ESCRITORES e escritores :

embate entre a chatice e o reconhecimento
 Trabalhando em jornais, revistas, rádio e televisão durante muitos anos tive a chance de conviver e entrevistar centenas de escritores a ponto de poder afirmar, sem medo de errar, que a maioria deles é de uma chatice ímpar mostrando-se no geral mais interessantes por aquilo que escrevem do que por aquilo que são ao vivo e sem cores muitas vezes.
Evidente que existem as honrosas exceções e até não são poucas a se levar em conta o número de escribas que pululam no nosso Brasil varonil. Mas seria injusto com os chatos eu enumerar os não chatos pois a lógica é a seguinte : existem escritores (e escritoras) cuja simpatia é proporcional à ruindade do que escrevem ao mesmo tempo que há pedantes que são muito talentosos. Seres humanos como todos apesar de acharem que não são.
Mas por que me refiro a toda essa malta ? Simples. Porque no Brasil a intenção de centenas de escritores que brigam por míseros leitores é justamente ser lido quando na verdade quase nenhum é lido de verdade. Os escritores lidos são os da televisão. Lidos pelos olhos, corações, mentes, sentidos todos e plenos em tvs de plasma, comuns, toscas, mal instaladas. Mas lidos e com avidez.


O pensamento me veio à mente depois da estréia de mais um teledramalhão global “Passione” escrito pelo Sílvio de Abreu esse sim autor lido ao lado de nomes como Glória Perez,Manoel Carlos,Aguinaldo Silva, Lauro César Muniz, Maria Adelaide Amaral, João Emanuel Carneiro e mais meia dúzia de menos graduados que tentam chegar ao panteão dos citados acima.
Os escritores de novela são versados em manipular com maestria as emoções baratas dos telespectadores. Produzem emoções em cascatas, e com perdão do trocadalho, fazem “emoções cascatas” na medida que repetem fórmulas ad nauseam nos dando a entender que estão sempre a nos vender novidades.
Fazem tudo isso, tem milhões de leitores/telespectadores mas tudo que almejam por vezes é o reconhecimento acadêmico e intelectual, serem mencionados também como autores sérios fora da habilidade com que concebem folhetins,aliás com muita competência, pois foi graças também ao trabalho deles que nosso país virou modelo de excelência no gênero. Mas isso não basta para Manoel Carlos que quer ser considerado poeta. Não basta para Aguinaldo Silva que quer os louros de ser considerado um bom escritor policial aliás gênero que o tornou conhecido nos anos 70 quando editava o jornal gay “Lampião” e escrevia romances policiais. Só que aí vem a tola vingança da “intelligentzia” que ao lhes negar prestígio não lhes tira fama e fortuna.

Enquanto isso alguns escritores que gozam de prestígio (inclusive entre escritores de novela) continuam levando vida monástica, muitos até se equilibrando em corda bamba e a cada três ou quatro anos quando consegue emplacar um livro novo se dá por muito feliz se vende mais de 2000 exemplares.
A tentação que tenho em citar nomes é quase irresistível mas não o faço apenas para não dar a impressão de que tenho algo de pessoal contra ou a favor de muitos desses autores que muitas vezes ouvi e vi desdenharem das novelas da tv mas que no fundo queriam ser convidados a escrever pelo menos uma delas pra tirar o burro da sombra.
Conforme escrevo me lembro apenas de um autor que ficou no limite entre o prestígio da crítica, um bom número de leitores e a autoria, também, de telenovelas. Me refiro ao magistral Marcos Rey (foto acima)cujo livro “Ópera do Sabão”, jamais filmado, é muito melhor que o festejado “Agosto” de Rubem Fonseca passado na mesma época, ou seja, os dias que precederam e foram posteriores ao suicídio de Getúlio Vargas em agosto de 1954.
Nova novela estréia e as redes sociais como Twitter massacram seus leitores com comentários a respeito comprovando o ainda poderosíssimo poder globete onde a história se repete e todo mundo joga confete.
Isso tudo faz do Brasil um país curioso pra escritores. Quase ninguém vive do ofício aqui. Muitos que queriam viver se viram em outras profissões mas altaneiros de suas cátedras e pedantismos teóricos desfrutam do “prestígio” midiático das “Piauís” e “Ilustradas” da vida. Empombados. Sem grana mas reconhecidos pela crítica, e sem perder a pose. São os ESCRITORES, com maiúscula.
Do outro lado estão aqueles que os ESCRITORES gostariam de ser ao menos no quesito “leitores”. Os escritores de novela que sequer (reparem) são chamados de escritores, mas de autores, dramaturgos quando muito. Ganham muito bem, as colunas e revistas de celebridades os incensam mas,muitos deles amuados, ressentem-se da falta de prestígio.
Daí vem a derradeira questão. É escritor quem tem prestígio e é considerado ou é escritor quem tem leitores ? É fato ou não é fato que qualquer autor infanto-juvenil num único livro vende mais que todas as edições juntas dos poetas concretos ? É ou não verdade que qualquer autor de novela (mesmo os piores) quando resolve publicar ficção vende mais que qualquer autor de prestígio ?
No fundo o que estou a defender nesse moto- contínuo é que deve ser muito mais elástica a catalogação da categoria de escritor em nossa mídia dita séria. Ou seja a intelligentzia ter mais boa vontade com escritores de novela e prestarem atenção no que eles fazem ao mesmo tempo que eles,profundos conhecedores das técnicas do folhetim , deveriam ler mais os autores ditos “sérios” para não ficarem vendendo por aí que são inventores de novidades quando muitas vezes só a estão reciclando. No mais tanto escritores quanto ESCRITORES padecem de um mal em comum. A maioria deles é muito chata pessoalmente. O que escrevem é muito melhor.

***
Ricardo Soares
Madrugada de 18/05/2010

Comentários

Adorei este texto, uma excelente análise. Inicialmente ao falar das características pessoais dos escritores, não pude deixar de refletir sobre o quanto isto é visível, na literatura ou filosofia, um enorme distanciamento entre a obra e a vida pessoal do autor. e tanto mais que seu texto me levou a refletir, e que não vou ousar dizer, pois senão corro risco de escrever quase tanto - embora sem a mesma qualidade -do que voce.
Vou mostrar a alguns amigos meus esta postagem.
Abraço.
c.k. disse…
Ricardo, me lembrei de um livro maravilhoso que encontrei num sebo estes dias. Chama-se 'A Cachorra Isaura' que é escrito por uma pessoa que assina simplesmente por José Lucas. Nem sobrenome ele pôs na edição. É uma história permeada pela cultura popular e pelo fantástico, e foi custeada pelo próprio autor numa tiragem de 500 exemplares. Comprei o livro num sebo porque gostei da capa e do nome do livro. E me surpreendi MUITO com o conteúdo e a história que José Lucas conta em seu livro. Ele publicou o livro às próprias custas, e provavelmente pouca gente leu.
Viver de arte é complicado, porque ou você se enquadra no sistema das antas cerebrais prá poder vender ou faz como este autor, que tem outra profissão e paga de seu próprio bolso para poder imprimir um livro. Aliás, Ricardo, vejo tantos 'profissionais' em música e artes plásticas que realmente não criam coisas novas e sim criam para 'reconhecimento' que me pergunto se viver de Criação artística é válido. Não seria melhor fazer como José Lucas, que deve ganhar a vida com outra coisa, e criar para bel prazer ? Eu penso muito se viver de arte é algo válido, não só no Brasil (este país complicadinho) mas no mundo inteiro... Eu estou chegando à conclusão de que o dom artístico é um dom que não se vende, e que viver de arte sempre mediocriza o artista, no final.
Jaime Guimarães disse…
Ricardo, o grande professor, poeta e cronista Affonso Romano de Sant'anna já falava de "agentes legitimadores" para um livro - e o escritor, obviamente - chegar ao sucesso, no caso ser lido e recomendado.

E este "agente legitimador" que temos hoje é a mídia. A mesma que transforma tantos escritores em grandes celebridades e best-sellers. Se passou pelo crivo global - principalmente-, este terá o sucesso galgando até mesmo em um país onde a leitura é considerada algo "chato" e que muitos estudantes de Letras, Direito, Pedagogia e Administração enchem a boca para falar, com orgulho: "Detesto ler".

E nisso tudo surgem "escritores talentosos" legitimados pelo meio midiático. Como aquele apresentador de um certo reality show global...rs

Um abraço!

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