estado de espírito já "banzificado" pela natureza sulista de ser.
Não fique triste, meu amigo!!
Tudo passa.. o banzo passa!
Se alimente da notícias de que, pras bandas de cá, há anas, claras e manuelas que muito te gostam!!
beijos e saudades
Groo disse…
"Os males do banzo são inexplicáveis..."

Tanto que eu não consigo explicar sequer meu banzo, imagine!

abs
Poli Macedo disse…
imagine banzo no calor!
adoro seus textos e comentários..
e o banzo da região amazonica é isso ai mesmo..
sabe quando fico nessa situação de 'banzo'.. viajo.. ou vou ver coisas diferentes para não me decepcionar com que o vejo todos os dias ..

beijos!
Udi disse…
Afe! ainda bem que não li isso ontem! Tava assim também. Será porque segunda-feira?

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