Diante do prédio do Banco Francês

 
    Suspeito, de maneira até pueril, que conforme envelhecemos as lembranças se misturam em espasmos de memória e provocam intersecções curiosas em momentos inesperados quando menos suspeitamos. Explico : de repente a gente está posto em sossego numa situação especifica do presente e um consistente pedaço do passado lhe abalroa , nos leva a pensar no tempo que vivemos ou que perdemos , conforme a perspectiva.
     Sexta-feira última era feriado em São Paulo e esperava meu filho diante do prédio da Fiesp onde perdi vergonhosamente a exposição retrospectiva da fotógrafa Maureen Bisiliat – que me foi sugerida com enfâse pelo Marcelo Machado, atual companheiro de trabalho- encerrada dias antes e que eu ainda imaginava em cartaz . Como o filho estava atrasado observei o majestoso prédio do outro lado da Paulista, logo defronte ao prédio da Fiesp. Trata-se do edifício que abrigava a sede do banco Francês e Brasileiro (hj parece que Itaú)e onde , no 15 ° andar , eu deixei três proveitosos anos de minha vida profissional – entre 1983 e 1986- como redator da rádio Cidade FM e repórter do Jornal do Brasil ( notadamente do Caderno B) sem dúvida a melhor e mais consistente experiência da carreira, além da redação mais agradável onde trabalhei. Tanto que muitas vezes sonho que estou de volta a essa redação e encontro entre cafezinhos e risos antigos colegas que inclusive não estão mais entre nós. Assim são feitas as desmemórias, se é que me entendem.
      Mas não estou aqui a falar do JB , tema ao qual pretendo voltar inclusive porque o jornal vive ameaça de extinção definitiva. Vim falar dessa mistura de sensações e de lembranças que são provocadas quando no meio do turbilhão nos damos tempo de mirar para um edifício ou situação que já nos foi cara no passado. Acho inclusive saudável que não nos detenhamos em tantas lembranças pois senão seria insuportável continuar vivendo. Viver é hoje, pra frente. Mas o passado anda como uma bolsa de canguru grudado na gente e quando  menos esperamos  libera um marsupialzinho de dentro.
      Ali defronte ao prédio do Banco Francês esperando um filho de 22 anos eu lembrava de coisas vividas em épocas que ele sequer existia , uma época onde eu ainda amava a mãe dele e tantas coisas tinham significado distinto de hoje em dia. A avenida Paulista era diferente , as pessoas que subiam os elevadores eram diferentes , a mansão dos Matarazzo ainda estava de pé e a estação Trianon do metrô sequer havia sido erguida. Eu , de colete preto diante do prédio da Fiesp, não era confundido duas vezes com um segurança como fui e nem imaginava ver o fantasma de Lina Bo Bardi – que pensou o Masp aqui do do lado – passando do meu lado. Ou então o que seria aquela mulher-criatura que resvalou em mim com incrível semelhança com a Lina ?
      A exposição da Maureen acabou e eu não vi. Lina se foi e muitas das suas lições não foram aprendidas. O filho chega e seu afeto me carrega pela vida. O que adiantaria eu dizer pra ele que defronte àquele prédio do Banco Francês tantos sonhos eu sonhei ?  Sonhos que eu não quero que ele perca. Ilusões perdidas que eu ainda imagino que ele ache.

Comentários

Marta disse…
ahhh provavelmente ele iria achar tudo uma bobagem porque ele só tem 22 anos, mas com certeza ele se lembraria desse momento e se emocionaria quando ele tivesse 50, pois tem coisas que só são esclarecidas ao 50... adorei o texto!

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