VOLTEI DE LUANDA


Não era para ter sido assim. Tipo coito interrompido. Voltei ao Brasil, após três meses de Angola, para passar aqui os 15 dias a que tinha direito conforme contrato. Aproveitei para fazer o maldito imposto de renda, renovar carteira de motorista e resolver as pendências das pendências que era fazer um check-up. Bendita hora. A bateria de exames me contemplou com uma diabetes e um começo de hipertensão,silenciosos males dos quais eu não suspeitava.
Isso posto,pesando prós e contras, resolvi aqui permanecer porque Luanda, convenhamos, não é o melhor lugar pra tratar desses males por inúmeros motivos. Um deles a total ausência de espaços públicos para se fazer caminhadas ou exercícios de qualquer espécie. Se São Paulo ressente-se disso diria que é uma verdadeira academia a céu aberto se comparado a Luanda, degradada metrópole africana que incha e inchou descontroladamente.
O que era para ser recesso portanto virou ausência. Deixei pra trás abraços a serem dados, despedidas a serem feitas, gentilezas a serem trocadas, trabalhos em andamento que eu ainda gostaria de concluir. Mas Luanda e Angola não considero capítulo encerrado na vida profissional. Apesar das mazelas ficou o gosto do incompleto, do “quero mais” e espero sim voltar, quiçá pra realizar um documentário por lá. Não quero que perdure em Angola a impressão que me ficou em relação à Colômbia de onde fui e voltei durante anos para realizar um trabalho que ao final ficou pela metade não por meu gosto mas por mesquinhez de dirigentes transitórios de tvs públicas.
Já deveria ter pego o avião de volta pra Angola e não peguei. Ficou a sensação do vôo de retorno que deveria ter sido mas não foi. Sentimentalismos a parte queria deixar açúcares e afetos a bons companheiros angolanos e brasileiros que comigo estiveram nesses três meses. Aprendi com eles pois a gente sempre aprende com o perdão do lugar comum.
Angola é um vasto território de contradições e paradoxos como deixei impresso nesse blog algumas vezes. Nem sempre pude falar claramente o que lá se passa e passava por conta de meu trabalho estar diretamente ligado ao governo já que eu participava de um programa cujo “aprovador” final era o Ministério das Comunicações. Agora, livre desses compromissos éticos, posso aos poucos dar impressões mais largas do que ali de passa, inclusive politicamente. Mas isso é assunto pra outros capítulos conforme o cotidiano de três meses ali passados passem a virar lembranças. Algumas boas, outras ruins, algumas péssimas. Das ruins a principal é ter me sentido sempre estrangeiro em Angola apesar do mesmo idioma. O mesmo não se passou na Colômbia onde sempre me senti iem casa. Os angolanos, para o bem e para o mal, fazem questão de deixar claro sempre que “estão a saber” que você é estrangeiro e não lhe concedem a sensação do "pertencimento". Impressão física que sente-se cada dia que se passa por lá por mais que você esteja imerso no cotidiano ou mesmo se confraternize com eles.
As impressões boas foram todas contadas aqui , a maioria delas, e as demais contarei aos poucos. E das péssimas devo ressaltar o absoluto desrespeito ao espaço público que se reflete também na ausência de silêncio. Acima vocês enxergam uma foto da “ Casa Branca” onde morei três meses. Meu quarto é o de cima, onde está a varanda. Desse quarto e dessa varanda presenciei inúmeras e contínuos desrespeitos ao silêncio seja por conta de um salão de festas defronte que alugava seu espaço para festejos que entravam noite adentro ( com música sempre altíssima e de péssimo gosto na maioria das vezes) seja por uma horda de boçais pitboys, filhos impunes de generais  , que faziam algazarra todos os dias da semana com gritarias, arremessos de garrafas de cerveja a distância, exibição de músculos acompanhada de atrofia cerebral e cantar de pneus de motos e carros possantes. Enfim, a jovem boçalidade humana e urbana em flor. Deles e disso tudo não sentirei a menor saudade e muito menos da feia paisagem  (foto abaixo) que vista da janela do meu quarto foi a primeira foto tirada em Angola, preâmbulo da aridez e feiúra urbana que eu iria encontrar. E com direito a bandeira do país ao fundo. Por sorte Luanda não foi só isso. Por sorte Angola e seu povo são muito mais do que isso e paisagens lindas estão por todo o país muito além das retinas fatigadas de Luanda...

Comentários

Guida Vanderlei disse…
Que pena Ricardo... Mas vc volta um dia sim, dizem que a gente sempre volta! Espero que vc melhore logo de saúde. Dia 6 de junho estou saindo do Rio... Vou para Manaus ou Natal, fazer campanha em uma dessas cidades. A proposta foi melhor! Manda notícias - meu e-mail é guidavanderlei@yahoo.com.br. Quero saber como está vc, sua saúde. Beijos
Gabi Forlin disse…
Que surpresa! É uma pena ter que ficar por problemas de saúde, mas fizesse mais do que bem em se preocupar primeiramente com isso. Com certeza vais reverter esse quadro rapidinho, desejo melhoras desde já! Quando for fazer o documentário por lá pode contar comigo hehe Também faço parte do time que ainda quer voltar pra aquelas bandas a trabalho...
Beijos e welcome home!
Tania Celidonio disse…
Ric,
Eu, que nem fui, posso sentir o gostinho do interrompido nas linhas escritas por você. Agora que a ausência se concretiza aproveite para escrever sobre o que não foi possível escrever enquanto lá esteve. Essa diferença entre os acolhimentos colombiano e angolano é muito interessante. Mais ainda se formos tentar descobrir por que algumas pessoas, como você, sentiram-se realmente estrangeiros em Luanda.
beijitos e bola pra frente que atrás tem muiiiiiiiiita gente!
Ricardo Soares disse…
Guida... já vai deixar a cidade maravilhosa?? mas que bom se for melhor pra vc né ??Manaus e Natal são cidades legais, cada qual com suas peculiaridades. Mas vc se descolou tão bem em Luanda há de se descolar bem nesses lugares...boa sorte para vc...mantenho contato sim e obrigada pelo carinho... bjs

Gabi...vc é essa sede de viver, aprender e me remeter ao meu passado onde os olhos brilhavam o tempo todo pela busca do novo e do inusitado. Me reconheço em vc e prezo esse seu espírito. Evidente que se a Angola eu voltar vou considerar sim seu entusiasmo pelo país... beijoca

Tan Pan querida...meio e singelo o seu recado. Vou aproveitar e escrever mais sobre o país sim, sobretudo como forma de entende-lo. Acho que assim se processam as coisas para mim. E a impressão de me sentir estrangeiro foi mesmo muito forte,tanto que já havia mesmo falado sobre ela em outro post... kisses, e vamos em frente novamente...
Se eu dissesse que não vou chorar porque diz um velho adágio popular que "Um homem nunca chora", estaria a faltar com a verdade para mim mesmo... Digo, antes, que não vou chorar com esta notícia, não porque tenho vergonha de ser confundido com um panina (gay), mas sim porque ouvi de alguém, um dia quando eu chorei amargamente pela partida de um grande e inseparável amigo, o seguinte; -"Bruninho não devemos deixar, nunca, que a nossa felicidade dependa de outra pessoa".
Graças a estas palavras consigo conter as lágrimas que tentam descer pelo meu rosto a baixo porcausa desta dura notícia que se refere ao teu não regresso a Luanda tão cedo.

Para trás ficam lições por se aprender com vc, risos a serem dados, histórias a serem contadas e a oportunidade de se tornar um grande profissional de jornalismo ao seu lado.

No lugar das lamentações que não resolverão nada... só resta-me uma palavra; "MUITO OBRIGADO RICARDONES"... Obrigado por tudo que vc fez por mim, pelas imensas oportunidades que vc me deu... obrigado por teres me comparado ao seu filho em questões profissionais.

Conte comigo no que precisar... Abraços.

Bruno Constantino... Luanda-Angola-África
Ricardo Soares disse…
Bruno fico sinceramente agradecido por suas palavras e repito o que já lhe disse ao vivo muitas vezes. Acredito no seu potencial e acho que se vc souber contornar todos aqueles obstáculos que já lhe expus ao vivo você terá um belo futuro em seu país onde há muito o que crescer no nosso segmento. Me perdoe se por vezes posso ter sido duro demais com vc ou outros profissionais. Mas jamais fui desrespeitoso e soube reconhecer cada acerto que vc deu. Inclusive fiquei muito feliz porque foi muito elogiada a sua participação naquela reportagem especial sobre a "sentada familiar". Hoje eu enderecei via Juliana uma carta de despedida a toda equipe. Gostaria que vc lesse e partilhasse com todos como Capitango,Miro, Alcina, Neru, etc, etc , etc... vcs ficarão sempre na sua lembrança e, voltando a Luanda, eu evidente vou procu~rá-lo... fica numa boa... grande abraço, estamos juntos...
Jaime Guimarães disse…
Poxa, Ricardo, essa da sensação de "não pertencimento" deve ter sido a coisa mais complicada por lá, mesmo estando inserido na cultura e na rotina na cidade por alguns meses. Sempre tive como conta de algumas pessoas aqui de Salvador que foram e voltaram de Angola como sendo bastante acolhedora...interessante alguns paradigmas que surgem a partir de vários pontos de vista.

Bom, te cuida. Essas doenças silenciosas requerem todo o cuidado do mundo e felizmente o check-up o alertou a tempo.

É isso, um abraço!
Marcio Gaspar disse…
...welcome back my friend, to the show that never ends...

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