VIAGEM A ANGOLA PROFUNDA (1)

Foram dez dias , mais de 1500 quilômetros e uma distância imensa entre eu e minhas não convicções acerca de Angola que cada vez mais se revela um país onde qualquer conclusão precipitada pode ser precipitadíssima com o perdão da redundância que seja talvez a melhor forma de me fazer entender. Viajei à frente de uma equipe de seis pessoas (comigo incluso) onde além de mim só havia o cinegrafista brazuca, carioca da gema. Brazuca é ,aliás, como aqui somos conhecidos, digamos, carinhosamente na maioria das vezes. Saímos de Luanda e fomos até Huambo, capital da província de mesmo nome, zona agrária  no interior, e de lá até Benguela também capital da província de mesmo nome,no litoral. De Benguela "ancoramos" bem ao lado do porto da cidade de Lobito e todos os nossos destinos foram escolhidos em busca de boas pautas para o programa que aqui fazemos, o “Angola em Movimento”.
Quanto mais rodo por Angola mais entendo o país. Quanto mais ando por aqui menos o compreendo. O paradoxo e a contradição é exatamente o que estou tentando expressar. Nunca um país em muitos anos de vida profissional desafiou tanto meu senso de percepção visual, estética e sensorial. Aqui um dia você acorda não gostando do país e no dia seguinte pode estar profundamente enamorado dele.
Óbvio dizer que a guerra deixou seqüelas profundas neles, isso sem dizer nas centenas de anos de opressão colonial portuguesa. Mas colocar a culpa de todas as mazelas na conta da guerra também parece um exagero mesmo quando percorremos províncias que foram muito afetadas pelo conflito como é o caso do Huambo onde inúmeras localidades ( e mesmo a capital da província) foram devastadas pelos embates entre o MPLA e a UNITA.
Tanto no Huambo como em Benguela muitas marcas da guerra que acabou há oito anos ainda são visíveis como vou lhes mostrar dentro em breve. As que ficam escondidas são justamente aquelas lembranças que os angolanos não querem comentar , nem conversar a respeito. É como se houvesse um acordo tácito entre eles para não tocar no assunto. Como se as mortes, mutilações e horrores vistos em localidades que ficaram tristemente famosas como Canjala e Waku Kungo jamais tivessem ocorrido. Esquecer como se sabe desde sempre é uma forma de suportar, de recomeçar, de reconstruir.
No fundo me parece que aqui o grande cerne da questão é exatamente o “reconstruir”. Em que bases e de que maneira é feita essa “reconstrução”. Evidente que a essa altura eu já tenho uma ou outra conclusão a respeito, mesmo que ela seja errônea. Mas não as vou revelar enquanto aqui permanecer pra não me expor a  nenhum risco ou prejudicar aqueles que me convidaram a estar nesse país.
Fico sempre por aqui com digressões de caráter até superficial para que vocês tenham uma idéia de como são as coisas por essas paragens mas não posso e não devo ir além disso. Sobretudo porque sou um estrangeiro em um país onde você tem que ser “convidado” para entrar e pode sair quando bem aprouver às autoridades locais. Estar aqui é único como podem ver pelas fotos desse impressionante canyon na estrada Benguela -Luanda (acima)  ou na diversidade do mercado da Canjala (na beira da rodovia ) ou nas mulheres batendo fuba (não dizem fubá, mas fuba) em Kingenje. Isso sem falar no belíssimo mar de Benguela na derradeira foto do post.

Comentários

Gize disse…
Imagino o impacto que você ainda deve estar sentindo. Você tera'
muito o que dizer.
William disse…
Fascinate isso tudo, quero muito conversar contigo na volta.
Contrastes abismais, conflitantes e ao mesmo tempo harmonicos... Mas os sorrisos...
Tania Celidonio disse…
Ric, linda foto a do canyon, hein?E o mercado na beira da estrada? O que é aquilo? Senti uma coisa parecida com estar na beira de alguma estrada ou rio, no norte do Brasil.....Não é muito bom comentar mas eu ainda posso perguntar: e a miséria? e o contato com a miséria? É mais " geral" do que aqui, chez nosotros?
beijitos curiosos
Tania Celidonio disse…
Ric, que lindo canyon, hein? Paisagem inesperada, né mesmo? E o que é aquele mercado na beira da estrada? Pra mim uma sensação conhecida em algum canto do norte do país.
Sei que é difícil falar sobre tudo, mas ainda posso perguntar: e a miséria? que sensação você teve durante os 1500 km percorridos? Dói ou anestesia?
beijitos
Fabricio Carlos disse…
Incrivel essa experiência! As várias faces desse país que vc vem mostrando ajuda muito a refletir o nosso país...Como leitor fico no aguardo de sua volta para saber suas conclusões de Angola aqui no teu blog..
Vanja disse…
Incrível essa viagem, Ric. Imagino como você deve estar se sentindo. Contradição é pouco para descrever não é?
As imgens são belíssimas. Um grande beijo e que os orixás te protejam.
Vanja.
Miltextos disse…
Amigo Ricardo,

Melhor do que te encontrar nos aeroportos da vida é reler você no blog.

Visite-me, virtualmente quando quiser e pessoalmente quando aportar em Brasília, que continua seca e árida - menos para os humoristas.

Aliás, o povo aqui bolou um adesivo para os carros: "Nós já prendemos o nosso governador. E vocês? Brasília- DF".

Abraço humorado e saudoso,

Jorge Stark
line disse…
Nossa!!Que imagem maravilhosa essa primeira.
Aksínia disse…
Engraçado, eu pensava em Angola como um país do qual eu jamais teria notícias e agora, coincidência, minha sobrinha estava lá a trabalho. Mal ela chegou contando as novidades, encontro seu blog. Estou aqui lendo tudo, para me certificar de que ela está com razão de ter gostado tanto de lá. Abraços e sucesso.

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