Nós que aqui ficamos Mara Fortuna

Demorei pra falar do assunto porque ele é duro de digerir, como um naco de jiló in natura, um pão embolorado, uma manteiga rançosa. Mas eis que aqui fico num quarto na penumbra, na capital de um país da África, onde o ar condicionado atenua o mormaço desse fim de tarde. O ar me refresca as idéias e enfim preciso escrever sobre alguém que partiu sem prévio aviso. Alguém que parte sempre é um ingrato quando não se despede pois deixa pra trás, para os que ficam, aquela sensação de que devíamos ter dito coisas que não dissemos, impressão de que deveríamos ter feito o que não fizemos. Em relação a minha linda e querida amiga Mara Fortuna creio ter dito tudo de bom que ela merecia ouvir mas deixamos de ir a um bar pitoresco que ela iria me apresentar na zona norte de São Paulo onde ela morava depois de ter reemigrado para São Paulo com o filho em busca de dias melhores. Me desculpem o pessimismo mas os dias melhores nem sempre virão. No caso dela veio a ceifa da vida, eufemismo ridículo que aqui arrumo para dizer que ela se foi. No auge do riso, do pouco siso e da sempre tenência em cuidar de si e dos filhos queridos e dar assistência de mãe e amiga aos familiares. Seu blog chamava “Leve e Solto” e definia muito como ela era. Me orgulho de ter sido inspirador dessa empreitada virtual que ela levou a cabo e que lhe rendeu tantos admiradores entre homens e mulheres que agora lamentam a sua falta. Mara fez alguns amigos aqui e muitos deles se tornaram reais. Me orgulho de ter aproximado a Mara de duas outras amigas lindas e queridas como a K. Do Incompletudes e a Ana Paula do Atacadíssima, as duas aqui linkadas.Como mulheres e como blogueiras, senhores e senhoras, esse trio é um arrasa- quarteirão de formosura, graça e talento. Mara resolveu pegar o bilhete para outra paragem mais cedo.Quiçá um lugar melhor. Mas nós ficamos a nos debulhar em tristezas e melancolias pela sua falta. Engasguei, travei , talvez não queira ter admitido a morte da Mara porque ela era daquele time das pessoas que deveriam ser terminantemente proibidas de morrer pois além do sorriso e otimismo que irradiava a Mara era uma paisagem bonita de apreciar. Loira , alta, formas generosas era o que o vulgo chamava de “gostosona” . E por que não dizer isso ? Porque os mortos não tem sexo ? Mara era de irradiar vitalidade em todos os sentidos. Seu blog que a tantos cativou andava meio largadinho por conta (creio eu) de um novo amor que ela havia encontrado. Entre trabalho, filhos, família e namorado novo ela andou sumida. Virtualmente nos encontramos poucas vezes nos últimos meses ( ou seria ano ?) mas sempre desejando o melhor de tudo um para o outro e falando sobre nossos filhos queridos. Os meus e os dela. Bem poucos dias antes do fatídico AVC que acabou por levá-la trocamos impressões e a senti um pouco triste e apreensiva com o futuro.Mas nada combinamos de um encontro ao vivo porque as amigas, as vezes, quando estão de amores novos se esquecem dos amigos homens sobretudo. Ok, eu também estava de passagem marcada para a África. Ok, eu entendo , até porque andei mais carioca que paulista no último ano e meio e minha crise dos 50 não seria boa companhia pra ninguém. Fato é que Mara sem levar em conta minha saudade foi embora. Morreu e eu estava longe. Não pude vê-la linda, leve e solta nem na sua despedida como conta o recado abaixo que me foi deixado por Monica, irmã dela, no blog Incompletudes da K. Essa era virtual é mesmo uma revolução nos comportamentos humanos. A gente fica perto, afeiçoado a quem nem conhecemos ao vivo. Pois eu me afeiçôo da Monica e de todos os familiares enlutados de nossa Mara. E agradeço aqui a lindeza e gentileza da K. que fez chegar aos familiares dela minha coroa de flores, meu bilhete na coroa e mais um recado especial. Não consegui concretizar essa operaçao logistica desde Luanda e a K. ajudou-me a concretizá-la.A Monica não tinha nada a agradecer.Foi muito pouco pra agradecer também a chance de ter conhecido pessoal e virtualmente uma pessoa tão especial como Mara Fortuna cujo sotaque paulistano acaipirado vai soar muito tempo aos meus ouvidos. Aquela voz rouca, sexy, que misturava nacos de Santana com Pereira Barreto há de estar narrando feitos onde quer que ela agora esteja. Mara, Luanda não é bonita mas Angola parece que é . Hoje é um domingo calorento, eu estou bem sozinho nesse bairro da Maianga mas sem nenhuma auto-piedade. Apenas com um belo nó no peito por não me conformar que mais uma amiga querida tenha ido. Perdi vários no último ano e acho isso muito doloroso. “Cinquentei” e cheguei naquela triste fase na qual começamos a perder os amigos. Seu caso é sacanagem do destino. Você era mais nova do que eu, mais otimista, mais bonita, mais leve e mais solta. Por outro lado com tudo isso de bom talvez você seja mais útil em outra dimensão , longe dessa desestruturação planetária que abala as nossas certezas. Um grande beijo e um abraço muito forte. Nós que aqui ficamos por ti dobramos nossos sinos internos.Estamos enlutados mas alertas para detectar no próximo aqueles que tenham um pouco de você.

ps. reproduzo como disse acima o terno recado de Monica, irmã da Mara...por ter sido muito bacana recebê-lo e para responder que nada havia mesmo a agradecer...Monica, força a você, aos filhos da Mara e a toda sua família.
 
Ricardo,



Desculpe a intromissão, mas sou a irmã da Mara.
Agradeço pelas flores e pela mensagem, foi muito significativa para nós!
Por favor, continue gostando da Maroca, acredito que ela permanece viva entre nós dessa forma.
Sabe, assim que a Maroca faleceu, pedi para que me deixassem a sós com ela…e entre lágrimas, a preparei como eu sei que ela gostaria de ficar, como sempre foi..linda, maquiada, de roupa preta decotada, sandálias de ” perua “, brincos lindos, cabelo arrumado, esmalte vermelho e batom idem. Essa é a imagem que procuro manter em mente… a Mara foi tudo menos uma pessoa triste, e mesmo na UTI mantêve esse espírito…em meus monólogos com ela ( ela estava entubada ), ela se expressava com os olhos, e quando pôde, fazia sinais de positivo e negativo com a mão, muitas vezes respondendo para provocar risos e palmas entre nós ( mãe, pai, filhos e sobrinhos ).
Tenha a certeza que você foi mencionado para ela, por várias vezes mandei recados de todos vocês e ela ficou feliz com essas bobagens que eu dizia.
Mais uma vez, obrigada por trazer alegria para ela em vários momentos de sua vida!
abraços,
Mônica

Comentários

elisabete cunha disse…
Ricardo

Estou profundamente emocionada com o que li...
Mara costumava me visitar sempre e todas as vezes que foi no meu blog deixou o rastro de alegria,bom humor e VIDA...
ESTOU MUITO IMPRESSIONADA COM A COLOCAÇÃO PERFEITA DAS SUAS PALAVRAS.
Am mim cabe somente a escrever : Sinto muito,muito mesmo!
Lu Carvalho disse…
Ricardo, mesmo após ter fechado meu blog, sempre que posso passo por aqui para dar uma espiada,hoje arrumei um tempinho e vim te visitar, e recebi a triste notícia da morte da Mara, confesso que li seu post chorando, durante o tempo que mantive meu blog me aproximei da Mara, durante um bom tempo nos falavamnos quase diariamente. Nosso encontro para nos conhecermos pessoalmente sempre foi adiado e agora fico sabendo que ele não acontecerá, pelo menos não nessa vida.
A Mara era alegre demais, tristeza não combinava com ela, por isso vou secar minhas lágrimas e guardar em minha memória as conversas loucas que tínhamos no msn até altas horas da madrugada.
Roberto Martins disse…
Me desculpem, mas precisava postar algo. Hoje 07/12/2015, após ver algumas fotos antigas dos tempos de Faculdade, a FIG de Guarulhos, me coloquei a pesquisar pelos colegas de 1982, que nunca mais encontrei. A procura de Mara Fortuna , deixei uma mensagem no Facebook dela e após uma rápida pesquisa me deparei com essa triste noticia de algo que aconteceu já algum tempo, mas eu só vim tomar conhecimento agora. Mara foi uma colega de faculdade (fazíamos Direito) linda, sempre alegre e como disse o Ricardo, era uma pessoa que não deveria ter ido tão cedo. Nunca mais a vi, desde o término de nosso curso, mas fui um dos muitos apaixonados por essa moça que trazia alegria a todas as nossas reuniões. Apesar de tão tardio, meus sinceros sentimentos a toda a família.Ela está em Deus
Roberto A. Martins

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