a banalização das tatuagens

Querer ficar no corpo de alguém como uma tatuagem, conforme sugeria a canção de Ruy Guerra e Chico Buarque, já foi mais romântico. Houve um tempo em que a tatuagem era mais transgressiva, mais outsider, quando não era um adereço (?) radical usado por marinheiros sem preconceitos sexuais que singravam os sete mares. Quando muito era uma marca caracteristica dos bem nutridos e belos nativos do Taiti ou então de raros surfistas, que a exemplo dos marinheiros já citados, rasgavam e eram rasgados por ondas perigosas. Súbito, ou nem tão súbito, como toda e qualquer "transgressão" que se incorpora a tatuagem tribal ou até mesmo as toscas (como a da foto acima) foram sendo incorporadas por todas as classes sociais e se tornaram tão banais e repetitivas que chega a causar um certo enjôo a overdose delas que vemos espalhadas por aí seja edulcorando sarados corpos cariocas quanto bojudas moças de sandálias havaianas nos supermercados EXTRAS da vida. As patricinhas e as pançudinhas aderiram. Os marombados e os barrigudos adoram e somos obrigados a todos os dias nos depararmos com esse verdadeiro festival de mau gosto que são as tatuagens espalhadas por pescoços, ombros, braços, dorsos, costas, seios e pubis nada angelicais pelo Brasil afora. A tatuagem virou o fast food da transgressão incorporada.

Comentários

delaorden disse…
verdade ..... até o que era realmente "cool" hoje se banalizou a ponto de se tornar futil.
Concordo com suas ponderações e chego a ser mais crítico, não querendo ser preconceituoso. As pessoas vulgarizam a arte e se esquecem que o tempo é um elemento crucial. Conclusão: deparamos com pessoas de meia, e até de muita idade, com seus corpos flácidos contendo desenhos indecifráveis.

até breve
algumas vezes é difícil diferenciar entre popularização e massificação.
sem dúvida há as tauagens que tenham significado para seu dono (como eu, que tenho uma tatoo de coruja na omoplata direita) e as de extremo mal gosto, como a mostrada por ti.
Deve-se valorizar os bons trabalhos dos bons profissionais e a banalização afeta não somente este campo, mas todos os campos da cultura humana. Parece-me uma decorrência do abaixamento de custos+falta de senso crítico.
Pelo menos o preconceito contra os tatuados vai diminuindo cada vez mais.
Viviane Oliveira disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Viviane Oliveira disse…
Gostei do post! E como já dividi lá no meu blog, também tenho intenções de fazer uma tatuagem.
Mas demorei anos para isso...

A vontade veio, mas saber o que fazer realmente foi o que mais me fez pensar, afinal ela estará presente em meu corpo para o resto de minha vida. Hoje,tenho um porquê de fazê-la.

Ás vezes as pessoas por modismo etc, optam pelas florzinhas e borboletinhas contidas nos boocks dos tatuadores pura e simplesmente por estarem na 'moda' e serem consideradas cools...

Bj!
Jaime Guimarães disse…
Perfeito, Ricardo! E ainda tem aquelas senhoras que tatuam florzinhas, abelhinhas, coraçõezinhos na nuca, na perna, na barriga, na bunda, enfim, em qualquer lugar e veem isso não apenas como "transgressão", mas como uma tentativa de voltar à juventude. É um medo mortal da velhice e tome plástica, produtos milagrosos para rugas, dietas que "secam" 10kg em 2 dias, tatuagens...tudo para ficar "bem".

Há também aquele desejo desde a juventude e era reprimido por pai, mãe, talvez marido e agora que "se livrou" destes, vai lá e realiza o sonho da juventude.

Claro, quem quiser fazer, que faça...mas que a coisa toda está nesse pé que você referiu, ah, isso está.

abs
c.k. disse…
Estes dias vi uma senhora de mais de 60 anos com uma tatuagem enorme nas costas/ombro. Tava é muito bonito.
Anônimo disse…
Ricardo, há a banalização de desenhos e de tatuadores ruins também.
O marido de minha faxineira no interior é tatuador .Perguntei a ela se ele fez algum curso e ela disse que não , cola dos livros , rsss
Tenho uma tatoo e gosto dela .Fiz na India , há anos, por um tatuador muito conhecido em New Delhi. É uma lótus , teve significado na época e continua até hoje.
Vou ficar uma dessas velhinhas tatuadas , rsss
Dia desses uma tia ao vê-la me olhou com cara surpresa, e perguntou se era da época em que eu não tinha juízo.
lucinha
Oi Ricardo! Que post incrível esse seu. Porque eu penso da mesma maneira. Tenho 13 tatuagens, cultuadas ao longos dos meus, bem, dos meus anos de vida e detesto ver que qualquer usa, sabe? Tanto que sinto uma inveja indescritível de quem não tem tatuagem alguma. Aquela tela toda em branco, sabe? Se eu pudesse ver esse futuro, acho que não tinha feito nem a primeira, aos 14 anos, com tinta nanquim e agulha para injeção intramuscular. Transgressores, bah!
Artemisele disse…
Considero esse texto um amontoado de preconceitos...primeiro o que é de mau gosto pra um pode não ser pra outro (vamos pra frase clichê:gosto não se discute). Segundo cada um tem o direito de se vestir e colocar em seu corpo o que quiser. Terceiro, os precursores das tatoos (surfistas, marinheiros, marombeiros, cocotas)também envelheceram e por gostarem das ditas (e serem transgressores!) as mantiveram, apesar do preconceito existente em nossa sociedade contra os corpichos não sarados. Aliás, os muito sarados tb sofrem preconceito, assim como os que se mantém no estilo alternativo ou os que andam na moda, os gordinhos e os magros demais e os etc, etc,etc.
Num país pobre como o nosso em que famílias vivem do lixo achar que o valor baixo da tatuagem levou a vulgarização da mesma (segundo um dos comentários) ultrapassa o limite do preconceito chegando a estupidez.
Vamos abrir a cabeça pessoal, intelectualidade também passa por a aceitação dos que não pensam como a gente.
Solange Hette disse…
Você, Artemisele, disse tudo o que eu estava pensando em escrever, se não fosse conferir os comentários antes. Na boa, as pessoas tem tanto direito de expressar sua opinião quanto o dever de respeitar o outro e suas escolhas, que, no caso da tatuagem, só afeta a quem escolheu. Acho que a premissa básica é a ética e o respeito ao outro. Saudade de uma época em que expressar o que se pensa, sem nenhum filtro, era bem menos importante do que não ferir ou desrespeitar os sentimentos e escolhas alheias. Acho que quem se comunica, especialmente no âmbito da internet, tem que estar consciente de que pode estar criando preconceitos e intolerâncias, só para satisfazer o impulso de ser franco demais. Se não traz serventia e se refere a uma escolha individual, que não afeta ninguém a não ser o próprio, porque não deixa-la ali, no âmbito privativo do seu pensamento? ET: não sou tatuada, porque nunca foi uma prioridade na minha história dos meus 50 anos de vida; o que não quer dizer que não possa mudar de ideia, mesmo à beira do túmulo, oras. Meu pai tem 3 tatuagens, feitas aos 19 anos, que faz parte da sua história de vida. E daí? Arranca a pele para satisfazer às convenções e não ser ridicularizado na praia?
Solange Hette disse…
E quanto a ser obrigado a conviver com as tatuados "inadequados", ora, estes também são obrigados a conviver com preconceituosos. Gostem ou não, a aceitar as diferenças é o lema de uma sociedade humanista e democrática.
Cosmos disse…
Adorei o texto!
Já faz tempo que penso o mesmo. Além de banalizado está sobrevalorizado.

Por cá, Portugal, ainda não é assim - tatus por todos os corpos sem credo ou distinção. É coisa discreta e ainda não massiva.

Mas vejo a facilidade com que as pessoas arranjam argumentos para se tatuarem. Como costumo dizer, até uma cagada bem conseguida pode servir de inspiração. Chega, né? Cachorro que morre, papai que morre, acidente que sobrevive, arranhão que sarou, namorada que deu com os pés, etc - tudo serve para tatuar. São assim tão frágeis e inseguros que precisam disso? É um desvirtuamento e ao mesmo tempo é poluição visual.
cosmos disse…
Ah, e outra coisa que não entendo é essa da pessoa dizer que adiou por anos fazer uma só porque não conseguia decidir o quê tatuar.

É isso que me incomoda. Porque primeiro se sente e ao se sentir e se saber PORQUE, então nesse instante se sabe de imediato o que tatuar. Se encararem como um adorno, uma moda, então sim, fica difícil de escolher.
Cosmos disse…
Ah, outra coisa: não é questão de preconceito. Nem de aceitar ou não aceitar porque não nos cabe a nós essa decisão. Aqui discute-se gosto. Não vejo mal algum afinal, discutir sobre tatuagem ou penteados. A diferença é só essa de ser um gosto particular. cada qual tem o seu e o pode com liberdade expressar. É um desabafo e louvo o autor por o partilhar publicamente - sabendo que provavelmente seria acusado de preconceito por tão simplesmente partilhar a sua opinião - que vai contra a tendência social mais aceite.
Cosmos disse…
Eu não tenho tatuagens nem pretendo ter. A única coisa que me via usar permanentemente é uma cicatriz ou uma qualquer marca de sobrevivência a uma catástrofe.

Tatuagens acho-as bonitas, mas não para sempre. Não me vejo a usar nenhum desenho ou simbolo para sempre igual e ainda por cima no mesmo lugar. Tal como tudo na vida, teria de ser temporária para realmente fazer sentido.

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