Um café ao redor de Caio F.

Na ausência de boulevards, alamedas, bistrôs parisienses ou mesmo pubs londrinos que Caio Fernando Abreu tanto amava (talvez mais Londres do que os pubs) me encontrei ontem para um simpático e frugal café de diabético com a Paula Dip que há tantos anos não via em uma cafeteria de shopping mesmo. A cara de São Paulo no quesito praticidade pois o local ficava entre a minha casa e a casa dela. O ponto de  encontro poderia ser qualquer um já que como ela mesmo avalia os amigos de Caio F. sempre tem algo em comum. O motivo era esse mesmo. Paula gentilmente queria me dar de presente o seu livro  "Para Sempre Teu, Caio F. " cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu que me passou batido.Não pude sequer comparecer aos lançamentos em São Paulo e Rio pois estava flanando em outras plagas quando se deu a efeméride. Livro ofertado com bela dedicatória passamos a "fazer um tricô" básico sobre nossas lembranças de Caio em épocas e redações distintas. As horas passaram e não percebemos porque mais do que nosso encontro estávamos ali desfiando as lembranças de épocas em que as coisas se processavam de maneira muito diferente de hoje. Mas nada de saudosismo não. Nem de melancolia. Na fria tarde de outono na nada poética estrutura de um shopping center nada disso importava. O que estava importando era mesmo repartir uma cumplicidade geracional perdida . Algo como a cumplicidade de amigos que são pegos desprevenidos pela mesma chuva. Passei parte da noite de ontem pra hoje imerso no livro. Uma parte da manhã avancei muito mais. É quase um inventário de uma época. Não uma biografia. Curioso que meses atrás num desses aeroportos da vida dei de cara com o livro e fui comprá-lo sobretudo quando em determinada página dei com meu nome citado simpaticamente pelo Caio em uma carta pra Paula. Queria saber afinal do que ele falava além da literatura, dos amores inviáveis,das ilusões perdidas.Ecos da voz grave que nunca mais ouvimos. Mas quando fui comprar o livro vi que minha senha do  cartão de crédito estava bloqueada. Azar, pensei. Sorte, agora acho. Pois isso me deu a chance de reencontrar a Paula, ganhar dela o livro e repassar todos os mofados morangos de Caio. Olho pra cima e não vejo as luzes dos corredores daquela redação que lembrava a ele um soturno corredor de hospital. A vida é mesmo curiosa hein Caio ? os corredores creio que ali ainda estão e você virou ícone de uma geração. Virou rima, não virou solução. Viva Caio F. que vivo está entre nós... 

Comentários

João Barboza disse…
cê tava fazendo falta na área da cultura, onde tanta gente bate de canela com cara de craque. Sê-de benvindo.
João Barbosa disse…
Ricardo, vc tava fazendo falta nesse universo cultural.Tanto nego grosso, batendo de canela e com pose de craque.
Feliz volta de um menino da vila, sem máscara!
Ricardo Soares disse…
De gentileza ímpar seus comentários prezado João. Mas acho que não estou com essa bola não. Ou então perdi a mão, de novo pra falar de rima e não de solução. O problema é que a área da cultura está cheia mesmo de beque de fazenda fazendo pose de craque e metido que nem o Luxemburgo. Janotinhas de estufa. Anos nessa lida me cansei. E acho que nem me querem de volta nessa área... mesmo assim, thanks pelo afago. Aquele abraço.
Cafeína disse…
sempre passo por aqui pra tirar alguma luz dos textos do Ricardo pra minha vida... beijo
Intrépida disse…
é. faltou a "famosa" foto da redação, e você, Caio, e um bolo.

lembra quando eu li o livro e a carta sobre o tal Ricardo? perguntei: "é você, é você?".

bobinha né. claro que era.

inveja. de vc, da Paula, e dessa época - que vivi como criança.


beijo.


PS: eu disse q você ia gostar do livro. Ponto pra mim :P
Por essas e outras que o grande Borges dizia que o paraíso só pode ser mesmo uma biblioteca, Ricardo.

Os livros estão sempre nos emaranhando em suas teias.

Abraço
Claudia Ka disse…
Não fiquei de mal.... rs. De jeito algum ! Postei dois comentários porque um foi com um endereço de um blog que não uso e talvez você não soubesse que fui eu quem comentou... Aí loguei com a conta que costumo postar aqui e comentei de novo. Eu achei que foi viagem o que pensei sobre o destaque do meu blog e fiquei com vergonha... Porque pedi para dois amigos visitarem aqui e eu estava enganada... Não quis parecer presunçosa... Rs. Obrigada por visitar meus escritos, Ricardo.
serpai disse…
Olá...!

Sabes...? O meu blog conta já com um ano...! E para a ocasião escrevi algo que também é para ti... e, de passagem, podes ver que há um selo que podes levar, se assim o quiseres... Pois, como o seu nome indica, serve para "selar" este vínculo que nos uniu neste tempo transcorrido..., isso me encantaria..., e faria completo este festejo e a minha alegria...!
Ou se não..., ofereço-te uma flor de Ceibo que é a flor do meu país: Argentina.

Obrigado pela tua presença...!

Cumprimentos,

SERGIO.
Hunm... eu gosto dessas histórias de pessoas que talvez todo mundo não conheça... de pessoas que fizeram A diferença em algum lugar...de pessoas comuns e ilustres... que deixaram marcas e registros do que é viver...

=)
Gostaria de ler sobre o Caio F.; parece interessante!

Grande abraço Ricardo.
JP disse…
Prezado Ricardo, encontrei seu blog por acaso e gostei. Moro na capital de São Paulo e sou gêmea bivitelina. Criei um blog com o propósito de reunir histórias de gêmeos - contadas por eles próprios ou por seus familiares. Se puder divulgar entre seus contatos, fico muito grata.
Abs, Jemima Pompeu
email: jemimapompeu@gmail.com
http://www.vizinhosdeutero.blogspot.com
Twitter: @vizinhosdeutero
Beta disse…
Que lindo, Ricardo!

Eu estou paquerando esse livro há meses. Agora me deu mais vontade ainda de começar logo essa leitura!

E o seu texto... ahhhh... impecável e emocionante.

Não sei quem teve mais sorte, você de conviver com o Caio, ou o Caio de conviver com você... na verdade, acho ambos sortudos.

Beijo grande.

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