A MORTE DO JORNALISMO

Como o assunto "bombou" nos posts anteriores e o debate se fez aqui , em muitos outros blogs, em sites e nos grupos de discussão entre amigos(entre os quais um do qual participo) aproveito pra ao invés de fazer uma resposta a cada comentário que se fez responder coletivamente em novo post inclusive em atenção ao meu amigo inglês que me cobrou amavelmente uma resposta por e-mail . As considerações tentam modestamente responder a aqueles que defendem e aos que concordam com a extinção do diploma.

1. Evidente que não acho que o diploma produz jornalistas de qualidade até porque a maioria das faculdades de jornalismo e comunicação estão mal aparelhadas com muitos professores que gravitam mais na esfera acadêmica do que na esfera prática. Jornalismo não se aprende na escola. Mas a escola é fundamental não apenas para reforçar a cultura geral como para introduzir os jovens profissionais em um universo de trabalho que desconhecem. Agora, sacrificar toda uma categoria em sucessivas gerações que tiveram que ter o diploma apenas porque os cursos são ruins é uma injustiça brutal. É desvio de foco. Vamos discutir e exigir que as faculdades sejam melhores e não extinguir os cursos abrindo portas para toda sorte de picaretas inabilitados que tenham boas relações com o poder ou com os barões da mídia.

2. Há excelentes profissionais,no meu circulo de amigos inclusive, que jamais cursaram jornalismo. E também conheço outros tantos bons profissionais que fizeram o curso. O que se está questionando é passar 40 anos exigindo o diploma e obrigando que todos nós tenhamos feito o curso de jornalismo para depois extinguir a profissão com diploma. Isso merece indenização. Fui e fomos lesados na nossa confiança da perenidade das leis.

3. Passando a falar de leis , seja pueril ou não o que vou afirmar, eu pessoalmente não reconheço competência, credibilidade e nem estatura moral em meia dúzia de senhores do Supremo que decidem o destino de uma profissão. Se Gilmar Mendes por exemplo não é exemplo nem para sua profissão por que a ele e seus pares são atribuídos poderes de decidir o fim de uma profissão que desconhecem ? De mais a mais Gilmar é um dos que tem mais motivos nesse país para detestar jornalismo independente.

4. Não é simplismo dizer que o Supremo atendeu aos pedidos dos patrões da área que festejaram em editoriais ( Tv Globo no Jornal Nacional como eu disse aqui e a Folha em tosco texto publicado na edição de 19 de junho que tem o título de "Um Jornalismo Melhor") o fim do diploma. Como diz meu amigo Gabriel Priolli quem ataca a chamada reserva de mercado "é o patronato, que quer contratar livremente - mais barato, claro. A queda do diploma levará à queda das demais conquistas da categoria, como o piso salarial e a jornada de 5 horas, que, bem ou mal, ainda são cumpridas. Em poucos anos, teremos o que já tivemos até os anos 60: jornalistas ganhando uma miséria (ainda maior que a atual) e completando o orçamento com picaretagem. Bom para a sociedade isso?"

5.A Folha de S.Paulo que desde sempre desrespeitou a obrigatoriedade do diploma está particularmente feliz . Para dar um certo viés democrático à discussão ela publica editoriais e reportagens festejando o fim do diploma mas dá exiguo espaço para opinião de leitores como Jaime Pereira da Silva , de São Paulo, que com precisão diz : " Na prática , a não exigência de diploma para exercer a função de jornalista é como se tivessem cassado os diplomas de todos os profissionais já formados". É assim que me sinto seu Jaime.

6."Quem vai querer um diploma que não serve para nada? Quem vai estudar jornalismo, sabendo que o patronato da mídia quer contratar economistas ou politólogos? Sem contar a pesquisa científica na área. Voltaremos ao tempo em que a disciplina era estudada, quando era, nas escolas de ciências sociais. Não foi um tempo memorável". Estou citando, entre aspas, de novo, meu amigo Gabriel Priolli. E não precisa ser nenhuma pitonisa para saber que isso vai acontecer.

7. por fim, respondendo ao meu amigo inglês, que cita a legislação do seu país e dos Estados Unidos , que não exigem diploma, tenho a dizer : Brother, são realidades tão absurdamente distintas que nos separam do grau de consciência, educação e ética dessas nações que julgo desnecessário polemizar com vc sobre o assunto. Norman Mailer, Gay Talese, Tom Wolfe não precisam de diploma , assim como Rubem Braga, Joel Silveira ou Otto Lara Resende. Jornalismo não se aprende na escola. Mas técnica jornalistica, rudimentos de ética, história das civilizações, um pouco de literatura e contato com bons textos sim. Eu gostaria de voltar a ter orgulho da minha profissão. Hoje só me envergonho quando vejo debeis mentais fazerem perguntas debeis mentais a entrevistados arrogantes que driblam a mídia pois ela é inculta e feia eticamente falando. Cansei de ver jornalistinha pedindo autografo pra celebridade . Que consciência de profissão é essa quando vc tira foto e pede autografo para a celebridade ao seu lado ? Jornalismo e jornalistas não se dão mais ao respeito e nem mantem distancia protocolar da fama e do poder. Essa é uma questão que deveria sim ser ensinada nas escolas de jornalismo . Mas em um país onde nem o presidente do Supremo tem ética que dirá os jornalistas que o "cobrem " ?

8. Mas o mesmo Gabriel Priolli já citado acha que nossos lamentos vão durar pouco, como o próprio jornalismo. "Não é a queda do diploma que vai impedir o seu fim. É a explosão das mídias interativas e colaborativas, e dessa crença de que todo mundo pode ser jornalista, só porque cria a bosta de um blog e sai por aí jorrando comentários. Jornalista não tem mais função. A agressão à regulamentação profissional, às conquistas da categoria e às escolas apenas apressará o seu fim, aqui no Brasil". É triste mas sou forçado a concordar. Até porque sou mais um dos que criaram uma bosta de blog para jorrar comentários. Mas ainda prefiro fazer isso aqui do que nesse jornalismo protocolar, mal pago, careta e pouco atrevido de hoje em dia. Só mesmo Gilberto Dimenstein para achar que o jornalismo brasileiro de hoje em dia é sensacional. Eu tenho vergonha da minha profissão. Mas não deveria ter né? ela não caminha para a extinção ? na verdade queridos amigos comentaristas acho que estou mesmo é com crise de identidade profissional aliada a crise dos 50.

Comentários

Marcelo A. disse…
E aí, Ricardo! Beleza?

Cara, não sou jornalista, mas, como cidadão, sou totalmente contra a decisão do Supremo. Inclusive escrevi sobre lá no meu blog. Claro, sem sua propriedade, afinal, você é profissa...

Eu até entendo os argumentos daqueles que pregam que bons jornalistas sem diploma, existiram aos montes. Mas os tempos são outros! Hoje, não há como negar a necessidade da formação acadêmcia. O mais engraçado de tudo, e isso eu notei lá no blog, que muita gente pensa que pra ser um bom jornalista, basta saber escrever bem. E a ética? A insenção de valores? Isso pra não citar um monte de coisas que fazem realmente a diferença entre um profissional que passou pelas cadeiras da Universidade e outro que não...

Mas fazer o que, né? Sinceramente? Nada mais me espanta nesse país...

Se puder me dar a honra de sua visita:

www.marcelo-antunes.blogspot.com

Abração!
Ricardo,

Estou no último ano de jornalismo e essa decisão não me afetou nem um pouco.

Pelo contrário, sou a favor da queda. como você mesmo reiterou em sua argumentação, o jornalismo se encontra em fase decadente por conta dos profissionais que acabam virando fantoches dos patrões donos de conglomerados: tal qual William Homer e Chátima Bernardes.

Creio que a queda da obrigatoriedade do diploma não trará profissionais não formados para exercê-lo; pelo contrário, a mão-de-obra permanecerá a mesma.

Só que os jornalistas devem refletir sobre a profissão e analisar com os botões: realmente estamos servindo a sociedade? Por que somos continuamente atacados em nossa batalha social? Trazemos material de bom conteúdo?

O que me levou ao jornalismo foi o fascínio com as reportagens que davam gosto de ler. Isso está cada vez mais extinto, como podemos ver.

Mas, se nossa profissão leva à dúvida é porque realmente estamos dando motivos de sobra para que duvidem da competência dos diplomados em jornalismo.

Se é para o bem do jornalismo e a criação de um vínculo mais aproximado com o interesse público, eu sou a favor sim da queda do diploma, apesar de repudiar os argumentos de Gilmar Mendes, incompetente até o osso.

Mas respeito a indignação de quem fez ou ainda faz jornalismo. Aliás, estamos sendo banalizados.

Agora, o que pode (e deve) pesar é a qualidade e o poder de destaque de cada profissional.

Acho isso uma boa pro jornalismo. Espero que o tempo não prove o contrário!
angelo alfonsin disse…
Ricardo, você é um orgulho para sua classe, um jornalista de verdade, pela ética, pelo texto, pela visão de mundo e vida.
Dagomir Marquezi disse…
Meus palpites: o jornalismo não está em "extinção". Está em profunda transformação. E a "culpa", não é de quem faz blog como tenho lido tanto por aí. A causa está mais no jornalismo velho, medíocre, previsível e bem comportado que se vê no Brasil de hoje. Nesse sentido, a obrigatoriedade do diploma não faz a menor diferença. Temos faculdades ruins e ultrapassadas ensinando jornalismo ruim e ultrapassado. E editores mais preocupados em preservar o próprio emprego do que entender as mudanças que estão acontecendo independente deles.

Falei!

abração do

d
Anônimo disse…
Seu curso de jornalismo não serviu para nada, além de ter o diploma?
Então acho que o Supremo agiu certíssimo. E quanto a perenidade das leis...
Já se discutiu sobre isso: a abolição da escravatura, o fim da monarquia, a extinção da CPMF, etc.
Anônimo disse…
Seu curso de jornalismo não serviu para nada, além de ter o diploma?
Então acho que o Supremo agiu certíssimo. E quanto a perenidade das leis...
Já se discutiu sobre isso: a abolição da escravatura, o fim da monarquia, a extinção da CPMF, etc.
Lucia Porto disse…
Olá Ricardo, é a Lucia, vizinha da Granja.

Fiquei até emocionada com as considerações que vc elencou e as quais me identifiquei. Acabar com a obrigatoriedade de um diploma de curso universitário é um retrocesso para a profissão do jornalismo. Pior ainda é ver uma decisão desta partindo de burocratas que não fazem outra coisa a não ser defender interesses próprios e, claro, de seus pares.
Gde bj

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