PARTIDARIZAÇÃO DA IMPRENSA

O tema que dá título ao post não é novo e foi amplamente debatido quando o professor Wanderley Guilherme dos Santos levantou a questão. A chatice dogmática ultrapassou fronteiras e criou aqui entre nós uma "guerra fria" que ao invés de colocar de um lado o bloco soviético e do outro o bloco americano coloca as coisas nos moldes de um bloco tucano de um lado e um bloco petista de outro. Isso faz com que não mais se debatam idéias, conceitos e questões nacionais e sim se elas são tucanas ou petistas. Além da incomensurável chatice que isso abarca junta-se o fato da corporação jornalistica se levar a sério 100% do tempo abolindo o senso de humor de qualquer tópico que poderia ser discutido de maneira mais relaxada. Assim virou um porre vermos um ringue de vaidades colocados na mídia onde egos transatlânticos duelam para ver quem tem a supremacia sobre a verdade. Independente de eu gostar ou não de alguns dos contendores, deles serem ou não talentosos, realmente essa malta tem contribuido não apenas para a partidarização da imprensa mas por sua "juridicalização" total visto que uns processam os outros entupindo os escaninhos da justiça de blasfêmias, calúnias e difamações. Nada de debates irônicos , intelectualizados ou de alto nível. Golpe certeiro eles parecem entender que são aqueles dados abaixo da linha da cintura. Os calções vermelhos de um lado do ringue são vestidos por Luis Nassif, Mino Carta, Paulo Henrique Amorim entre os mais falados e comentados. Os calções azuis ficam com Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi , Arnaldo Jabor, Miriam Leitão. A lista pode aumentar ou diminuir dependendo do mês ou do assunto em questão. Mas o que não diminui são a pobreza dos argumentos visto que são ralos como os cabelos do tucano Serra ou a polidez verbal do presidente Lula os líderes máximos das facções em disputa. Assim sendo vemos um vale tudo verbal onde não se discutem soluçoes práticas mas se acumulam teorias conspiratórias e dedos nos olhos. Vemos profissionais de renome ( como Mino ou Paulo Henrique)por exemplo darem destaque às blasfêmias e estultices do primata Ciro Gomes simplesmente porque ele é anti- Serra e vemos muita gente respeitável levantando a bola de declarações levianas do ex- presidente Fernando Henrique apenas por ele ser um anti -Lula. Enquanto essa parcela da tropa de elite da mídia nativa continuar defendendo interesses de partidos e pessoas ( e em consequência formando mal a opinião dos seus leitores) muitos vão achar que o que se dabate no Brasil são programas partidários para se tirar vantagens e não idéias. Se em proporções modestas muitos leitores desse blog o confundem às vezes como pro- governo ( pelo fato de eu apontar tanto erros e acertos do nosso mandatário) o que dirá que dizem em relação aos muitos dos nomes aqui citados que expressam suas preferências partidárias todos os dias na grande mídia ? Estamos imersos num muro de Berlim midiático que lamentavelmente não caiu ainda aqui no Brasil. Não existe essa de MST vermelho de um lado e agronegócio azul de outro. Não existe essa de Chavéz vermelho de um lado e Uribe azul de outro. Não existe essa de Fidel versus Obama ou de Evo Morales versus Cristina Kirchner. Se a mídia que deveria explicar que fazemos todos afinal parte do mesmo conceito globalizado de economia ( com necessidade de busca de fontes alternativas de desenvolvimento) onde não cabem tantos dogmas, se essa mídia que devia esclarecer, elucidar, ponderar não o faz, quem haverá de prestar esse serviço ? por enquanto dividir o mundo entre bandidos e mocinhos, tucanos e petistas, terceiro mundistas e cosmopolitas é transformar todo esse caldo num enorme sopão mexido pelos idiotas da objetividade para lembrar aqui um termo do imortal Nelson Rodrigues.

Comentários

Groo disse…
Tá mesmo muito chato, Ricardo. Quem acompanha esses jornalistas da dita "direita" só fica "informado" sobre um único tema: a crise. Isso aí já é especialidade da Miriam Big Pig, apocalíptica como ela só.

Por outro lado, o dos ditos "esquerdistas" qualquer coisa é da "imprensa golpista". Paulo Henrique às vezes dá umas exageradas...mas na história da propaganda da SABESP ele mandou bem.

Gozado...foi neste final de semana mesmo que eu estava conversando com alguns amigos e falávamos sobre um período de "marasmo" que estamos passando. Ao final reduz-se tudo a ser "contra ou a favor" do Lula ( Yes, Lula is the man!) e fim de papo. Fala-se o tempo todo em "crise mundial" e em assuntos "macros", mas costuma-se esquecer o que acontece na cidade, no bairro; aqui em Salvador a coisa tá feia ( violência, dengue, vereadores sacanas que criam 44 cargos comissionados que custarão uma fortuna em salários, escolas caindo aos pedaços, o predomínio dos pagodes de baixo nível e grupos de axé mandando ver na parte de "cultura") e o debate aqui resume-se a "culpa do PT" e "herança de ACM". E ficamos nesse joguinho bobo enquanto Salvador vai perdendo sua essência e se transformando em uma cidade abandonada e sem rumo.

Complicado.

abs!
angelo alfonsin disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
angelo alfonsin disse…
Maravilha Ricardo, ótima análise de quem pratica um jornalismo sério.
O que esperar de um povo educado pela televisão ou com tais "formadores de opinião", o pior.
Aqui no Rio Grande vivemos o desastre do governo Yeda-Yoda, e a Globo local (RBS) apoiando a falência da segurança, da educação pública ( ministrada em containers )com os professores sendo tratados como caso de polícia( lembram o presidente Washington Luís ?).
E pensar de que o Nosferatu vem aí, salve-se quem souber.
abraço
Excelente!
Daí a importância de "nós-os-leitores" não reproduzirmos a situação, "xingando" e desqualificando aqueles que escrevem coisas que não gostamos ou gostamos menos...
Como você disse, "tornar as coisas QUESTÕES, novamente", é plausível e urgente.
Uma questão, é porque nos infantilizamos cada vez mais (políticos, eleitores, imprensa, leitores), tomando a coisa como "disputa-por-brinquedos-na-pracinha", ou no máximo um "fla-flu"... A coisa está patética!...
O que andou(a) acontecendo por dentro de nós para cairmos nessa esparrela?
Não desmerecendo o prévio "momento-solilóquio", da gente bater um papinho com a gente, mesmo, e perguntar: -"Estou de fato exercitando meu senso crítico, ou estou apenas embarcando num caldo de senso comum junto aqueles que me identifico de imediato?"
Senão o risco das QUESTÕES "desmancharem no ar" aumenta prá chuchu...
PARABÉNS!
BJS!
leve solto disse…
Excelente texto!
Udi disse…
É fácil ser maniqueísta... e dual. Será que este é (só) o país do futebol? ...torço para o Corinthians e ele é o melhor time do mundo! Mas... nas "coisas públicas" temos que sair da arquibancada e olhar com discernimento.
Ricardo, vamos amplificar essa tua idéia!
bj
Júlio Lins disse…
Pois é. Por isso que eu não leio mais nenhuma revista. Nem Veja, nem Istoé, nem Carta Capital, nem Época... São todas partidárias e extremamente parciais.

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