MARCOS REY E A SÃO PAULO PERDIDA

     Em 1998 emplaquei junto à direção da então Tv Senac (depois Rede Sesc/Senac e hoje TV Sesc) um projeto chamado Literatura , programa que entrevistava autores brasileiros  e embutia dicas de leituras, sugestões de clássicos e dramatizações dos textos dos autores entrevistados. Para o primeiro programa escolhi escritores com os quais por motivos diversos me identificava e  respeitava e que em diferentes frentes, com distintos públicos, personificavam a batalha do escritor brasileiro pelo reconhecimento. Assim, a primeira edição do programa teve como entrevistados Carlos Heitor Cony, Márcia Kupstas e Marcos Rey. Cada qual em um  bloco. As entrevistas acabaram dando sorte pois o programa em sua versão como Literatura (gravado em estúdio) ou Mundo da Literatura teve temporadas até 2005.
    Naquele encontro com o Marcos Rey mais uma vez a conversa fluiu solta e divertida muito mais pelo manancial de histórias sobre São Paulo  que ele sempre teve do que pela competência do entrevistador. Seria de um clichê superlativo eu dizer que Marcos Rey se inscreve entre meus escritores preferidos mas arrisco a usá-lo em um período em que já não me importo tanto com o que vão pensar a respeito das expressões que uso. As expressões que uso muitas vezes caem em desuso como muitas das que Marcos Rey usava em seus textos eivados de gírias, meneios e penduricalhos de linguagem que eram usados nos modos de falar da São Paulo dos anos 50, 60 e 70. Nesse contexto Marcos Rey era um escritor a moda antiga, um estivador do ofício que apesar de sempre ter cativado um bom número de leitores me parece nunca ter realmente seu talento reconhecido como deveria. Tanto pela mídia quanto pelos doutores das letras de nossa República. Para citar apenas um singelo exemplo considero imperdível o romance "Ópera de Sabão" que ambientado no Brasil de agosto de 1954, momentos antes e depois do suicídio de Getúlio Vargas , é muito mais suculento do que o festejadíssimo  romance "Agosto" de Rubem Fonseca, esse sim um queridinho das mídias e academias.
    Mas por que me ufano de Marcos Rey ? Porque cada vez que imagino esgotado o prazer em ler seus livros me surge uma boa nova. Mesmo que pueril uma boa nova. E a conto : ontem em longa espera no aeroporto Jk em Brasília dei com um livro de Marcos Rey num balcão de ofertas de uma dessas livrarias comerciais horrendas de aeroportos entupidas de best sellers e livros de aut-ajuda. O livro (de contos) era "O Cão da Meia Noite" em edição de 1999 da editora Ática.Na espera e no vôo de hora e quarenta de Brasília a Sp deitei olho em vários contos  de Rey que tinham me passado batido durante os anos que acompanhei os seus textos. Nesse livro especialmente o poético e melancólico conto "O bar dos cento e tantos dias" e o conto que dá nome ao livro ("O cão da meia noite") me devolveram uma atmosfera de uma São Paulo perdida onde mesmo a malandragem heavy-metal não era tão selvagem quanto hoje em dia quando todo e qualquer romantismo virou apocalipse total. Os deserdados, aposentados, bêbados e remediados de Marcos Rey nos devolvem a uma geografia urbana onde mesmo nos antros úmidos, bolorentos , nos perfumes doces e nas emoções baratas de boleros suados se encontrava um pouco de poesia. Marcos Rey infelizmente já nos deixou há dez anos, meses depois de me conceder a entrevista à qual me referi no começo do post. O triste além disso é que além de ter nos deixado levou com ele essa São Paulo perdida que tanta falta faz àqueles que como eu não se conformam com o destino que ela vai abraçando cada vez mais. O de uma megalopole que de tanto ter tantas caras acaba por não ter nenhuma.  

Comentários

gentil carioca disse…
Poizé. Há pessoas que marcam e que deixam marcas.
Há de se cuidar para que essas marcas não se transformem em cicatrizes...
Welcome back to the jungle, baby.
Dagomir Marquezi disse…
Meu caro amigo bolivariano, por coincidência estou imerso na obra desse gênio chamado Marcos Rey. Invejei você por ter conhecido o cara pessoalmente. Acabei de ler Malditos Paulistas e deu aquela vontade de conversar com o autor sobre algumas questões do romance. O cara é de primeira. Me lembra meu amigo Helio do Soveral.
arilo disse…
Li O Rapto do Garoto de Ouro, naquelas versões da Vagalume que fizeram sucesso no final da década de 80, início de 90. é Um livro infanto juvenil do qual gostei. Lembro dessa entrevista concedida ao Literatura. Aliás, já declarei que passei toda adolescência assistindo esse programa. Era muito bom! Foi lá que decidi fazer jornalismo e tudo mais... Depois virou Mundo da Literatura. Não gostava tanto dessa nova fase. Acho que perdeu um pouco da espontaneidade de uma conversa solta, como era no primeiro. Talvez pq agora era mais editado, mais "empiriquitado", como dizem... Mas ainda assim era um dos melhores do gênero. Que pena que o programa acabou, estou sentindo falta de algo na tv que nos aproxime dos escritores, como se fossemos nós a conversar com eles, a conversar com um Marcos Rey da vida...
Tô me sentindo burrérrima pois ainda não li; anotadíssimo! BJS!

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