meu filho e Miles Davis

Muito ainda vai se escrever sobre a natureza dos blogs. Muito ainda será dito contra e a favor deles. Se eles devem ou não ser confessionais, se eles devem ou não focar em um assunto ou ir em múltiplas direções. Confesso que sempre penso nisso quando tenciono em colocar aqui um post, digamos, mais confessional. É como se eu tivesse que pedir a mim mesmo e aos leitores licença para transformar o meu próprio blog num diário virtual. Em algo mais pueril, normal, sem nenhuma utilidade pública. Mas quem sabe confessar-se sem utilidade pública não seja uma utilidade pública ? Fato é que queria dizer apenas que ontem, dia dos pais, apesar da ausência da filha Andrea, tive com meu filho Guilherme um dia daqueles, um dia feliz, um domingo inesquecível que creio ser merecido os bons pais terem pelo menos uma vez na vida. Pela manhã acendi uma vela ao meu pai na pia da cozinha e chorei. Confesso e sem pudor. Depois peguei meu filho no metrô e trouxe para o meu recanto de ermitão onde sozinho e sem drama ando vagando, preparando as férias e melhores escaninhos para a minha alma cinquentona. Fiz um almoço do jeito que meu filho gosta e eu também. Com o indefectível feijão temperado que ele curte. Rimos, comemos, bebemos, conversamos, nos inteiramos mais e mais da vida um do outro. No meio desse repertório afetivo, do encontro solitário de dois homens que se amam, (um buscando a sombra de si mesmo no outro) meu filho saca de uma sacola amarela meu presente de dia dos pais. O primeiro que ele compra com seu próprio salário, o que é significativo. Antes já havia me dado uma garrafa de Absolut com a grana de um free-lancer. Mas esse ,de ontem, foi fruto dos seus primeiros salários. Era um belo "pacote" comemorativo dos 50 anos de lançamento de KIND OF BLUE de Miles Davis em magistral companhia de John Coltrane, Bill Evans e outras feras. O "pacote" embute dois Cds, um DVD e uma camiseta comemorativa muito linda que ficou um pouco justa em mim e pensei em dar ao filho. Mas ele me incentivou a guardá-la como motivação para que eu emagreça. O disco foi lançado no ano que nasci, 1959, e comemora com muito mais satisfação o cinquentenário. Eu tenho o meu mal parado na alma mas sei que isso passa. E sabe como ajuda a passar ? ouvindo os Cds que eu ganhei, vendo o DVD ao lado do filho. Passa quando a gente admite que é feliz ao ter de perto o abraço do filho, quando o filho volta à casa paterna e se reconhece em refúgio seguro. Eu dei duro por ele e ele sabe disso. Não cobro nada e ele não me cobra. Somos dois homens imersos nas nossas qualidades e defeitos. E nosso domingo não teve defeito algum. Amei ao meu filho, ao meu falecido pai, a mim mesmo e a todos os pais que tem bons filhos e tiveram a sorte de ter um domingo como eu tive. Isso se estende ao meu amigo Leonardo Pinto (do Hipopótamo Zeno, aqui linkado) que após desavenças cibernéticas comigo essa semana relevou tudo e me desejou o lindo domingo que eu tive. Ela também o teve e merece. Bom é estar dizendo tudo isso. Bom é justificar não tendo que justificar. Bom é estar. Ao menos uma vez em um único lugar. Como eu estive ontem aqui em casa como registra o flagrante automático dessa foto...

Comentários

Pinto disse…
Relevei o cacete. Va logo baixando essa calça dessa pança flácida aí e dando umas reboladinhas...
Redneck disse…
Feliz dia dos pais, atrasado, mas não demais. Abraço em você o pai que já não tenho.
Que bacana...
Parabéns pela sorte de ter um bom filho! Isso é o que vale! É ganhar na loteria!!

Passei com meu paizão aqui no interior também e foi bem bacana!


Felicidades... e parabéns por todos os dias... porque afinal todos os dias são do meu pai,
são seus...
Udi disse…
Eita! Parabéns ao pai por ter um filho que presenteia com Miles comemorativo.
E... (ai, esse ego!) adivinha o que eu ganhei do filhão no dia das mães?!
Que ótimo tudo! Texto, pai, filho, presentão, foto...
Tô até me sentindo presenteada também...
Bjs!
peri s.c. disse…
Mau filho e Miles Davis, também. Ganhei o mesmo presente.
Garotos razoavelmente bem criados, não ?
abraço.
peri s.c. disse…
Oops, correção : " Meu filho ..."
mylene.parisi disse…
Ricardão, volta e meia passeio meus olhos no seu blog. E confesso que adoro os posts confessionais. Este também me emocionou - sou mãe e tenho um marido pãe, então estes assuntos ligados à paternidade/maternidade sempre me sensibilizam. Tenho até hoje guardada uma crônica que vc escreveu no Estadão sobre seu pai. Ela amolece bastante o coração.
Um beijo saudoso da sua ex-subordinada Mylene Parisi

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