"O AMOR É IMPORTANTE. PORRA"

( E PRODUZ LIVROS LINDOS)


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa
Nunca fui dado a escrever ensaios o que requer razão , sensibilidade, experiência e paciência, atributos que me são raros. Me considero ainda uma experiência inconclusa e ensaio, isso sim, o que vou querer ser depois dos 50 que completo no mês que vem. Mas não vim aqui para falar das crises de um senhorzinho de meia idade mas para falar do amor dando voz a uma visceral pichação que ronda São Paulo nos últimas semanas e que sentencia: “ O amor é importante.Porra”.

Dando vez a esse pensamento eu junto a pichação ao poema de Álvaro de Campos para dizer que o amor é importante e que nem todas as cartas de amor são ridículas e mesmo que nelas estejam embutidas tantas nuances ridículas podem ser uma explosão, um clarão no meio da noite, algo que nos ajusta nos prumos ou nos tira deles de uma vez. Afinal é assim que me sinto após ler talvez o que eu considere a mais linda carta de amor que um homem escreveu à sua mulher, o belíssimo, o pungente, o comovente livro de André Gorz chamado “Carta a D. História de um amor” que ele dedicou a Dorine, a mulher com quem viveu quase 60 anos.Após ler esse livro sinto que sou um homem de merda,repleto de egoísmos e crédulo em falácias, alguém que como muitos não sabe dividir sequer um capítulo inteiro dessa aventura chamada vida com o perdão do lugar–comum para lá de infame. É que após ler Gorz eu me sinto infame.Indigno de receber o amor de qualquer mulher porque jamais conseguiria como ele repartir sequer uma pequena fração do que ele deu pra viver a dois o que ele poderia (teria conseguido?) vivenciar sozinho.
Judeu austríaco, nascido em Viena, Gorz – cujo nome verdadeiro era Gerhard Horst -fugiu do nazismo para a Suíça e, depois, foi para a França onde se tornou um jornalista e pensador político influente nos anos 1960. Seguidor de Sartre, combinou existencialismo com marxismo, fundou e militou no maoísmo e foi um dos grandes inspiradores dos estudantes que se revoltaram no maio de 68 parisiense. Depois migrou para a questão ecológica nos anos 1970 e repensou suas bases de ação política. Sua obra influenciou muita gente de gerações anteriores à minha aqui no Brasil onde ele é ainda pouco conhecido, com poucos livros publicados como “Metamorfoses do Trabalho” e “Misérias do Presente, riqueza do possível”.
Sua história de intelectual e escritor é apenas um fugaz pano de fundo em "Carta a D." pois ele prefere falar da sua longa vida ao lado de Dorine: do momento em que se conheceram – para ele uma paixão a primeira vista – aos tempos de pouco dinheiro até períodos de tranqüilidade financeira e emocional quando doavam o que tinham em excesso. A descoberta de um erro médico provocou em Dorine uma doença progressiva que lhe limitava os movimentos e trazia dores horríveis. Gorz então se retira do mundo intelectual para cuidar dela. Se exilam numa casa de campo na França, onde ele se redime das muitas noites que a deixou de lado pra ler e escrever e passa praticamente a viver pra cuidar dela. Ele coloca o amor em primeiro lugar e penso comigo que deve se amar mesmo uma mulher que como Dorine disse a ele , um escritor : “Amar o escritor é amar que ele escreva”. Ou seja , se ela o chamava pra se deitar é apenas para provar que o queria ao seu lado , aquecendo seu corpo nas noites de frio. Mas sabia que o chamado da escrita era maior, mais forte, mais urgente como foi o ato de amor extremo que ambos cometeram em setembro de 2007 quando se suicidaram com uma injeção letal pois ele diz quase ao final de “Carta a D.” : “Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro”.Lendo o livro, por incrível que pareça, a gente acaba achando que o desfecho da vida deles não é tão trágico como parece. Um amor como o deles era feito de dois mesmo. Sozinho eles não sobreviveriam. Desde ontem a noite quando acabei de ler esse livro eu concordo mais do que nunca que “O amor é importante.Porra”. E que nem todas as cartas de amor são ridículas. Muitas delas podem ser uma catarse, uma revelação, uma certeza de que após a leitura delas nada será como antes. O livro é bonito demais e para quem duvida,começa assim:
“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável.
Já faz cinqüenta anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”

Ps. Serei eternamente grato ao meu amigo Fernando Costa, publicitário e enfant- terrible cearense que me recomendou vivamente a leitura desse livro adquirido mês passado quanto estávamos juntos na livraria Cultura do conjunto Nacional em São Paulo. Nós dois, quase cinquentões, estamos ficando “passionais por dentro” como diria o sambista Jorge Aragão.

Comentários

Marcio Gaspar disse…
belíssimo post, ricardo! pô, amar é importante, já dizia hermelino neder em uma de suas poucas músicas razoavelmente conhecidas. de minha parte, fui introduzido no 'amor literário', ainda na adolescência, pela tristemente bela saga de werther, o personagem inesquecível de goethe.
leve solto disse…
Maravilhoso post!!!

E, repito, prefiro esse seu lado!!

Mesmo achando que está expondo até as vísceras, transmite o homem que imagino que deve ser: doce.

"O amor é importante. Porra" - concordo em número e grau!

Ame!!

bjs

Mara
Graziela Motta disse…
Sou sua fã, mais do que nunca depois deste post!
Ricardo Soares disse…
marcinho :
Quanto ao "Amor é importante. Porra " toda vez que vejo a pichação lembro tb , como vc, daquela bela canção do Hermelino, trilha do filme "Cidade Oculta", lindamente interpretada pelo Paulinho Barnabé e (pasmem!!) pela Tetê Espindola... aquele abraço pra vc...

Mara,esse meu insustentável peso de ser lhe agrada ? que bom...quanto a ser doce eu diria que perto dos 50 ando mais é salgado mesmo !!! e expondo as vísceras !!! afinal blogs não são também uma especie de diário ??? kisses pra vc...

Graziela... ler numa manhã de quarta - feira que a gente tem fã tão longe e tão jovem dá um alento de otimismo danado , sabia ? obrigado... beijo
elisabete cunha disse…
RICARDO

Simplesmente maravilhoso o seu post,gostaria de
escrever
um
post assim cheio de alma e tesão!

Porra,deu tesão.....
Groo disse…
Sim, sem dúvida produz belos livros. Na verdade o amor é a "força motriz", o mote, a inspiração para tão belas obras na literatura, música...

Já ouvira falar de Andre Gorz, mas não deste livro em que ele declara seu amor à esposa. É uma boa indicação.

E seu ensaio está ótimo, Ricardo. "Após ler esse livro sinto que sou um homem de merda,repleto de egoísmos e crédulo em falácias, alguém que como muitos não sabe dividir sequer um capítulo inteiro dessa aventura chamada vida".

Bom, muito bom!

abs
Leandro Márcio disse…
Sabe o que penso cada vez que leio um troço desses como o seu ? que os melhores escritores não estão na lista dos best - sellers, que os melhores escritores estão tímidos, escondidos, ressabiados , desiludidos. Que os melhores escriotores e escritoras perderam as esperanças. Desde muito eu te acompanho. Desde as crônicas do Estadão. E lamento que você escreva pouco e publique menos ainda. Cadê você e algumas escritoras amigas suas que não colocam a cabeça fora para desbancar essa ditadura de escritorezinhos amigos dos editores da Veja ? Vais continuar me decepcionando ? Aquele abraço, comovido por esse post. Amar escritores como você é importante. Porra.
leve solto disse…
Ric,

Me agrada sua escrita sim. E mais ainda quando consegue esquecer os quase cinquenta (esse papo já está enchendo...rs Porra!) e sim, deixar seu lado doce totalmente exposto!

Concordo, blogs são diários. Muitas vezes escrevemos neles o que não conseguimos dizer ao mundo.

Continuo achando que esse "peso insustentável de ser" não deixa de ser uma leitura errada de vc com vc mesmo!
Putz, será que falei de forma muito complicada??? rs

+ bj

Mara
Udi disse…
Delícia de postagem!
Como flui a sua escrita, tanta informação numa leitura tão leve.
Obrigada pela indicação do livro.
Lugirão disse…
Eu, quase cinquentona, cearense, adorei seu post e vou procurar o livro.

Porque o amor é importante sim, com ou sem o porra!
Intrépida disse…
Ric,

Veja, já flertei tantas vezes com esse livro que perdi a conta. Agora, depois desse texto show, é claro que vou ler! Sou uma romântica! E terrivelmente ridícula.

Mas, uma coisinha...

MEU QUERIDO, O POETA NÃO SE ENGANOU!!!! TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS, O AMOR É POR ESSÊNCIA RIDÍCULO...

É preciso ler a origem da palavra... o tal "ridículo", do latim ridiculu, significa aquele que provoca riso. Claro, no adjetivo o sentido fica pejorativo, mas, fico com a essência da palavra.

E NESTE PONTO, MEU CARO, VOCÊ É TOTALMENTE RIDÍCULO!!! ME PROVOCOU UM MONTÃO DE RISOS FELIZES AQUI.

Obrigado, querido amigo, ridículo!

da sua amiga, igualmente ridícula (no meu caso, nos dois sentidos mesmo...rsrs..)

bjo, da Intrépida.

depois que ler passo aqui pra contar o que achei.
toda pura disse…
Me ocorreu, também, e de imediato: "pô, amar é importante! cê não imagina a emoção que eu fico, quando estou contigo, ou não estou..."(ou algo assim).
E eu, em estando aqui e não estando, e após ler seu tratado sobre o amor (pois que era um, e era seu!), só faço deixar meu beijo molhado, saudoso e ridículo.
With love, baby...
Ricardo,
Já algum tempo circulo por aqui lendo seus textos. Gosto muito de seu estilo. Sobre esse livro, cara, trabalho em uma biblioteca e todos os livros que chegam passam obrigatóriamente por mim.Já tinha despertado um certo interesse mas depois de ler seu texto, vou correndo pegá-lo pra ler. Obrigada por mais essa dica literária.
Bjs
Ricardo Soares disse…
Elisabete... as vezes me parece que escrever é apenas deixar fluir...um bacio e grato pelo elogio

Groo... teu blog é muito fluido e fluente...por isso só me estimula a continuar mantendo esse espaço ao receber afagos como esse que me mandas... abs

Leandro... nem sei se estou com essa bola toda não. Apenas faço o que gosto, nada mais. Ou tento fazer. Já faz tempo que desisti de marketing pessoal pois entendi que hj em dia literatura é mercado. Os bons (e não falo de mim mas de uma lista imensa) geralmente não aparecem como deveriam. Se é que aparecem... abs

É Mara !!! porque os blogs são diários é que eles ficam assim tão variados... acho que uma porção em um só . Por isso devo agradar e desagradar gregos e baianos... kiss

INtrépida... o que quis dizer é que apesar de eu tb achar que todas as cartas de amor são ridículas as vezes por serem ridiculas elas são especiais... a carta do Gorz não é ridícula... mas visceral, expõe o amor e suas entranhas. Um troço lindo. Que bom que vc já flertou com o livro. Mergulhe nele então... bj

Toda Pura... o caso é que se o amor ou as cartas de amor podem ser ridículas o amor pode tb ser rodeado de clichês como aquele que está estampado na música do Milton... qualquer maneira de amor vale a pena...kiss

Gisele... tive que ir no seu blog pra descobrir seu nome !!! fico feliz se ser acompanhado aqui por uma pessoa como vc que lida todos os dias com livros...e mais feliz ainda por ter despertado em vc a curiosidade por esse livro em especial... acho que vc vai adorar... volte sempre... bj
Ricardo Soares disse…
ahhhh... ficou faltando a udi e a lu girão

udi ... com esse elogio vou acabar acreditando... bom ter vc como leitora assídua... kiss

lu girão... quase cinquentona,como eu, quase cinquentão ... quanto ao Ceará gosto de quase tudo no seu estado tirando Ciro Megalô Gomes e e seus apaniguados... e que bom que adorou meu post e vai procurar o livro. Tomara que vc goste como eu gostei... kiss

Porque o amor é importante sim, com ou sem o porra!
dia-a-dica disse…
Socinho, amei esse post. Lindo, um bálsamo para este meu fim de dia conturbado. Depis de lê-lo, não farei mais nada. Vou me recolher, me deitar e dormir com meus filhotes, abraçada a eles e desejando que coheçam o amor e descubram que 'Amar é importante. Porra!'.
bjbjbjb
///~..~\\\
Ricardo, descobri seu blog por acaso e este momento me permitiu ler belos escritos seus. Carta a D. é um dos livros mais lindos que já li. O amor é importante, mesmo. Adorei seu canto, voltarei mais vezes. Grande abraço.
Sarah Dorneles disse…
Por acaso encontrei seu blog.. e bem.. amei esse post! precisava ler que as cartas de amor não são ridículas.. uma dica pra minha alma meio romântica.. e vou aceitar a dica, vou ler o livro!

muita paz!!

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