A PERIGOSA CURVA DOS 50

A PERIGOSA CURVA DOS 50

Entro no bar e vejo,calvos e calmos,meus dois amigos rindo diante da minha inquietação. Respondo com os olhos que já os vi mais jovens, mais magros, mais esperançosos. Mas são recém –cinquentões felizes diferente de mim, desapontado de mim mesmo.
Como se diria à guisa de Proust é uma tarde plúmbea na cidade de São Paulo e almoçamos acepipes pouco recomendáveis para neo-velhotes. Tudo muito gorduroso, venenoso e delicioso. Regado a cerveja, chopp, caju-amigo, risadas concentradas em anos de convivência, cumplicidade antiga de amigos na chuva.
Já emprestei muita capa de chuva para esses calvos queridos que também me abrigaram com guarda- chuvas mesmo que furados. Se lhes emprestei os ombros fui amparado pelos ombros deles. Já me orgulhei deles e os quis perto e os quis longe e os quis mesmo sendo tão contrários ao que eu sou.
Hoje nos levamos menos a sério e levamos a sério na verdade o tempo que nos sobra que não é o mesmo de quando éramos adolescentes presunçosos, sonhadores e romanticamente infelizes. Hoje temos menos tempo, menos cabelo, mais rugas e sacamos que o tempo que viria já chegou.
Até ontem ninguém sabia como era chegar aos cinqüenta anos. Agora chegamos. Se temos planos ? os planos são ledos enganos mas os temos. Nos sabemos mais finitos, mais realistas,mais adiposos, “tiozinhos” tentando renovar a encadernação. Mas tudo com muita dignidade. Sem essa de cabelos pintados, roupas inadequadas, esportes radicais que não combinam com protuberâncias abdominais.
Cada um de nós derrapa do seu jeito na perigosa curva dos cinqüenta mencionada sabiamente pelo poeta Drummond que nessa idade, casado, arrumou uma namorada que levou até o fim dos seus dias. Cada um de nós sabe ocupar seu espaço na forma do bolo que nos foi reservada. Mas será que só eu não caibo em mim mesmo e quero transbordar ? será que só eu não me contento, não me deparo com certezas,não paro de torcer o pescoço para trás para ver a caravana e a bunda que passou ?
Cada qual é dono dos seus inconformismos e eu não me conformo de estar envelhecendo assim,nesse mundo assim, com os meus amigos assim, num mundo onde o assado só vale com a juventude de lado.
Caio fácil no bolodório de que muitas preferem os cinquentões charmosos, de cabelos grisalhos e certezas cimentadas. Mas essa é conversa para boi, melhor, para cinqüenta dormir. Até porque minhas certezas estão sempre erodindo. Pois na verdade eu queria mesmo era subir aquele paredão mais íngreme, descer rápido aquela escada mais enjoada, pular de pára-quedas gritando de arrepio, misturar bebida, fumar Marlboro, dormir quase nada e não acordar de ressaca.
No entanto, poucos drinks depois de começar a prosa com meus amigos calvos e calmos no bar eu já aderno. Vou ao banheiro , molho o rosto, miro as bolsas sob os olhos e reconheço ali atrás de tantas coisas já vistas, bem na íris, os meninos que fomos bebendo cerveja quente e comendo esfiha num bar muito mais ordinário do que esse que hoje freqüentamos. Isso não me provoca tristeza mas uma súbita alegria. Volto à mesa e reencontro os meus amigos nem calvos e nem calmos. Muitos anos mais jovens e com as cabeleiras restituídas eles me olham assustados e me anunciam que John Lennon acabou de ser morto. Percebo então o momento em que o sonho acabou.
***
Ricardo Soares, 20/7/2009, 2 e meia da matina

Comentários

Cafeína disse…
Nunca sabemos lidar com idades redondas rs... mude para os 30 anos e estarei dentro do contexto. Estamos sempre começando e pensar assim não deixa nossa esperança esfriar!
Helô Müller disse…
Que bela reflexâo, Ricardo!
Nem sei bem ao certo o que dizer diante de tão emocionante relato... Fiquei emocionada, identifiquei-me com cada palavrinha de suas buscas, viajei no tempo, e ainda tomei a liberdade de me emocionar junto com vc! ( foi bom pra vc tb? rs)
Vc ingressou na casa dos 50, e eu com 58, feitos em abril, em breve adentrarei na dos 60! Sabe do que mais? Creio que esta vida passa rápido demais e enquanto nos for dado o privilégio da lucidez, passaremos por ela, nos buscando! E talvez nunca encontremos a verdadeira resposta... Nunca saberemos quem somos nós em definitivo! Creio que somos todos como peças de olaria, em eterno estado de construção, aperfeiçoamento e fundição!
E somos os nossos próprios artesãos...
E paralelo a isso, vamos vivendo na forma que tomamos no "torno", naquele "exato momento"...
Com a idade, a perda de nossos seres mais queridos, as limitações físicas, a maturidade advinda de nossas vivências; percebemos num piscar de olhos, que tudo passou e passará muito mais rápido do que a nossa vã filosofia juvenil, supunha! rs
Vivamos então o que nos resta com muita garra, muita risada e disposição! Mas sempre no torno, é claro ...
Beijos de argila !
Helô
Toda Pura disse…
Baby, se pudesse te colocava no colo e afagava seus cabelos já quase grisalhos.
E faria cócegas na sua protuberante barriguinha só para ver você rindo e se enroscando.
E te daria um beijo no rosto.
Cantaria Born to be Wild no seu ouvido
e te falaria também dos meus medos
e da morte que se avizinha e aterroriza.
Mas nem adiantaria: estamos de fato sós em nossas angústias.
E talvez seja melhor assim.
bj
PS: e vê se não busca tanto assim o tempo perdido...
angelo alfonsin disse…
Que maravilha te ler, Ricardo, quanto sentimento, humor e verdade.
Vê se não liga, agora chegou o momento do " deixa a vida me levar, vida leva eu..." e seja o que o tempo quiser.
abraços
Fico até tentada a escrever do ponto de vista mulher-que-vai-fazer-60-dia-27-de-novembro (junto com o aniversário de Jimmy Hendrix).
Aí olho para o boneco muito fofo do John Lennon que o meu marido me deu, e - já desencantada - mando o calendário às favas, e continuo falando abobrinhas para as pessoas de quaisquer idade que continuam valendo a pena...
Udi disse…
Querido,
Certezas jamais cimentadas!
O que eu sei (vejo, sinto e vivo) é que vocês (cinquentões) não perdem nem a ternura e... muito menos o tesão!
;)
leve solto disse…
"tentando renovar a encadernação.." rs Gostei disso!!!

Aliás, Ric, gostei demais de todo o texto!!!

Bom demais pra ler, mas... tá na hora de esquecer o calendário, o relógio, o cronômetro!!!!

beijo procê
Helô Müller disse…
Agora, fui eu quem gostou do seu...rs
Um delicado beijo nas bochechas!
Helô

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