Um vôo sobre Sp onde pouco se vê


Ah, os helicópteros ! quantos deles sobre os céus de São Paulo meu senhor . Se por um acaso for lhe concedida a honra de embarcar em um deles o que veria vossa senhoria então ao flanar lá de cima sobre nós ? a que conclusões chegaria sobre nós e os nossos destinos ? Imagine meu senhor que possa pegar uma dessas máquinas voadoras em quaisquer um dos quase trezentos helipontos que existem na cidade. Escolha um, a esmo, e voe, voe , voe até o combustível humano acabar. Vá de norte a sul , do oeste ao nosso leste tão combalido e vamos ver o que verá .
Importante é dizer que não basta ver o que todos enxergam todos os dias quando sobrevoam a cidade. Os repórteres de trânsito e as suas aflições, as polícias e as suas detenções ou mesmo aqueles homens da luz que vivem a verificar as nossas linhas de transmissões de energia. O importante não é ver o que eles verificam, constatam, reportam, socorrem ou detectam. O importante é ver lá de cima entre a maré insana dos automóveis , caminhões e ônibus todas as nossas obtusas aflições, nossos desmazelos, nossas comoções baratas em busca de bens tão caros e a aqueles que não se compram por mais que o dinheiro seja farto.
É sim meu senhor. São Paulo é a terra das difusas sensações, do corre-corre e do leva e trás. É a terra das poluídas oportunidades, das diluídas adversidades , o rincão do contra e do a favor, do estupor, da fúria, da angústia , do amor e da violência. Se estou aqui a gastar tanto verbo com uma cidade tantas vezes vilipendiada ou bem tratada por palavras é porque eu o estou desafiando a voar sobre essa metrópole insana e tentar enxergar sobre ela muito mais do que ela contem nas aparências.
Diz o dito popular brasileiro que as aparências sempre enganaram mas em São Paulo essa afirmação é assaz duvidosa. Aqui muitas vezes o que parece ser é mesmo. Como quando o senhor avista aí de cima almofadinhas ocupados a pensarem na grana que fizeram e vão fazer. Ou quando vê as madames precatórias em busca do luxo sempre achado no seu vasto interior esvaziado. Ou quando vê os imundos policiais corruptos que assassinam e esfolam para impor suas mortais autoridades.
Quanto pode não se ver daí de cima embora enxergue-se muito. Motoboys que morrem como moscas, traficantes de baixa patente que fogem, ambulâncias que correm, caminhões que andam na contramão, seguros que morrem de velhos, velhos que caem dos ônibus, ônibus que caem em barrancos, barrancos que desabam sobre barracos, barracos que se incendeiam em favelas, favelas que se multiplicam na proporção em que nelas as leis não se aplicam.
Ah, os helicópteros. Pudessem eles nos fazerem enxergar tudo o que não vimos meu senhor. Pudessem eles num rápido vôo nos levarem ao passado onde haveria tempo de consertar erros que iriam reverberar no futuro. Agora meu senhor nos restam as tristes marginais congestionadas, enormes multidões desorientadas a olharem para cima para o vosso reluzente helicóptero que passa. É pra achar graça ?
                                                                   ***

Ricardo Soares, 27 de maio de 2010,nove da matina

Comentários

Luana Vignon disse…
e apesar de tudo isso a amo, como a um amante cafajeste. abraço.
Ricardo Soares disse…
eu tb Luana, eu também...abraço
Texto lindo, mais, magnífico!
Parabens. Pelo sentimento e pela maneira de descrevê-lo.
Granja Carolina disse…
Oi Ricardo que bom que esta de volta, sempre que posso entro no seu blog para apreciar os seus textos.
Escrever, falar ou pensar em São Paulo e sua versão gigante, Região Metropolitana, sempre é pensar em alguém que aqui chegou com desejo de aventura e perdeu o caminho de volta ao lar. Engraçado pensar que vivemos amaldiçoando este lugar, todos os dias. Parece que os ímpetos iniciais da aventura, do partir sem bagagem nem documento, das possibilidades do anônimo, acabam transformando todos em “sem lar”. São Paulo é tudo, menos o lar; não tem o conforto do lar, e a falta de identidade que no início pouco importava, com o tempo açoita. Os açoitados, dia após dia, noite após noite, com o espaço negado, a vida roubada, se vingam. Para muitos não sobra nada, do primeiro amor; outros tantos querem pedir desculpas, se redimir do ódio, recomeçar, mas, a cidade orgulhosa é soberba, cruel, jamais perdoa. Sua magoa sempre é maior, deveríamos saber que a aventura era um caminho sem volta.
Assim, o melhor é continuar, cuidar dos filhos nesta terra.
Mas o que fazer com a saudade do lar, do lugar de onde se era senhor de si.
Um dia, caminhando na rua, cheguei a pensar que todos debochavam de mim; foi neste dia que tomei a decisão de me esforçar e melhorar a minha aparência.
Com melhor aparência, deixaria de ser caipira, caboclo matuto.
Os dias se passaram e quando dei por mim, deixei de ser eu, era outros, muitos outros, mas agora eu podia ficar. Pensei em pedir perdão à cidade que me acolheu, no entanto o perdão que tanto queria, nunca veio.
O cinismo imperava e uma grande dose de desconfiança alimentava internamente o sentimento: será que posso viver assim.
Parti em aventura sem documento, agora quero voltar; não, eu não preciso voltar, esse é o meu lugar.

-Mas sinto falta do lar, pois e só lá, que sei amar.

Magoada, a cidade não perdoa e a mágoa não se vai.
Rodo, rodo e não saio do lugar e vou deixando fritar minha alma na frigideira de São Paulo, movida a modernidade da lenha.
Uma modernidade antiga, iniciada com a lenha das árvores de seus arredores com o capital da escravidão.
Vingativa e renitente ela te ensina o que é tradição de origem.
Em São Paulo a grande maioria, vaga procurando o caminho de casa, e pensa todos os dias, até mesmo no inconsciente de seus sonos com o lar.
São Paulo, você precisa aprender a perdoar.
Abraços da Carolina Menina

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