Os fantasmas dos shoppings

    

   Antes, no passado, as almas errantes vagavam pelas ruas dos centros. Do Rio, São Paulo, Belo Horizonte pelas ruas do Ouvidor, Quitanda ou da Bahia. Vagar a esmo, contornando a barra das tormentas de si mesmo (como diria o poeta Paulo Bonfim)era um ato poético, edulcorado por matizes sépia ou por fogs improvisados de fim de tarde. As almas errantes ,não aquelas desesperadas em busca do suicídio, buscavam ao vagar pelas ruas centrais os próprios caminhos internos muitas vezes perdidos. Mas as cidades cresceram,as almas errantes aumentaram mas já não vagam por ruas, alamedas ou avenidas centrais. As almas errantes estão mais áridas e ávidas de alento e acolhimento mas desandam por assépticos corredores dos cosméticos shopping centers brasileiros.
    Que há de mais triste que uma alma vagar errante num corredor de shopping ? Insípido,inodoro templo do consumo e da falta de conteúdo é bom lembrar que uma alma errante não se compra. Muito menos quando tudo ao lado está a venda. Emoções, prazeres,aventuras, texturas e sabores. Essas almas vagam entre luzes frias, cafés expressos, pipocas fedidas de margarina, pares de sapatos não comprados, passos em falso e não dados. Querem ser reconhecidas e recolhidas em sua aflição, almas de canção popular, almas remotas em meio a pseudo modernidade.
    Se antes, no passado,as almas errantes cozinhavam suas angústias em cafés e bulevares, chapéus sobre as cabeças, guardas-chuvas nas mãos como hoje elas estão falsamente abrigadas nas redomas de vidro desses shoppings. Que triste é ver uma alma errante e solitária almoçando um horrendo camarão empanado feito em série numa daquelas mesinhas das praças de alimentação. Isso é a completa tradução da tristeza globalizada, do tudo que o cartão de crédito nos leva a nada.
     Mudam os tempos,mudam as angústias e é preciso carnavalizar o tédio e a descrença pra continuar vivendo. E na lógica comum do consumismo , que fabrica os fantasmas dos shoppings, tudo vale a pena se a loja não é pequena.

                              ***
Ricardo Soares- 20/09/2010 

Comentários

Claudia Ka disse…
Eu andava muito pelas ruas de SP. Muito mesmo, uma verdadeira flaneur. Vendo rostos, rostos que não me viam. Moro na periferia, gostava de ir no centro para fazer isto. Onde eu pudesse realmente ver pessoas. Olhos, fisionomias, a tradução da personalidade na aparência e postura.

Só que envelheci.
E minhas pernas ficaram cansadas.

E cansei de ver rostos que não me dizem respeito.

Hoje em dia também vou no Shopping ler meus livros. Cantos sossegados, bancos no passeio (público ?). Gosto de conversar com a gerente da cafeteria que me atende há mais de dez anos, até quando eu ia lá de 6 em 6 meses. Há comida boa e rápida (e barata). E não há só é hamburguer e camarão empanado nas praças de alimentação. Como todo o lugar, há o que escolher.

Se eu tivesse um carrão como o seu (foi roubado, né ? Comprou outro ?) podz crer que ia dar uns rolês nele ao invés de ficar lendo solitária no templo das compras.

Eu gosto do que você escreve, mas muitas vezes você é bem prepotente.

;-)

O que é bom para você pode não ser bom para mim e vice-versa.

Abraço.
Ricardo Soares disse…
você tem toda razão Claudia...o que pode ser bom para um pode não ser bom para o outro...mas não quis ser prepotente...apenas dizer o quanto acho triste vagar por shoppings ao invés das ruas... o fim das ruas nessa cidade de Sp é que entristece...bj e bom fim de semana
Fabricio Carlos disse…
Ainda há 'almas errantes' que sobem a Bahia ou que caminham ao longo da Afonso Pena. Cada vez mais apressadas essas almas, e menos, ainda tem aqueles que param e se perdem nos detalhes...

os shoppings são um mal (q veio a bem?) que veio para ficar... Ainda é posssivel conviver com ambas as realidades....

abraços...

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